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Jesus – uma biografia revolucionária (John Dominic Crossan) *

 

Titulo original: Jesus, uma Biografia Revolucionária

Crossan, John Dominic

Jesus: uma biografia revolucionária

Tradução de Julio Castanon Guimarães

Rio de Janeiro: Imago Ed., 1995

220 páginas

Jesus: síntese de uma biografia revolucionária

Por Natali

 John Dominic Crossan tem as credenciais para ser considerado um dos maiores especialistas, do mundo, em Jesus histórico e cristianismo primitivo. Até o ano de 1995, ministrou estudos bíblicos na DePaul University, em Chicago. Atualmente, é professor emérito no departamento de estudos religiosos na mesma instituição. Nos últimos quarenta anos, ele publicou vinte e sete títulos sobre Jesus histórico e cristianismo primitivo. Entre os mais conhecidos, estão os seguintes livros: “O Jesus histórico – a vida de um camponês judeu do mediterrâneo”, “O nascimento do cristianismo”, “Em busca de Paulo”, “A última semana – um relato detalhado dos dias finais de Jesus”, que foi escrita em co-autoria com Marcus J.Borg e, “Jesus – uma biografia revolucionária”. 

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O livro Jesus – uma biografia revolucionária, obra a qual passarei a me referir, é descrito pelo próprio autor como uma versão mais popular e compacta do best seller “O Jesus histórico – a vida de um camponês judeu do mediterrâneo” e, por essa razão, mais direto, impactante e provocador de intermináveis debates e discussões sobre o tema. No entanto, como ressalta o próprio Crossan, o seu espírito de honestidade não se modificou de uma obra para outra. 

Aproveito-me do tema honestidade, mencionado por Crossan, para destacar que o que descreverei a seguir é uma síntese, a mais isenta possível, sobre o seu livro “Jesus – uma biografia revolucionária”. Como estudiosa do tema cristianismo e espiritismo, tenho algumas concordâncias e algumas discordâncias com o escritor. Porém, aqui, não as revelo, nem faço qualquer análise de sua respeitável obra. O meu intuito é apenas apresentar, nesse espaço, algumas de suas idéias.

O estudo acadêmico do Jesus histórico pode ser definido, de uma forma bem despretensiosa, como o que você teria visto e ouvido, se tivesse sido um observador mais ou menos neutro, durante as primeiras décadas do primeiro século. O Jesus histórico é distinto do Cristo confessional, porém não invalida a fé de qualquer religião.

No prólogo, Crossan inicia com um relato das dificuldades do estudo do Jesus histórico, uma vez que os evangelhos são interpretações, e não biografias de Jesus, como muitos 2o supõem. Os evangelhos canônicos são coletâneas planejadas com fins doutrinários. Assim sendo, é difícil extrair deles um perfil de Jesus. O planejamento não isento dos evangelhos canônicos fica claro através do estudo dos evangelhos apócrifos, principalmente do Evangelho de Tomé e do Evangelho de Q, fonte utilizada pelos evangelhos de Lucas e Mateus. O autor ressente-se também da falta dos documentos originais. 

Diante de tais dificuldades, o autor se utiliza de um método de estudo que situa o Jesus histórico no cruzamento de três vetores. O primeiro deles é a antropologia intercultural que se baseia em dados antropológicos da antiga cultura do mediterrâneo. O segundo é a história greco-romana, usando, principalmente, o historiador judeu Flávio Josefo como referência bibliográfica. O terceiro vetor é o literário ou textual, o qual considera que os Evangelhos canônicos não são nem uma coletânea total de todos os textos disponíveis, nem uma amostragem ao acaso selecionada deles. Alguns evangelhos foram deliberadamente aceitos e incluídos, enquanto outros foram rejeitados e excluídos. Outros aspectos que se deve salientar foram a retenção de materiais originais de Jesus, os desenvolvimentos desses materiais originais e a criação de materiais completamente novos. Crossan leva em consideração, também, as discrepâncias e as diferenças entre os diversos relatos. Desta forma, se concentra no mais antigo estrato da tradição, em materiais datados do período entre 30 e 60 E.C. Também nunca se baseia em nada que tenha apenas uma única atestação independente.

Dos quatro evangelhos pertencentes ao Novo Testamento, apenas Mateus e Lucas descrevem um relato do nascimento de Jesus ou de seus primeiros anos de vida. Segundo Crossan, não é a ausência do relato nos outros evangelhos que merece explicação, e sim a sua presença em Mateus e Lucas. Um ponto em comum em ambos os evangelhos citados é que Jesus nasceu no governo de Herodes, entre 37 e 4 A.E.C (antes da era cristã). Ou seja, Jesus nasceu pelo menos quatro anos antes do marco inicial da era cristã, referido popularmente pelos cristãos do mundo ocidental como A. C. (antes de Cristo). Como a morte de Herodes foi marcada por uma grande rebelião social e política que culminou com uma repressão violenta e a crucificação de dois mil rebeldes, o fim da era do rei Herodes ficaria gravado facilmente na memória popular. Assim, é possível que as primeiras tradições cristãs pudessem se recordar se Jesus nasceu antes ou após esse fato histórico. Quanto ao período de sua morte, Jesus morreu entre 26 a 36 E.C., período esse que coincide com Pôncio Pilatos como prefeito da província romana da Judéia.

Os relatos de Lucas e Mateus são diferentes com relação às condições do nascimento de Jesus. Lucas inclui os pastores e os anjos, o estábulo e a manjedoura, enquanto Mateus inclui os Reis Magos, o massacre dos inocentes por Herodes e a fuga para o Egito. 

Lucas relata, paralelamente, as histórias dos nascimentos de Jesus e João Batista. Esse evangelista integra e correlaciona o nascimento de Batista às Escrituras Hebraicas em que o filho predestinado nasce de um casal infértil e/ou idoso e que sua própria concepção anuncia essa predestinação para a grandeza. O paralelismo continua com a exaltação do nascimento de Jesus sobre o de João Batista, um nascido de uma virgem e o outro de pais velhos e estéreis. A exaltação de Jesus tem continuidade na descrição do crescimento dos meninos: enquanto Jesus é encontrado no templo, sentado no meio de doutores, João habitava o deserto para fortalecer o espírito. O questionamento que cabe aqui não é o fato de Jesus ser claramente maior aos olhos de Lucas, mas, sim o fato de Lucas precisar exaltar Jesus em relação a João Batista.

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 Mateus também relaciona o nascimento de Jesus às Escrituras Hebraicas, estabelecendo uma correlação com a infância de Moisés. Na história de Moisés, o faraó ordena que todos os meninos ao nascer sejam jogados no rio Nilo. Moisés só se salva porque a sua mãe o esconde em uma cesta e o lança às margens do rio, de onde é resgatado pela filha do faraó. Quando adulto Moisés liberta o seu povo da escravidão do Egito e o conduz à Terra Prometida. Em comparação com a história de Jesus, o rei Herodes também ordena matar um menino predestinado a salvar o seu povo. Porém, Jesus foge com seus pais para o Egito, a terra da qual Moisés escapou.

Mateus e Lucas, além da data aproximada do nascimento de Jesus, concordam em três aspectos: a concepção virginal, a ascendência davídica e o nascimento em Belém. Crossan busca em Isaías 7,14-25 a profecia da concepção virginal: “Eis que a jovem esta grávida e dará a luz a um filho e dar-lhe-á o nome de Emanuel”. Segundo Crossan, Mateus que conhecia a profecia tomou seu termo virgem para aplicá-lo não somente ao estado anterior da mãemas ao seu estado permanente mesmo após a concepção.

