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Papiro citando a Santa Ceia pode ser o mais antigo amuleto do cristianismo

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 http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2014/09/06/papiro-citando-a-santa-ceia-pode-ser-o-mais-antigo-amuleto-do-cristianismo.htm

Do UOL, em São Paulo
  • University of Manchester, John Rylands Research Institute

    Fragmento indica que cristãos adotaram costume egípcio de usar amuletos contra perigos

    Fragmento indica que cristãos adotaram costume egípcio de usar amuletos contra perigos

Um fragmento de papiro com referência à Santa Ceia pode ser o mais antigo amuleto do Cristianismo. O pedaço de papel foi descoberto por uma pesquisadora entre milhares de papiros mantidos na biblioteca da Universidade de Manchester, no Reino Unido.

A responsável pelo achado, Roberta Mazza, diz que ele provavelmente foi usado dobrado em um pingente como amuleto de proteção. “Foi uma descoberta importante e inesperada. Trata-se de um dos primeiros registros de uso de magia no contexto do cristianismo e o primeiro amuleto com referência à Santa Ceia”, diz Mazza.

O fragmento é provavelmente originário de uma cidade do Egito. Seu texto traz uma mistura de trechos dos Salmos e do evangelho de Matheus. “Na época, cristãos começaram a utilizar passagens da Bíblia como amuleto de proteção”, diz Mazza. “Por isso, este achado marca o início de uma importante tendência”, completa.

Análises de carbono indicam que o papiro data de período entre os anos de 574 e 660. O criador provavelmente transcreveu trechos da Bíblia de que lembrava de cabeça, ao invés de copiá-los. Segundo a pesquisa, há erros de ortografia e palavras que não estão na ordem correta, como estão na Bíblia.

A íntegra do texto diz:

“Temei o que governará sobre a terra.

Saibam nações e povos que Cristo é o nosso Deus.

Pois ele falou e tudo veio a ser, ele mandou, e tudo foi criado; ele colocou tudo sob os nossos pés e nos libertou da cobiça de nossos inimigos.

Nosso Deus preparou uma Ceia Sagrada no deserto para o povo e deu o maná da Nova Aliança para comermos, o corpo imortal do Senhor e o sangue de Cristo derramado por nós para a remissão dos pecados”.

A passagem foi originalmente escrita na parte de trás de um recibo usado para pagamento ou cobrança de imposto. Um texto quase ilegível faz referência à coleta de tributos da vila de Tertembuthis, localizada no interior de Hermópolis, cidade da antiguidade onde hoje está localizada El Ashmunein, no Egito.

“Provavelmente, a pessoa que utilizou as costas do papiro para escrever o texto do amuleto era dessa mesma região”, diz Mazza.

A descoberta será apresentada por Roberta Mazza em conferência internacional. Em seu estudo, ela mostra que cristãos adotaram a prática egípcia de usar amuletos para proteger seu portador e afastar perigos. Segundo a pesquisadora, a prática pode ser verificada ainda hoje, no uso de escapulários e orações em santinhos.

A pesquisa foi publicada na revista especializada Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik.it.

ICONOGRAFIA CRISTÃ – A EVOLUÇÃO DAS IMAGENS *

Por Jefferson

Cristo Pantocrator – Monastério da Síria

O presente artigo é a transcrição do trabalho apresentado pelos alunos Jefferson R. Bellomo e Myrtes C. Lobo Vianna para a disciplina “Iconografia Paleocristã”, ministrada pela professora Vera Pugliese, matéria do curso de pós-graduação latu sensu “Cristianismo Antigo”, realizado pela Universidade de Brasília (2011/2012). O trabalho recebeu nota máxima.

Introdução

A proposta deste trabalho é apresentar uma análise comparativa de duas obras paleocristãs  no que diz respeito a aspectos formais e de conteúdo com duas obras de iconografia cristã posterior ao Concílio de Éfeso.

Abriremos os trabalhos com um breve apontamento sobre o Cristianismo e as Imagens onde logo no início do cristianismo, como atestam as pinturas feitas a partir do segundo século da Era Comum, nas catacumbas romanas, a simbologia trazida do paganismo é apropriada pelos seguidores de Cristo, fazendo com que determinados elementos fossem ressignificados dentro do novo movimento e também propício  para o aparecimento dessa manifestação artística – a iconografia.