Quanto ao local de nascimento, tanto Mateus quanto Lucas concordam que foi em Belém. O povo judeu, massacrado por anos de exploração estrangeira, aguardava o messias que libertaria seu povo da subjugação. Mas esse rei judeu deveria, pelas profecias, pertencer à linhagem do rei Davi e nascer em Belém. E no livro de Miquéias do final do século oitavo A.E.C. que Crossan identifica o local de nascimento daquele que deveria ser o messias: “Mas de ti, o Belém de Efrateu, que é um dos pequenos clãs de Judá, de ti virá para mim àquele que governará em Israel, cuja origem e de outrora, de tempos antigos”.

 Segundo Mateus, José e Maria sempre residiram em Belém e só se mudaram para Nazaré após o retorno da fuga para o Egito. Já Lucas usa a desculpa do recenseamento para deslocar o nascimento para Belém. A historia contada por Lucas possui várias fragilidades, pois alguns acontecimentos relatados por ele não são comprovados historicamente. Por exemplo, não há uma documentação histórica de que tal censo ocorreu durante o período de Otávio Augusto. Existe, apenas, o relato de um censo que abrangeu a Judéia, Samaria e Iduméia, porém esse fato se deu dez anos após a morte de Herodes, o que não corresponde ao período relatado por Lucas. Também, as pessoas são registradas em censos nos seus locais de trabalho ou moradia, sem necessidade do transtorno do deslocamento. Para Crossan, as histórias contadas pelos dois evangelistas sobre o nascimento são cativantes, mas não passam de pura ficção. O local mais provável do nascimento de Jesus é Nazaré. O nascimento em Belém descrito por ambos nada mais é que uma tentativa de oficializar o cumprimento da profecia.

Pelo relato de Marcos 6,3, acredita-se que Jesus teve ao menos quatro irmãos, cujos nomes eram Tiago, José, Judas e Simão e também duas irmãs. No mesmo relato é referido que Jesus era carpinteiro de profissão, não um carpinteiro como nos tempos modernos que é bem remunerado, um fabricante de móveis. Na sua época, a profissão de carpinteiro era considerada como de classe inferior, um tekton que significava um “faz-tudo”. Além disso, como 95 a 97 % do estado judaico eram de analfabetos, supõe-se que Jesus também era analfabeto, mas era conhecedor de uma cultura oral – que incluía historias básicas de suas tradições-, assim como a maioria de seus contemporâneos. Cenas como Jesus surpreendendo os mestres no Templo de Jerusalém são consideradas por Crossan como pura propaganda doutrinária de Lucas.

Segundo Crossan, dizer que Jesus foi batizado por João Batista é tão certo historicamente quanto pode ser qualquer coisa sobre os dois. A tradição cristã fica claramente embaraçada com o batismo de Jesus por João Bastista, porque o fato parece tornar João Batista superior a Jesus. Para minimizar essa situação, há trechos bíblicos com frases proferidas pelos envolvidos nesse episódio, como as que se pode verificar em Marcos 1, 9-11 em que logo após o batismo, uma voz dos céus anuncia: “Tu és o meu Filho, amado, em ti me comprazo“. O relato de Lucas 3, 2-1 é um pouco mais exagerado e põe palavras na boca de Batista: “Eu é que tenho necessidade de ser batizado por ti e tu vens a mim?”.

 João Batista era um profeta apocalíptico e acreditava que Deus faria o que a força humana não podia fazer: destruir o poder romano. Em relação a Jesus, a principal pergunta não é se ele começou como um profeta apocalíptico também, mas se continuou como tal, e se, quando iniciou a sua própria missão, o fêz recolhendo a bandeira caída após a morte de Batista. Mas, ao que parece, pode ter sido a execução de João Batista que levou Jesus a compreender um Deus que não atuou e não atuaria por meio da restauração apocalíptica iminente. Jesus compreende que o Reino de Deus não é um reino futuro, é um reino aqui e agora! 

O Reino de Deus é uma proposta definitivamente muito ousada de Jesus. Uso, para elucidar essa ideia, as próprias palavras de Crossan: ”Não convidava a uma revolução política, mas encarava uma revolução social nas profundezas mais perigosas da imaginação”. Jesus foi o anunciador de uma intermediação que não deveria existir entre a humanidade e a divindade. Esse foi um dos motivos da ira dos sacerdotes do Templo contra ele. Sua proposta não era dependente de uma intervenção divina para restituir a justiça e a paz a uma terra violentada pela injustiça e pela opressão. A consumação desse reino seria tangível e visível para todos, crentes e incrédulos, mas com destinos distintos para cada grupo. O Reino de Deus representava um estilo de vida para o presente, mais do que uma esperança para o futuro. Era um reino para todos, sem distinções ou hierarquias: homens e mulheres, judeus e não judeus, escravos e livres, ricos e pobres, crianças e adultos. Em vários momentos da pregação de Jesus, o grupismo familiar foi negado em favor de outro aberto a todos que desejassem aderir a ele, tal qual uma grande fraternidade universal, alicerçada num igualitarismo radical. A comensalidade aberta, onde todos – judeus, publicanos, doentes e prostitutas – compartilhavam de uma refeição comum, era o símbolo e a corporificação do igualitarismo radical. Jesus levava a cura gratuita em troca da partilha gratuita. Apesar de não fazer distinções, Ele pregava principalmente para os destituídos que, por definição eram mais que pobres, vitimas de um sistema social desigual que vivia na penúria. Em suma, o Reino de Deus é o que o mundo poderia ser se Deus estivesse direta e imediatamente a sua frente. 

 

 Segundo Marcos 6, 8-9, Jesus recomendava, aos seus seguidores, que nada levassem para o caminho da pregação, nem pão, nem alforje, nem dinheiro no cinto, apenas um cajado e que calçassem sandálias, porém não levassem duas túnicas. Uma vez que havia uma reciprocidade cura-comida, não era necessário que se carregasse alforje ou dinheiro. Ao longo dos séculos I e IV, o galileu pobre que pregava uma mensagem radicalmente inédita e humanitária tornou-se o Filho de Deus, e a fé Nele tornou-se mais importante que a fé Dele.

Além da mensagem maravilhosa ou assustadora sobre o Reino de Deus, Jesus partia para a ação através das curas de doenças e exorcizações de demônios. Em relação à tão mencionada lepra na Bíblia, o autor enfatiza que a mesma era conhecida na época como elephas ou elefantíase, e que lepra servia para denominar qualquer doença descamativa da pele. Algumas delas passíveis de cura fácil ou espontânea. Em uma sociedade na qual predominavam valores como a honra e a vergonha, a pessoa leprosa não representava uma ameaça de contaminação médica, mas sim uma contaminação simbólica social, em que o acometido por uma maldição poderia tornar impuros os que dele se aproximassem. Crossan ressalta a diferença de conceitos entre doença e enfermidade. A primeira representa uma mudança na estrutura e função dos órgãos e sistemas, enquanto a segunda representa uma mudança negativa em estados de ser e de função social, sendo um acontecimento psicológico e social. O enfermo sofria de estigma social devido a sua impureza e, por isso, era isolado e rejeitado por seus pares. Segundo Crossan, os milagres de cura de Jesus nada mais eram do que a cura da enfermidade, que se caracterizava pela reintegração e acolhimento do enfermo pela comunidade.

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Sobre possessão, o autor afirma não crer que haja espíritos sobrenaturais que possam invadir os corpos das pessoas. Dessa forma, Crossan busca outras explicações para o fenômeno e acredita que esse seja uma forma especial de perturbação múltipla da personalidade. Em continuação à sua linha de raciocínio, Crossan se respalda na tese de “Estados alterados de consciência”, explicando que parece existir um espectro normal para atividade física ou mental e para a química cerebral que media entre eles. Qualquer coisa acima ou abaixo desse espectro pode criar o transe ou outras denominações sinônimas como êxtase, dissociação ou estados alterados de consciência. O transe pode ser produzido por qualquer alteração crítica, para mais ou para menos, na estimulação externa dos sentidos, concentração interna da mente ou composição química da neurobiologia do cérebro. Deve ser aceito como um universal humano e com modelagem psicossocial. Assim, um católico em transe não terá a visão de Krishna ou de Maomé, mas sim da Virgem Maria, por exemplo. O transe é absolutamente intercultural e transtemporal, porém o conteúdo é condicionado psicoculturalmente. O autor procura uma explicação para o motivo de ter havido tantos transes no século I na opressão que o império romano exercia sobre os povos subjugados. Ele acredita existir uma relação entre a possessão e a opressão. A possessão é tida por Crossan como uma revolução simbólica individualizada contra as pressões sociais, familiares e o imperialismo romano. Os milagres de cura de Jesus o põem em rota de colisão direta com as autoridades sacerdotais do Templo, uma vez que Jesus exercia funções que eram atribuições dos sacerdotes que cobravam por esse trabalho.

Segundo o autor, o igualitarismo espiritual e econômico que Jesus pregava explodiu em indignação no Templo que era símbolo de tudo que não era igualitário e mesmo opressivo nos níveis religiosos e políticos. Os sacerdotes do Templo eram coniventes com o poder opressivo romano. Marcos 11, 15-18 se refere à expulsão dos vendedores do Templo e relata essa frase: ”Os chefes dos sacerdotes e os escribas ouviram isso e procuravam como fazê-lo perecer, pois toda a multidão estava maravilhada com o seu ensinamento”. Parece ficar claro para o autor do Evangelho segundo Marcos que o incidente no Templo foi o fato desencadeador da morte de Jesus. Crossan acredita que após o fato ocorrido no Templo, os soldados se deslocaram imediatamente para prendê-lo.

A crucificação era usada, pelos romanos para os escravos, para criminosos violentos e rebeldes. Pela descrição de Crossan, Jesus se enquadrava na última categoria. O fato de a crucificação ocorrer publicamente servia de intimidação contra novos rebeldes. O criminoso era crucificado nu, açoitado antes da crucificação e exposto, enquanto crucificado, em local de grande circulação a fim de ser objeto de humilhação. A vítima não era enterrada, mas abandonada, a própria sorte, na cruz que era baixa o suficiente para que o crucificado servisse de alimento para os animais selvagens. Os cães se alimentavam das partes inferiores do corpo e os abutres, das partes superiores. A falta de sepultamento digno era considerada uma desonra para os costumes da vítima e de sua família. Mesmo quando havia sepultamento – o que era um acontecimento excepcional -, o morto era deixado, pelos próprios soldados romanos, em cova rasa e seu corpo tinha o mesmo destino dos que permaneciam na cruz. A descrição de como as vitimas da crucificação eram tratadas tem respaldo histórico, pois foi encontrado um único esqueleto crucificado em Giv’at ha-Mivtar, nordeste de Jerusalém, em 1968. O esqueleto era do jovem Yehochanan, que tinha entre 24-28 anos. Crossan considera o caso de Yehochanan uma exceção à regra, pois, se a família tivesse uma grande influência política, a pessoa em questão não seria crucificada e, ainda se a pessoa chegasse a ser crucificada, sua família não teria influência suficiente para obter um sepultamento digno. Crossan considera José de Arimatéia uma criação de Marcos, consequentemente Jesus não foi retirado da cruz e enterrado, como consta em alguns evangelhos. Jesus era de origem humilde e a sua família não poderia exercer qualquer tipo de influência, junto aos governantes, para que fosse retirado da cruz e, posteriormente, devidamente sepultado conforme os costumes de seu povo.

Após o incidente no Templo, a morte de Jesus era previsível. O que não era previsível era que o fim não fosse o fim!

A fé cristã é fortalecida e não enfraquecida pela morte de Jesus. E é isso que os Evangelhos nos relatam: transformar o fato da morte de Jesus um evento de fortalecimento. Logo após a morte de Jesus, a expectativa dos seguidores era a parusia. A ressurreição se inicia com Paulo que era fariseu e acreditava na ressurreição das pessoas no final dos tempos. As aparições de Jesus para seus seguidores são consideradas por Crossan como transes, ou seja, estados alterados de consciência como foi explicado anteriormente. O que interessa nas aparições não são as mensagens, mas que elas outorgam o poder a quem as vê, como a exaltação da liderança de Pedro em detrimento da de João e Tomé em João 21, 1-8, capitulo que é considerado um enxerto posterior por exegetas. Em João 20, 1-18, a liderança de João é exaltada em detrimento da de Maria Madalena, Pedro e Tomé. O autor destaca que a liderança de Maria Madalena também necessitava de oposição. O que se pode observar aqui é uma disputa de autoridades nas diferentes comunidades na origem do cristianismo primitivo.

A comensalidade aberta de Jesus foi ritualizada em separado após a sua morte, seja como eucaristia da refeição de pão e peixe, seja de pão e vinho. Lideranças específicas ou de grupos líderes sobre comunidades em geral foram enfatizadas utilizando-se refeições eucarísticas. Em Lucas 24, 13-46, há o relato de que dois seguidores de Jesus deixaram Jerusalém em direção a Emaús, tristes, após a morte de Jesus. No caminho, Jesus juntou-se a eles, mas não foi reconhecido de início. Foram seguindo pelo caminho enquanto conversavam e Jesus explicou-lhes como as Escrituras Hebraicas deviam tê-los preparado para o destino dele. Os seguidores convidaram-no para uma refeição. Jesus tomou o pão, o abençoou, depois o partiu e o distribuiu a seus companheiros de viagem. Então, seus olhos se abriram e eles o reconheceram. Voltaram alegres para Jerusalém. Para Crossan, o simbolismo desse fato é claro: Emaús nunca aconteceu, mas Emaús acontece sempre!

Enfatizo mais uma vez que o Jesus histórico é diverso do confessional. Para nós, espíritas, Jesus é um espírito puro, considerado o mais evoluído de todos no planeta e o maior exemplo a ser seguido. Para os católicos romanos, Ele é o Verbo de João, o próprio Deus. Já para os judeus e os mulçumanos é mais um profeta. No entanto, por mais que se estude sobre Ele ainda permanece uma pergunta: quem foi realmente este homem que após 2000 anos, ainda é capaz de emocionar e manter entre nós viva a sua mensagem maravilhosamente humanitária e atemporal?