Em seguida trataremos do Comparativo de Imagens onde priorizamos a figura da Virgem Santíssima que pelo primeiro concílio de Éfeso é considerada a Mãe de Deus e não Mãe de Cristo como queria a seita herética conhecida como nestorianismo.

Desenvolvimento

I – Um Breve Apontamento sobre o Cristianismo e as Imagens

O livro do Êxodo, um dos mais importantes do Antigo Testamento, traz a proibição dada por Deus aos hebreus – posteriormente, considerada válida também aos cristãos – para que estes não fizessem imagens que servissem de objeto de adoração:

“Então Deus pronunciou todas estas palavras: Eu sou o Senhor teu Deus, que te fez sair do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de minha face. Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto.” (Ex[1] 20, 1-4)

Provavelmente, o mandamento citado não deve ter sido difícil de ser respeitado pelos primeiros seguidores de Jesus, visto que eles estavam inseridos no judaísmo e não pretendiam formar nenhum tipo de religião diferente, mas seguir os preceitos herdados de seus antepassados, confiantes nas promessas feitas por Yahweh (nome hebraico de Deus) a Abraão.

Contudo, conforme o denominado Caminho (At[2] 9,2; 18, 25-26) foi tomando às cidades da Ásia Menor e se transformando em Cristianismo (At 11, 26), recebendo uma influência greco-romana cada vez mais intensa em suas comunidades, muito natural que a cultura trazida por esses novos cristãos tingisse ou modificasse antigas proibições judaicas, entre elas, a proibição das representações da divindade.

Logo no início do cristianismo, como atestam as pinturas feitas a partir do segundo século da Era Comum, nas catacumbas romanas, a simbologia trazida do paganismo é apropriada pelos seguidores de Cristo, fazendo com que determinados elementos fossem ressignificados dentro do novo movimento. A própria marginalidade em que foi colocada essa nova seita colaborou para que a simbologia simples e rudimentar (falta de rigor anatômico, pouco naturalismo; pobreza na variação cromática, etc.) fosse propícia para o aparecimento dessa manifestação artística.

Símbolos inicialmente pertencentes à mitologia pagã, como o peixe, a âncora, o alfa e o ômega, a videira e a pomba foram tomados e modificados pelos cristãos. IXOYC (Ichtus – peixe em grego) serviu de anagrama para a expressão “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador” (Gr[3]: Iesus Christós Theóu Uiós Soteér), era relacionado ao batismo, por ter a água como seu elemento natural, e aludia ao milagre da multiplicação dos pães e à pesca milagrosa com Pedro e André (Mc[4] 6, 34-44). A âncora significava a esperança na Salvação, a primeira e última letra do alfabeto − alfa e ômega − grego representavam o monograma de Cristo, e assim por diante. Orfeu pastoreando os animais converteu-se na imagem do Cristo Bom Pastor que salva as almas perdidas, simbolizada pela ovelha em seus ombros.

Conforme o cristianismo se popularizava e se institucionaliza, suas manifestações artísticas são aprimoradas. Representações cada vez parecidas com as imagens de Apolo para Jesus e de Diana para a sua mãe são objeto de prostração e culto, o que rendeu acusações graves de idolatria por parte daqueles que enxergavam na doutrina cristã a continuidade, e não ruptura, das tábuas de Moisés.

Não obstante, graças à doutrina da encarnação, que apregoa que Deus se fez homem em Jesus Cristo, a representação e a adoração das imagens no ambiente cristão foram recebidas como um desdobramento natural da fé em Jesus, face visível de Deus. Visto que Deus agora tinha um rosto, que havia dado a Se conhecer. A adoração da imagem de Cristo era o reconhecimento da manifestação da divindade no mundo material.

“Não venero a matéria, venero Quem fez a matéria e Quem, por mim, se tornou matéria e aceitou habitar na matéria para através dela realizar a minha salvação, e não cessarei de reverenciar a matéria através da qual se faz a minha salvação”. São João Damasceno (675-749) em “Apologia contra os que atacam às imagens divinas” (Cit. Woods Jr, p. 112).