Finalizo esse texto dando a palavra ao próprio Crossan: “Não é suficiente, portanto, continuar dizendo que Jesus não nasceu de uma virgem, não nasceu da linhagem de Davi, não nasceu em Belém, que não houve estábulo, pastores, estrela, magos, massacre de crianças e nem fuga para o Egito. Tudo isto é verdade, mas ainda fica a pergunta sobre quem era e o que fez para levar seus seguidores a fazer tais afirmações. Esta é uma questão histórica…”

 

* postado originalmente em 21/10/2013 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/

O que Jesus Disse? O eu Jesus não disse? Quem mudou a Bíblia e porque *

Por  Bruno Fabiano de Sá Oliveira

 

 

O que Jesus Disse? O eu Jesus não disse? Quem mudou a Bíblia e porque

Bart D. Ehrman – Título original: Misquotig Jesus: The Story Behind Who Changed de Bible and Why

Tradução: Marcos Marcionilo– Prestígio Editora, 2006

 

Bart Ehrman é PhD em Teologia pela Princeton University of North Caroline, especialista em Novo Testamento, igreja primitiva, ortodoxia e heresia, manuscritos antigos e na vida de Jesus. Quando jovem, motivado pela pratica do Cristianismo e estudo da Bíblia, ingressou no Moody Bible Institute de Chicago e, após três anos de estudo da Bíblia, decidiu se formar em Teologia, na faculdade evangélica Wheaton College, onde após aprofundar seus estudos em relação aos textos bíblicos, foi paulatinamente se dando conta da quantidade de alterações que havia em relação aos textos das bíblias disponíveis e o texto disponível em grego.

Aprofundou seu conhecimento em línguas, para poder compreender melhor manuscritos antigos, e quanto mais estudava estes, mas notava que, contrariamente ao que a tradição prega, as palavras constantes na Bíblia estavam longe de ser inspiradas por Deus. Tais estudos o conduziram a um caminho completamente diverso daquele que ele inicialmente tinha planejado, quando ingressou no Moody, para se tornar um divulgador da Bíblia como muitos de seus amigos fizeram. Sua dedicação aos estudos dos textos antigos e o vasto conhecimento adquirido durante anos de pesquisas lhe renderam a alcunha de “a maior autoridade em Bíblia do mundo”.

Nesta obra composta de sete capítulos, Ehrman mostra de maneira didática todos os porquês das milhares de mudanças que os pesquisadores dos textos bíblicos identificaram desde o início do século XVII, quando começaram a surgir pessoas dispostas a buscar uma aproximação aos textos originais que compõem a Nova Aliança.

No primeiro capítulo ele mostra que, assim como o Judaísmo, o Cristianismo também era uma religião do livro, apesar das características dos povos daquele tempo, principalmente dos Cristãos, que se tratavam em sua quase totalidade de pessoas analfabetas, mas cuja fé, com o passar dos anos, trouxe para a nova religião pessoas cultas que participaram da elaboração e disseminação dos ensinamentos de Jesus.

É ainda mostrada a produção dos mais diversos tipos de textos (Evangelhos, Cartas, Epístolas, Apocalipses, etc) que, para serem difundidos, dependiam do ofício de copistas.

Depois, no segundo capítulo, Ehrman ilustra como a falta de preparo dos primeiros copistas contribuiu desde os primórdios com a modificação dos textos originais, devido à disseminação destes pelo mundo Cristão, seja por incapacidade, cansaço, necessidade de combate daqueles que se julgavam ortodoxos contra conceitos considerados heréticos, etc.

É exemplificada também a inserção, por parte de copistas, de trechos inteiros que não constavam dos textos originais como, por exemplo, a passagem da mulher flagrada em adultério, onde é mostrado que tal passagem tem estilo de escrita completamente distinto do restante do evangelho onde se encontra e que a mesma não consta de diversos manuscritos antigos. Outros exemplos também são abordados neste capítulo.

No terceiro capítulo é mostrado como se chegou aos textos que dispomos atualmente pela atividade dos copistas profissionais, à partir do século IV, da elaboração do cânon sagrado, da criação da Vulgata Latina (até então os textos existentes utilizavam principalmente o grego mas, após a oficialização do Cristianismo como religião do Império Romano, exigiu-se a tradução dos textos para o latim).

Ele mostra também como foi o resgate dos textos mais antigos em grego e, com o advento da imprensa, já no sec. XVI, o surgimento dos primeiros pesquisadores das escrituras, bem como o princípio da identificação das falhas nos textos.

O quarto capítulo enfatiza a busca dos estudiosos pelos textos mais antigos possíveis, como consequência da quantidade de erros que começaram a ser mapeados pelos mesmos. São mostrados os trabalhos de alguns pesquisadores antigos e suas conclusões a respeito das milhares de alterações identificadas por estes.

No quinto capítulo, Ehrman apresenta uma técnica desenvolvida desde o princípio do sec. XVI, aprimorada pelos estudiosos das escrituras, que visa a avaliar se uma determinada passagem trata-se de um original ou trata-se de consequência de erros ou inserções – a Critica Textual. Tal técnica auxilia sobremaneira na clarificação a respeito de passagens polêmicas que constam (ou constaram) nas escrituras. Jesus sentia ira? Sentiu medo com a perspectiva do que enfrentaria no calvário? Sentiu-se abandonado por Deus na Cruz? Estas questões são avaliadas pela ótica da Crítica Textual, para se concluir a respeito do que provavelmente constava nos textos originalmente escritos, que evidentemente não são os textos que constam nas nossas Bíblias atuais.

Nos dois últimos capítulos, são mostrados exemplos de mudanças intencionais promovidas pelos copistas nos textos da Nova Aliança, seja porque estavam motivados por fatores teológicos, diante da necessidade de combate às heresias dos diversos Cristianismos existentes nos primeiros séculos, até a definição do cânon sagrado no sec. IV, seja porque motivados por elementos sociais, como a exclusão de referências à importância da mulher no culto das igrejas e conflitos com judeus e com pagãos.

Ehrman conclui o livro fazendo uma análise do que motivou tantas mudanças nos textos produzidos, mostrando que em grande parte tais mudanças se devem pela capacidade interpretativa do ser humano e que, em grande parte, tais mudanças para aqueles que as promoveram visavam realmente melhorar o texto. Não havia, portanto, a preocupação com a manutenção do texto original e muito menos com as consequências que tais mudanças provocariam para as gerações futuras, ou seja, a preocupação que motivou as mudanças sempre foi de momento, para garantir a manutenção da ortodoxia teológica em relação aos textos.

Enfatiza-se que, por se tratar de uma obra dos homens, até mesmo os autores foram responsáveis por modificações nos ensinamentos de Jesus, exatamente por serem humanos com necessidades e sentimentos.

Conclui-se de tudo o que é exposto no livro que não há como acreditar que as palavras contidas na Bíblia sejam inspiradas por Deus. Não se chega nem perto disso. O que temos hoje na Bíblia é um livro escrito por homens, alterado por homens, que é interpretado por homens e que, nestas interpretações, tiram conclusões das mais variadas formas. Porém, historicamente, os fatos não permitem que se creia na infalibilidade do que está escrito na Bíblia e tais fatos são chancelados em diversos momentos da história, por diversos ícones da Cristandade.

* publicado originalmente em 05/12/2013 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/

Evangelhos Perdidos, de Bart D. Ehrman*

Evangelhos Perdidos

 

Bart D. Ehrman – Título original: Lost Chirstianities

 

Tradução: Eliziane Andrade Paiva – 3ª.Edição – Editora Record

 

RESENHA

Bart D. Ehrman Chefia o Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, EUA. Uma autoridade nos estudos da Igreja primitiva e da vida de Jesus, é presença constante em programas de rádio e televisão. É autor de diversos livros relativos ao assunto Jesus Histórico.