Posteriormente, após o auge da crise iconoclasta, o segundo concílio de Nicéia (787 E.C.) decidiu que Cristo é passível de adoração e a Virgem Santíssima e os santos são passíveis de veneração. Com isso, alarga-se a estrada da produção e adoração religiosa de imagens e relíquias que irão culminar, no Ocidente, com a Reforma Protestante do século XVI.

II – Comparativos de Imagens – A Virgem Santíssima 

Segundo a Wikipedia, “A Arte paleocristã ou Arte cristã primitiva é a arte, arquitetura, pintura e escultura produzida por cristãos ou sob o patrocínio cristão desde o início do século II até o final do século V. Não há arte cristã sobrevivente no século I. Após aproximadamente o final do século V a arte cristã mostra o início do estilo artístico bizantino”.

Imagem 01 : A Virgem Maria Amamentando o Menino Jesus

Século II ou III, Catacumba de Priscila, Roma

Em Roma, na catacumba de Priscila, encontra-se uma pintura rústica representando a Virgem Maria amamentando o Menino Jesus no colo, imagem do século II. À sua frente encontra-se o que se deduz ser do profeta Balaão que aponta para uma estrela pintada mais no alto da cabeça da mulher, representado por um circulo vermelho. A criança e a mãe se olham enquanto ela amamenta o menino nu que está apoiado em seus braços. Não há nada que ateste santidade na mãe ou divindade na criança. A pintura é “tosca”, não apresenta variedade cromática significativa, parecendo explorar apenas as nuances do ocre com o fundo branco da parede. Não se permite tirar maiores detalhes da pintura por que esta se encontra muito castigada pelo tempo e pela falta de cuidados, além do que, não se trata de uma obra com pretensões artísticas e simbólicas mais refinadas, mas simplesmente uma reprodução de uma narrativa do evangelho feita provavelmente por uma pessoa, um fiel cristão, sem instrumentos adequados e dotes artísticos. É apenas uma transposição pura e simples do texto de Mateus (Mt[1] 2, 9-11), uma decoração pictórica feita por um fiel provavelmente em homenagem a algum ente querido já morto.

Não são muitos os exemplos de arte paleocristã referentes a Nossa Senhora que se pode apresentar. Porem, mais um afresco pintado em uma catacumba Romana datado no século IV chama atenção por sua imagem um tanto quanto “assustadora”, provando que esta arte não se referia propriamente a um estilo, mas a todas as formas artísticas produzidas naquela época e por cristãos.  

Imagem 02: A Virgem Maria e o Menino Jesus

Século IV, Catacumba de Roma.

  A leitura da imagem seria apenas a de uma mulher com os braços erguidos e com um menino a sua frente ambos inseridos abaixo de um arco; se não fosse o detalhe à esquerda conhecido por “monograma grego de Cristo”, assim sendo, deduz-se que se trata de uma pintura cristã. Acredita-se tratar da Virgem Maria com um maphorion[1] ou véu fino e discreto, porem com os cabelos à mostra o que fugia à tradição judia e uma túnica trabalhada, as mãos erguidas estão em oração. Por hierarquia deixa em primeiro plano o Menino Jesus. Aqui nem a Virgem nem o Menino possuem ainda o halo ou auréola, confirmando suas santidades.

Todavia, não se pode deixar de perceber a evolução das representações da Virgem Maria com o Menino Jesus no colo foram se sofisticando na mesma proporção em que o cristianismo deixava de ser um movimento religioso e social de excluídos para se tornar a religião oficial do Império Romano.

Exemplo disso é a representação da Virgem como Odiguítria (do grego, pode ser traduzida como “Aquela que mostra o caminho”).

Imagem 03: Ícone da Odigítria – sec. XIV –

Monastério de Balamand, Líbano.

O artista representa Nossa Senhora em posição frontal, com ligeira inclinação da cabeça, com o menino Jesus sentado no seu antebraço com em um trono, e com a outra mão parece apresentar o seu filho. Ela veste um manto púrpura, cor associada ao poder imperial, demonstrando a sua condição deTheóutokos, ou seja, que detém o poder divino por ser Mãe de Deus. A sua cabeça está coberta de forma que ficam ocultos por completo os seus cabelos, representando a mulher piedosa (1ª Cor[1] 11, 5-6). Da manga do manto surgem as mãos, com dedos compridos e finos, pois simulam ser os cabos condutores da energia espiritual. A figura da Virgem tem sobre si, apresentada pelos anjos, as letras MP OY, a abreviatura grega de “Mãe de Deus”, e próximo de seu ombro direito  a palavra  Odiguítria, “Aquela que mostra o caminho”. Os dois anjos estão com as mãos cobertas por seus mantos em sinal de reverência e adoração.