Neste livro, dividido em três partes e doze capítulos, Ehrman mostra a diversidade de Cristianismos que existiam nos primeiros séculos da Era Comum, e se atem particularmente às obras que não chegaram até nós, por terem sido banidas do cânon sagrado que compôs a Nova Aliança que temos disponível nos dias atuais. Ele analisa diversos textos apócrifos descobertos a partir do século XVII e principalmente no século XX, com os manuscritos do Mar Morto e a biblioteca de Nag Hammadi. Se hoje já é difícil falar em Cristianismo, dada a enormidade de variantes existentes, para os mais diversos gostos (Presbiterianos, Manipuladores de Serpentes nos Apalaches, Sacerdotes Gregos Ortodoxos, Pentecostais, Evangélicos e muitos outros), nos primeiros anos do Cristianismo, a quantidade de visões em relação ao ensinamento de Jesus e dos apóstolos era significativamente maior, cada uma delas se declarando as portadoras da verdadeira fé e donas da correta interpretação destes ensinos, declarando todas as outras como doutrinas falsas e em muitos casos, vinculadas ao demônio. Havia cristãos que acreditavam em um Deus. Havia aqueles que acreditavam em dois, outros em trinta e outros que diziam ser 365. Havia cristãos que acreditavam que a Terra era criação do Deus verdadeiro, outros que era criação de um Deus menor e outros que a Terra era um erro cósmico criado por uma divindade má como um lugar de prisão. Havia aqueles que consideravam os escritos do Antigo Testamento como válidos. Havia aqueles que rejeitavam tudo o que vinha da religião judaica e outros que permaneciam seguindo aquela tradição religiosa. Uns, criam na divindade plena de Jesus, outros que Jesus foi um ser humano como todos nós. E ainda outros que acreditavam que Jesus era as duas coisas, ao mesmo tempo ou em partes distintas da sua vida. Também havia contrassenso a respeito da morte de Jesus, tento cristãos que acreditavam que através dela veio a salvação da humanidade, outros que não acreditavam em tal hipótese, e outros mais que nem acreditavam que Jesus havia sido crucificado. Todas essas questões eram um prato cheio para a existência de centenas de formas de Cristianismo, dado que não havia consenso geral de como era a fé Católica (fé geral), que surgiu somente séculos mais tarde. E cada uma dessas visões de fé produziu seus textos, suas escrituras, nas quais acreditavam piamente. Houve naqueles primórdios do Cristianismo a produção de inúmeros Evangelhos, Epístolas, Atos e Apocalipses, todos eles atribuídos aos apóstolos de Jesus e para cada um dos grupos distintos, seus textos tinham o status de escritura sagrada, enquanto o dos outros eram considerados textos heréticos, crenças falsas.

O método de escrita da obra foi estruturado de maneira a abordar, na primeira parte, as “Falsificações e descobertas”, onde se analisa os textos descobertos recentemente e o conteúdo destes, para tentar entender o que pregavam e no que acreditavam as seitas do Cristianismo que, no decorrer da história, foram desaparecendo. Depois, na segunda parte, o enfoque é sobre “Heresias e ortodoxias”, onde são apresentados os tipos principais de crenças existentes e o combate perpetrado pelos proto-ortodoxos à essas crenças consideradas heréticas. Por último, na terceira parte, são vistos os “Vencedores e perdedores”, o trabalho exercido pela proto-ortodoxia para eliminar as “falsas crenças”, a assimilação por parte destes de muitas das crenças heréticas como forma de criar um entendimento comum, a produção do cânon de escrituras autorizadas e por fim, uma analise do que poderia ter acontecido caso outro grupo de Cristãos tivesse vencido as disputas para o título de fé verdadeira. Iniciando a primeira parte do livro, Ehrman mostra que todas as escrituras perdidas tratavam-se de falsificações, ou seja, que não foram escritas por aqueles que se diziam ser os autores de tais documentos. De fato, a grande maioria dos documentos canônicos também se tratam de falsificações, livros escritos em nome de apóstolos que não escreveram uma linha sequer, em qualquer documento, sendo uma das poucas, senão a única exceção, as epístolas de Paulo de Tarso (e mesmo assim nem todas as que lhe atribuem), sendo que até mesmo nas reconhece de sua autoria há indícios de falsificações de trechos. Ehrman mostra também que falsificações não são raras mesmo em dias atuais, citando alguns exemplos dessa “arte”, que muitas vezes engana por muito tempo comunidades inteiras. No primeiro capítulo, Ehrman aborda um documento falsificado que era utilizado por muitas comunidades cristãs nos séculos II e III – O Evangelho de Pedro, um documento que carregava elementos doutrinários Docéticos e Adocionistas Os Docéticos eram um grupo de Cristãos que acreditavam que Jesus nunca possuiu um corpo de carne, que era completamente divino, e sua presença junto aos seus discípulos se dava só em aparência. Já os Adocionistas criam em Jesus como ser humano normal, mas que foi adotado por Deus no momento de seu batismo, cumpriu sua missão e abandonou o corpo de Jesus antes de sua morte. Fala-se da descoberta recente de um trecho desde manuscrito, que contém um relato do julgamento, da crucificação e da ressurreição de Jesus, e de muitos outros trechos deste mesmo Evangelho (não descobertos),que foram comentados por Serapião, bispo de Antioquia, que inicialmente não viu problemas com a adoção deste evangelho por muitas igrejas, mas após uma avaliação mais cuidadosa proibiu seu uso por conta destas teologias ‘heréticas”. Baseando no trecho de manuscrito descoberto e nos comentários de Serapião, Ehrman faz uma análise deste Evangelho, mostrando a popularidade que ele tinha. Além deste, também é abordado o Apocalipse de Pedro e outros documentos, até mesmo um chamado Atos de Pilatos, que narra o julgamento de Jesus de maneira muito mais completa, mostrando a culpa dos judeus e a superioridade de Jesus sobre tudo o que é pagão. O segundo capítulo continua abordando o tema falsificações, mostrando esta prática sendo usada para produção de vários textos. Os Atos de Paulo e Tecla, suposta ajudante de Paulo em suas viagens missionárias, um texto com viés de romance, que também atraia muitos cristãos, sendo Tecla considerada muito popular até o século V. Este e outros “Atos” utilizaram deste estilo literário. Trata também do tema “mulheres na igreja” e das inconsistências da visão proto-ortodoxa, onde se mostra trechos de cartas de Paulo orientando que estas permanecessem caladas nas igrejas, e no mesmo texto (1Coríntios), capítulos antes, o mesmo apóstolo defendendo a participação das mulheres na igreja, concluindo que o texto original da carta foi falsificado posteriormente por motivação doutrinária (para defender uma posição contrária à participação feminina nas comunidades). Aborda-se também outros Atos Apócrifos, como os Atos de Tomé, que seria irmão gêmeo de Jesus (?!?!?!), os Atos de João e os problemas que estes textos geravam para os proto-ortodoxos, por conseguirem atrair a atenção de muitas comunidades. No terceiro capítulo, discute-se as várias descobertas recentes de manuscritos que mudaram sobremaneira a visão que se tinha do Cristianismo primitivo, manuscritos estes que permitiram o entendimento aprofundado de visões e interpretações das escrituras que geraram seitas que se perderam no tempo, como é o caso dos Gnósticos. Estuda-se a fundo um dos documentos mais importantes recém-descobertos, o Evangelho Copta de Tomé, onde se pode encontrar a síntese do pensamento gnóstico. Ehrman mostra a história por trás das descobertas recentes destes manuscritos que mostraram ao mundo aquilo que a corrente de fé vencedora não divulgou (justamente por ter sido a vencedora e consequentemente, por considerar todas as outras heréticas). O capítulo seguinte inicia-se com a demonstração de que a prática da falsificação de textos é comum mesmo nos dias atuais, com exemplos de falsificações famosas, como “O diário de Hitler”, e voltando-se ao tema do livro, o surgimento de Evangelhos estranhos, que tratam de porções da vida de Jesus desconhecidas (infância, adolescência), viagens de Jesus à Índia, dentre outras coisas inusitadas. Verifica-se que, apesar da maioria das falsificações serem grosseiras e de fácil identificação, outras são muito elaboradas e muitas delas passam por originais e muitas destas são, até hoje, objeto de muita discussão entre estudiosos sérios a respeito da originalidade/falsificação É demonstrada também a questão de uma das falsificações recentes, feita por um estudioso de história do Cristianismo chamado Morton Smith em cima do texto do Evangelho Secreto de Marcos, texto utilizado por gnósticos que acreditavam que havia duas versões deste evangelho, um para os cristãos comuns (o que nós conhecemos) e outro com conteúdo secreto, de entendimento específico daqueles que possuíam a gnose. Questiona-se, no entanto, a autenticidade do material usado por Morton em suas pesquisas, bem como o fato de somente ele ter tido acesso aos documentos que estudou. Isso tudo gerou questionamentos quanto a real existência do conteúdo por ele estudado, apesar de haverem algumas provas materiais através de fotografias que ele tirou da carta polêmica. Várias questões são levantadas em relação ao estudo feito por Smith, e muitos fatos levaram muitos a acreditar na possibilidade de que ele tenha falsificado o texto analisado, principalmente pelo fato de Smith ter sido um especialista sobre Clemente de Alexandria, famoso teólogo que viveu e escreveu por volta do ano 200 da Era Comum, o autor da carta polêmica que foi objeto dos estudos de Smith. Abrindo a segunda parte da obra, Ehrman nos fala sobre o entendimento dos diversos grupos cristãos, e da obsessão com a qual estes grupos buscavam considerar-se os portadores da verdade, fato que diferia de tudo o que se via no Império Romano, onde a diversidade de crenças era tolerada e respeitada, mesmo entre as seitas que acreditavam em coisas distintas. Somente com o surgimento do Cristianismo é que surge o conceito de que era necessário acreditar na coisa certa para ser salvo, e que todos os que não acreditassem naquilo estariam condenados. E justamente por isso, a diversidade de seitas e de entendimentos a respeito dos ensinamentos de Jesus fazia com que a intolerância fosse, em alguns casos, violenta. No quinto capítulo, são analisados dois grupos com entendimentos diametralmente opostos, do ponto de vista da origem Judaica da fé cristã: os Ebionitas e os Marcionitas. O primeiro grupo mantinha a crença na tradição judaica, enquanto o segundo abominava tudo que advinha dos judeus. Ehrman mostra Paulo como grande disseminador da tese pagã de que, para ser cristão, não era necessário adotar a religião judaica. É mostrada como era a crença de cada um dos dois grupos. Particularmente em relação aos Ebionitas, a falta de documentos produzidos por estes dificulta o entendimento de suas crenças, mas uma análise deste grupo é possível através do estudo do que foi escrito pelos oponentes destes (sempre avaliando estas fontes com bastante critério). Sabe-se, através de consenso em relação a estas fontes, que tratava-se de um grupo de judeus seguidores de Jesus, que respeitavam a lei e as tradições judaicas, que não acreditavam na preexistência de Cristo e muito menos na concepção virginal de Maria. Acreditavam que Jesus teria sido adotado por Deus, mas era um ser humano real, de carne e osso como todos nós, que foi concebido da união sexual entre seus pais. Adotavam o Evangelho mais judaizado, o de Mateus (com diferenças em relação ao Evangelho de Mateus que temos a disposição). Já os Marcionitas, por considerarem Paulo como o apóstolo maior de Jesus, tinham suas crenças extremamente atrativas à grupos pagãos. Este grupo rejeitava tudo de origem judaica, inclusive o Deus dos judeus, que estes consideravam uma deidade inferior ao Deus de Jesus. Acreditavam que o Deus dos judeus era um Deus rigorosamente justo, e que por isso, se encolerizava e punia as transgressões às suas leis, e o Deus de Jesus veio para salvar as pessoas do vingativo Deus dos judeus (o que os fazia acreditar na existência de dois Deuses). Acreditavam que Jesus nunca teve um corpo material, ou seja, ele apenas parecia ser humano. Marcião, o líder deste movimento, foi a primeira liderança entre as diversas seitas do Cristianismo a se preocupar em formular um cânon de escrituras sagradas, e muito