O Cristo Menino, com uma das mãos faz o gesto da benção “à grega” e na outra mão ele segura o papiro enrolado. Jesus não é mais uma lactente, mas um jovem imberbe quase adulto, e usando as mesmas roupas que um adulto. O manto, geralmente amplo, deixa descoberto o pescoço, cobre os ombros e envolve o corpo inteiro em pregas amplas, deixando aparecer os pés com sandálias. A cor do manto é de um tom que faz referência a argila, o “barro” do qual somos criados e no qual Deus se fez carne simbolizando a matéria da qual o homem foi feito, mas respeitando o seu aspecto divino na sua auréola dourada com as iniciais gregas de Christos e, também, com as letras gregas оωн, referindo-se às palavras “Aquele que é”, (Ap[1] 1:8). A túnica por baixo do manto é branca, cor da unidade com Deus e da pureza.

No século V edificou-se a primeira basílica dedicada a Nossa Senhora e em seu interior pode-se apreciar um mosaico datado do final do século XIII, onde a Virgem é coroada por seu Filho.  

Imagem 04 : A Coroação da  Virgem

Século XIII, Basílica di Santa Maria Maggiore, Roma.

Aqui o artista apresenta um subtipo da Virgem Orante com a cabeça levemente inclinada para baixo e um semblante sereno ela aparece ladeada e sentada no mesmo Trono que Jesus Cristo aqui a Virgem está voltada para seu Filho com as mãos erguidas em sua direção colocando-o novamente em primeiro plano. Possui um halo liso e recebe uma coroa acima de seu véu, com os cabelos tapados assim como os seus pés que descansam em uma almofada similar a de Jesus.

Jesus no Trono, por sua vez pode ser considerado como um subtipo do Pantocrator. É representado como Juiz e Rei dos Reis que coroa e abençoa a Mãe. Possui como símbolo de sua santidade e da radiação da luz de Deus o halo com a cruz; seu manto externo passa sobre o ombro esquerdo e desce pelo corpo simbolizando a natureza divina; a Túnica interna longa  desce até os calcanhares, simbolizando a natureza humana; uma faixa vertical desce do ombro direito como símbolo da aristocracia. Com a mão direita segura um livro e seus pés estão calçados por sandálias.

Fechando a cena, um grande círculo envolve os dois, que são observados por dezoito anjos de asas coloridas e distribuídos abaixo simetricamente.

Os afrescos refletem claramente o cânone exarado pelo primeiro concílio de Éfeso (431 E.C.) de que Maria de Nazaré é a Mãe de Deus (Gr.: Theóutokos) e não Mãe de Cristo (Gr.:Christotokos), como queria a seita herética conhecida como nestorianismo. E, nessa condição, a cristandade entende que é perfeitamente possível que ela nos guie para a salvação. Ela é a ponte para a redenção dos pecadores, pois por ela veio àquele que, sendo Deus, se fez homem para a redenção dos pecados da humanidade.

Considerações Finais

Portanto, a iconografia cristã de uma maneira geral, conforme vimos nos exemplos: A Virgem Maria Amamentando o Menino Jesus (século II ou III, Catacumba de Priscila, Roma), A Virgem Maria e o Menino Jesus (século IV, Catacumba de Roma), A Coroação da  Virgem (século XIII, Basílica di Santa Maria Maggiore, Roma),e o Ícone da Odigítria (século XIV, Monastério de Balamand, Líbano), não só é uma forma de representação de fé, como também é uma declaração não escrita dos dogmas que foram se desenvolvendo juntamente com o Cristianismo.

Mesmo com o cristianismo não tendo se consolidado ainda entre o final do século II e início do século III o fundamento básico do pensamento sobre a Virgem sempre foi direcionado para “aquela que deu à luz a Deus” apresentado tanto na iconografia paleocristã como na iconografia bizantina.