provavelmente foi devido a este fato que os proto-ortodoxos passaram a sentir a necessidade de fazer o mesmo. E aqui, estamos falando de apenas duas visões, duas interpretações da vida e ensinamentos de Jesus, completamente distintas nos seus entendimentos, ambas reivindicando para si o título de verdadeiros seguidores de Jesus, sendo que é sabido que haviam diversos outros grupos, e que mesmo entre estes dois grupos definidos, havia diferenças menores de entendimento, o que mostra o quão complexo era o contexto Cristão dos primeiros séculos. O que teria acontecido com o Cristianismo atual se, no passado, um desses dois grupos tivesse prevalecido frente aos proto-ortodoxos? Ehrman faz uma breve análise a respeito deste questionamento neste ponto da obra. O capitulo 6 aborda especificamente um grupo de cristão: os Gnósticos. Como abordado anteriormente no livro, muitos documentos referentes à essa variante do Cristianismo vieram a público com o descobrimento da biblioteca de Nag Hammadi, com diversos evangelhos desconhecidos até então, onde se podia verificar ensinamentos secretos e “mais verdadeiros”, Evangelhos supostamente escritos pelos discípulos Filipe, João (filho de Zebedeu), por Tiago (irmão de Jesus) e por seu irmão gêmeo Tomé, dentre outros, todas as falsificações reconhecidas, mas que foram levados a sério por muitas comunidades e por muitas gerações. Mostra-se as características da crença Gnóstica, de que o mundo é um lugar ruim, e que a busca destes é a fuga deste mundo ruim, através do conhecimento secreto. Há, nos escritos de Nag Hammadi, descrições detalhadas dos Gnósticos sobre a criação do mundo e como viemos a habitá-lo e como se escapar dele, e que só aqueles que detém este conhecimento secreto, só uma pequena elite que possua uma fagulha divina dentro de si, faísca essa que é reacendida por meio da gnose, é que seria, salvos, segundo eles. A vastidão dos textos descobertos em Nag Hammadi é tão grande que alguns pesquisadores cogitam se a parte referente aos Cristãos Gnósticos (muitos dos textos lá descobertos não são sequer de seitas cristãs) pode ser representativa do grupo inteiro de Gnósticos ou se havia variantes de interpretação dentro deste grupo maior, fato que é aceito pela maioria dos estudiosos. Além dos textos descobertos em Nag Hammadi, outras descobertas compunham o rol de informações sobre esta seita, entre documentos escritos pelos combatentes contra tal seita nos primeiros séculos da Era Comum, bem como documentos descobertos nos séc. XVIII e XIX, que não foram levados em consideração pela comunidade acadêmica da época por não representarem a fé vigente. Cita-se também neste capítulo alguns exemplos de textos gnósticos, como “O Evangelho da Verdade”, “A Carta de Ptolomeu a Flora” e “O Tratado sobre a Ressureição”. O capítulo seguinte, seguindo uma linha didática de abordagem sobre o assunto, refere-se à última parte das divisões-macro do Cristianismo, ainda não descrita à fundo até este ponto da obra: os proto-ortodoxos, a parcela dos Cristianismos que no fim sagrou-se a “vencedora”, e cujos ensinamentos foram repassados adiante através dos séculos até nos alcançar nos dias atuais. Ehrman discorre sobre os mártires proto-ortodoxos, dentre eles Inácio, Bispo de Antioquia, preso e martirizado pelas feras doColisseum Romano, por conta de suas atividades cristãs. É frisada uma das características marcantes deste grupo, que era o desejo de morrer pela fé, característica esta que separava, segundo os proto-ortodoxosos, os verdadeiros fiéis dos falsos “hereges”. Cita-se também outros martirológios, todos cercados de acréscimos lendários. Inácio também é muito lembrado pela sua visão de organização da igreja, preocupação esta crescente na igreja primitiva, onde a desorganização e a falta de lideranças foi bastante prejudicial. Cita-se cartas falsamente atribuídas ao apóstolo Paulo, onde este escreve às suas comunidades sobre a necessidade de organização (o que o mesmo Paulo não havia feito em epístolas reconhecidamente escritas por ele – daí a conclusão de que são falsificações). Inácio, no seu caminho para o martírio em Roma, também escreve a diversas comunidades, sempre frisando a necessidade de respeito às autoridades eclesiásticas e aos livros da Antiga Aliança, pois os proto-ortodoxos sabiam na necessidade de busca de legitimidade em tradições antigas (naqueles tempos, o Cristianismo era uma religião considerada nova, e a vinculação aos textos tradicionais judeus ajudou a dar legitimidade à igreja, perante outras crenças). Além disso, Inácio buscava mostrar aos cristãos que Deus falava aos cristãos por outras formas, além do Velho Testamento e dos textos que mais tarde vieram a compor a Nova Aliança. De fato, Inácio considerava a si próprio como recipiente direto das revelações divinas, e durante muito tempo a revelação direta fez sucesso entre os cristãos proto-ortodoxos. Finalmente, é verificado o desenvolvimento de Inácio e outros expoentes sobre a teologia proto-ortodoxa, com a adoção de crenças na Trindade e a dualidade da figura de Cristo (totalmente humano e totalmente divino). Interessante observar que conceitos tidos como válidos pelos proto-ortodoxos eram considerados heréticos pelo mesmo grupo após poucas décadas, e tão interessante quanto é a adequação, por parte da teologia proto-ortodoxa, de suas crenças, como forma de abranger as crenças de outras seitas, de maneira a explicar suas posições teológicas e buscar se considerada como a fé verdadeira. Na terceira e última parte do livro, explora-se o tema “Vencedores e Perdedores”. Nesta parte, Ehrman discorre sobre as lutas entre os grupos distintos, suas ações e estratégias em busca da ortodoxia da fé, mostrando que desde sempre houve disputas de entendimento das escrituras, até mesmo na época em que Jesus era vivo (como por exemplo, a disputa tradicionalmente conhecida entre Jesus e os Fariseus), passando por Paulo, com suas cartas dirigidas às comunidades com o intuito de resolver problemas originados nas comunidades fundadas por este, problemas estes gerados por “falsos professores” que estavam deturpando o ensino dado por ele. Posteriormente, são estudados os conflitos entre os grupos, que perduraram entre os séculos II e III, sempre com cada parte buscando para si o título de fé ortodoxa. Ao término das disputas, a parte vencedora acabou escolhendo quais registros dos embates deveriam ser mantidos e como contariam a história do conflito, tendo as “vozes” dos perdedores sido silenciadas por muitos séculos até voltarem a ser “ouvidas” novamente com alguma clareza recentemente. O oitavo capítulo mostra que, a partir do século IV, os termos heresia e ortodoxia não eram mais problemas, visto que a crença Cristã foi definida com o Credo Niceno. Heresia, após a vitória da proto-ordodoxia, era considerado por estes tudo o que estivesse em desvio com a crença estabelecida, e para os ortodoxos, qualquer doutrina herética deveria ter surgido após a doutrina ortodoxa inicial tendo, aqueles que produziram as novas crenças, tido em mãos a crença verdadeira, a qual deturparam, ou seja, a partir do momento em que o credo Católico foi definido, este foi considerado como “A” forma original de Cristianismo. Esta visão clássica de ortodoxia e heresia perdurou por muitos anos, e cita-se o trabalho de Eusébio de Cesaréia, que em sua obra “História da Igreja”, escrita em 10 volumes, narra o curso do Cristianismo sob este prisma. Segundo Eusébio, as visões heréticas à ortodoxia se iniciaram com Simão Mago, que se considerava “o Poder de Deus”. Tal visão clássica sobre ortodoxia e heresia, no entanto, começou a ser combatida a partir da era moderna. No livro, são explorados três enfoques sobre o combate à esta visão clássica: Jesus e seus discípulos ensinaram uma ortodoxia que foi transmitida para as igrejas dos séculos II e III? O livro dos Atos fornece um relato confiável dos conflitos internos da igreja cristã mais antiga? Eusébio dá um resumo imparcial das disputas que fervilhavam nas comunidades cristãs pós-apostólicas? A primeira questão envolve os ensinamentos de Jesus e seus apóstolos e a confiabilidade dos documentos do Novo Testamento que transmitiram estes ensinos. Como vimos na obra “O que Jesus disse, o que Jesus não disse”, do mesmo autor, há milhares de problemas com os textos dos diversos manuscritos que os historiadores tem acesso, e como foi dito por um destes historiadores, “há mais diferenças entre os manuscritos do que palavras no Novo Testamento”. Nesta obra, Ehrman contempla os estudos feitos sobre estas inconsistências pelo historiador alemão Hermman Reimarus, na época da do Iluminismo, onde ele mostra que muitas das qualidades atribuídas a Jesus não eram ensinadas ou assumidas por Ele, mas sim que foram atribuídas por aqueles que vieram depois, durante a criação da religião Cristã (a qual Jesus também não fundou e, segundo documentos históricos, não pediu que fosse fundada). Fala-se também do trabalho de outro estudioso alemão, F.C Baur, a respeito das disputas entre o Cristianismo Judaico e o Cristianismo Gentio, onde o Livro do Apocalipse, por exemplo, mostra-se completamente judaico (tese da síntese de Baur), enquanto as cartas de Paulo aos Gálatas e aos Romanos são completamente anti-judáicos (tese da antítese), enquanto obras como O Livro de Atos são uma força mediadora, o que leva ao entendimento de que o Livro de Atos não pode ser considerado uma visão histórica dos fatos os quais ele narra, sendo dirigido por uma ordenação teológica que afeta a exatidão histórica. E na terceira questão, mostra-se o estudo de Walter Bauer sobre os escritos de Eusébio de Cesaréia e seu relato sobre ortodoxia e heresia na história da igreja.