Referências Bibliográficas 

BACHET, Jérôme – A Civilização Feudal: do ano 1000 à Colonização da América – trad. Marcelo Rede, São Paulo : Globo, 2006.

BRANDÃO, Antônio Jackson de Souza – A Imagem Nas Imagens: Leituras Iconológicas – Embú-Guaçu : Revista Lumen Et Virtus, Vol. I Nº 2 Maio/2010

COSTA, Mariana Jorge Nobre – Panofsky: Iconologia – FBAUL, 2006.

DUARTE, Adélio Damasceno. Ícones FUMARC, Belo Horizonte, 2003

EUSÉBIO, Maria de Fátima – A apropriação cristã da iconografia greco-latina: o tema do Bom Pastor – Texto apresentado nas XV Jornadas de Formação de Professores, de Homenagem ao Prof. Doutor Manuel de Oliveira Pulquério, Faculdade de Letras da UCP, 29 e 30 de Abril de 2004.

GHARIB, G. “Os Ícones de Cristo” Ed. Paulus, São Paulo, 1997, História Geral da Arte, Pintura I, Madri : Ediciones del Prado, 1996.

WOODS JR., Thomas E.  –  Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental  –  trad. de Élcio Carilho, São Paulo : Quadrante, 2008.

http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/iconografia/icones_e_pinturas.html www.pt.wikipedia.org

 

[1] Livro do Êxodo [2] Atos dos Apóstolos [3] Transliteração do grego. [4] Evangelho Segundo Marcos [1] Evangelho de Mateus [1] Veste externa das mulheres casadas. [1] 1ª Epístola de Paulo aos Coríntios. [1] Apocalipse

* publicado originalmente em 05/04/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

O Evangelho do Dinheiro *

Fonte: http://cidadeantenada.com.br/novo/index.php?option=com_k2&view=item&id=894:fome-de-poder-x-pol%C3%ADtica-click-e-leia-mais

 

por Jefferson

Qualquer forma de religião deve ser respeitada, faz parte do direito inalienável que tem todo o ser humano de escolher no que quer acreditar e o que lhe traz conforto e esperança.

Contudo, a pretexto de respeito religioso, não se pode deixar de criticar e denunciar aqueles que usam a religião como meio de enriquecimento pessoal as custas da fé ou do desespero dos seus irmãos.

“Não se pode servir a Deus e Mamon (deus do dinheiro)”, disse Jesus (Lc 16,13). O dom vindo do alto deve ser dado a todos, e não somente aos que têm condições de pagar, é a advertência que o Mestre nos faz na máxima “Dai gratuitamente o que gratuitamente haveis recebido.”(Mt 10,8). A primeira comunidade cristã que se tem notícia, instalada em Jerusalém após a crucificação/ressurreição de Jesus, tinha tudo em comum e vivia do trabalho dignificante dos seus membros e do Evangelho. No dizer de Lucas, Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um.” (At 2, 44-45)

O dízimo existe para sustentar a Igreja de tal forma que ela não precise depender de favores de ricos e de políticos, nem precise comerciar as coisas sagradas como mercadoria barata. Para que os sacerdotes hebreus pudessem se dedicar com exclusivade aos ofícios religiosos, foi criado o dízimo (Nm 18,21-32), que também servia para sustentar os pobres, os órfãos e as viúvas (Dt 14,22-29; Tb 1,7s). Foi a ambição dos saduceus do templo de Jerusalém que despertaram a indignação de Jesus na cena da derrubada de mesas dos cambistas (Mt 21, 12-13).  A contribuição religiosa não tem por finalidade o enriquecimento pessoal daqueles que deveriam cuidar dos filhos do Calvário, pessoas em condição frágil, que deveriam ser protegidas e não exploradas com a ambição dos falsos pastores.

Ganância e Evangelho não combinam. O madeiro da salvação é a cruz, não o iate.

Vejamos a matéria abaixo, que é bem explicativa e que cada um tire a sua conclusão. 

Forbes lista os seis líderes milionários evangélicos no Brasil

Do UOL, em São Paulo

18/01/2013 – 13h20 

“Religião sempre foi um negócio lucrativo.” Assim começa uma reportagem da revista Forbes sobre os milionários bispos fundadores das maiores igrejas evangélicas do Brasil – Edir Macedo, Silas Malafaia, Valdemiro Santiago, R. R. Soares, entre outros.