O próximo capítulo mostra que as disputas doutrinárias ocorriam mais fortemente no campo das palavras (apesar de ter havido batalhas armadas entre grupos). Há uma vasta coleção de manuscritos contendo os ataques verbais dos proto-ortodoxos às outras visões de fé e vice-versa. Mostra-se alguns exemplos de ataques dos Ebionitas (judeus cristãos) contra os ensinos de Paulo de Tarso, bem como ataques gnósticos à proto-ortodoxia, mostrando que a crença proto-ortodoxa não era errada em si, mas que era ridiculamente inadequada e superficial, e que os gnósticos interpretavam os credos, as escrituras e os sacramentos dos proto-ortodoxos de maneira muito mais espiritual e iluminada. Em contrapartida, são mostrados os ataques da proto-ortodoxia às outras visões, utilizando de meios polêmicos para extirpar os gnósticos das suas igrejas, destruir as escrituras especiais e aniquilar seus seguidores, estratégia tão bem executada que até recentemente não se fazia ideia do tanto que os gnósticos foram significativos nos primeiros séculos do Cristianismo. Ehrman demonstra como os proto-ortodoxos defendiam a unidade (por exemplo, a crença em um só Deus, Deus e Jesus como sendo um só) e imputavam aos outros a diversidade. Falavam de bom senso e imputavam aos outros a falta de senso. Falavam em verdade em suas crenças e erro na crença dos demais grupos. Citavam a sucessão apostólica contra a crença em falsos profetas. Inventam falsos costumes de ordem moral dos outros grupos, em casos escandalosos de orgias sexuais como atos litúrgicos destas outras seitas, e coisas ainda mais escandalosas. No décimo capítulo, são verificadas as falsificações produzidas pelos proto-ortodoxos, para desmoralizar as crenças por eles consideradas heréticas, como por exemplo, O Evangelho de Infância de Tomé, onde se contam fatos mirabolantes sobre os poderes de Jesus quando criança, documento esse atacado pelos proto-ortodoxos como sendo falsificação gnóstica, mas que numa análise mais aprofundada, é mostrado que não há nenhum traço gnóstico neste, ou seja, que o texto não parece desenvolver nenhum traço teológico específico, mas foi usado pelos proto-ortodoxos no combate a outras crenças. Além disso, mostra-se falsificações de relatos com o intuito puramente teológico, para dar embasamento à crença proto-ortodoxa, como se fossem escritos antigos, mas que de fato foram produzidos nos séculos II e III, mostrando a preocupação existente neste grupo em relação à busca de legitimidade de suas crenças. Cita-se o exemplo de várias falsificações deste tipo, uma mais elaboradas, outras mais sutis, e também a falsificação dos textos que vieram posteriormente a compor o cânon sagrado, com inserções de trechos nos textos sagrados para combater outras teologias. O penúltimo capítulo enfoca a criação da escritura proto-ortodoxa, com a adoção do cânon de livros sagrados no final do século IV, após a oficialização do Cristianismo Católico como religião oficial do Império Romano. Ehrman estuda o processo de formação do cânon da Nova Aliança, mostrando as interpretações de Jesus às Escrituras Judaicas e a tradição destas interpretações sendo convertidas em Escrituras por aqueles que vieram depois Dele. Verifica-se que além de seguir em grande parte o que estava escrito na Antiga Aliança, os ensinamentos de Jesus muitas das vezes suplantavam esta. Tais ensinamentos, já no final do século I já haviam adquirido, para os Cristãos, o status de textos sagrados, dando a estes textos autoridade. No decorrer do capítulo, verifica-se os métodos utilizados para definir quais livros da vasta coleção de textos que haviam na época deveriam entrar no cânon sagrado, quase no final do século IV, apesar do surgimento da necessidade de estabelecimento deste já ser verificada entre os proto-ortodoxos a partir do século II.Cita-se a descoberta de um cânon, no século XVIII – o Cânone Muratoriano, um texto pessimamente copiado, com textos de vários padres da igreja do século IV e V, mas que já citava grande parte dos livros que acabaram compondo o cânon definitivo. Cita também os quatro critérios usados para verificar se um determinado texto deveria fazer parte da Nova Aliança (Antiguidade, Apostolicidade, Catolicidade e Ortodoxia do texto), e o trabalho de Eusébio, na sua obra de 10 volumes sobre a história da igreja, onde este classifica os textos em quatro categorias (reconhecidos, questionados, espúrios e heréticos), bem como as discussões da ortodoxia que culminaram na escolha dos 27 livros que foram escolhidos. Fechando a obra, Ehrman avalia mais a fundo as possibilidades alternativas de vitoriosos na ortodoxia e as consequências que estas vitórias alternativas poderiam trazer para a humanidade dos dias atuais. Explica também que, como parte da estratégia de vitória, a proto-ortodoxia adotou, muitas das vezes, a prática de absorver o conteúdo do que as outras visões e interpretações tinham, incorporando tais visões à sua, levando a conclusão de que a vitória da proto-ortodoxia não foi completa, justamente por conta desta absorção de tradições não-ortodoxas para explicar muitas das crenças defendidas pelos proto-ortodoxos. E apesar destes fatos, verifica-se o quão intolerantes eram os proto-ortodoxos em relação às outras visões e interpretações existentes, embora não seja possível afirmar que estas outras visões fossem mais tolerantes em relação às outras, dado que a maioria dos textos destes grupos foram perdidos. Verifica-se também que, graças à essas descobertas e estudos sobre os Cristianismos primitivos, a visão atual das crenças é bem mais tolerável e gera maior fascínio por estas visões, o que gera sentimento de perda em relação ao esquecimento de tradições bem intencionadas que foram abandonadas e destruídas, mas ao mesmo tempo, vem a alegria das novas descobertas oriundas dos estudos e pesquisas, para nos mostrar cada vez mais que a crença que chegou até nós, vitoriosa dos conflitos do passado, também carrega consigo os traços daquelas que foram derrotadas, suprimidas e perdidas. Diante de tudo o que foi visto na obra, é possível verificar o quão distante da ortodoxia está a crença que hoje é divulgada pela Igreja Católica Romana. A diversidade de crenças existente desde os primeiros momentos do Cristianismo, as diversas interpretações que haviam nos primeiros séculos, os intensos combates entre as partes na busca pela hegemonia de crença, as falsificações perpetradas por todos os lados e os meios utilizados para garantir a manutenção de determinados textos em detrimento de outros, que fizeram com que tradições inteiras fossem perdidas, tudo isso mostra que a visão de ortodoxia defendia pela igreja, desde que a proto-ortodoxia venceu as disputas teológicas no início do século IV passa longe de ser um consenso. Ao mesmo tempo, é fácil perceber que, apesar de tudo o que aconteceu naqueles tempos, é difícil imaginar que a vertente vencedora não tenha sido a mais apropriada, diante de interpretações muitas das vezes absurdas que eram dadas ao ensino perfeito deixado por Jesus para a humanidade. E o livro consegue mostrar todos estes pontos com excelente didática, numa leitura agradável e muito informativa.

Resenha feita por Bruno Oliveira
* publicado originalmente em 07/03/2014 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/