A revista destaca o crescimento dos evangélicos – de 15,4% para 22,2% da população brasileira na última década -, em detrimento dos católicos. Hoje, os católicos romanos somam 64,6% da população, ou 123 milhões de brasileiros. Os evangélicos, por sua vez, já somam 42 milhões, em uma população total de 191 milhões de pessoas.

Para a Forbes, um dos motivos do crescimento de religiões evangélicas se dá graças à Teologia da Prosperidade, segundo a qual o progresso material é resultado dos favores de Deus. Enquanto o Catolicismo ainda prega um olhar conservador sobre o além-vida, os evangélicos – sobretudo os neopentecostais – são ensinados a ter prosperidade nesta vida.

A fórmula parece estar funcionando. De acordo com a revista, os evangélicos formam uma parte da nova classe média brasileira, conhecida como Classe C. Enquanto isso, os mais ricos e os mais pobres permanecem católicos.

Os evangélicos não só usufruem de seus bens, como doam uma parte de sua renda à igreja – quantia conhecida como “dízimo”. Tal ato faz com que certas igrejas sejam negócios altamente lucrativos, e seus líderes, milionários. É a chamada “indústria da fé”.

Entre os exemplos de líderes bem-sucedidos, a Forbes aponta o bispo Edir Macedo, fundador e líder da Igreja Universal do Reino de Deus. Com templos até nos Estados Unidos, o bispo Macedo é o pastor mais rico do Brasil, com uma fortuna estimada em quase R$ 2 bilhões. Ele é frequentemente envolvido em escândalos, entre eles o de desviar fundos destinados à caridade. Mas nem estas denúncias fizeram os fiéis desistirem. Macedo tem 10 milhões de livros vendidos, alguns deles extremamente críticos à Igreja Católica e a algumas religiões africanas. Seu maior movimento aconteceu na década de 1980, quando adquiriu a Rede Record, a segunda maior emissora do Brasil. Além disso, é dono do jornal Folha Universal, que tem uma circulação de 2,5 milhões de exemplares, e da gravadora Record News.

Seguindo os passos de Macedo, Valdemiro Santiafo é ex-pastor da Igreja Universal do Reino de Deus. Após se desentender com o chefe, ele fundou sua própria igreja –a Igreja Mundial do Poder de Deus, que tem 900 mil seguidores e mais de 4.000 templos, muitos deles adornados com imagens dele. Sua fortuna é estimada em R$ 400 milhões.

Entre outros pastores citados pela Forbes, estão Silas Malafaia, R. R. Soares, Estevan Hernandes Filhos e a bispa Sônia.

Muitos pastores brasileiros conseguiram passaportes diplomáticos nos últimos anos. Alguns, especialmente os mais ricos, são cortejados por políticos em época de eleições. Para finalizar, igrejas são isentas de impostos.

Como diz a Bíblia, a fé move montanhas. E dinheiro, também.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/01/18/forbes-lista-os-seis-lideres-milionarios-evangelicos-no-brasil.htm (visto em 18/01/2013)

* publicado originalmente em 18/01/2013 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

‘A Igreja muda ou acaba’, diz teólogo brasileiro *

  • Mário França crê que o modelo atual da Santa Sé trai a origem da fé católica

Helena Celestino (Email)
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Transição. Bento XVI caminha após sua audiência no Vaticano na quarta-feira: seu sucessor vai herdar uma série de desafios e problemas que o Papa atual não conseguiu resolver, desde escândalos na Igreja à disputas internas por poder na Cúria de Roma Foto: Tony Gentile/Reuters
Transição. Bento XVI caminha após sua audiência no Vaticano na quarta-feira: seu sucessor vai herdar uma série de desafios e problemas que o Papa atual não conseguiu resolver, desde escândalos na Igreja à disputas internas por poder na Cúria de Roma Tony Gentile/Reuters
Por onze anos, Mário França, 76, fez parte da Comissão Teológica do Vaticano, onde conquistou o respeito do então cardeal Joseph Ratzinger. Hoje, professor da PUC-Rio e autor de obras sobre a teologia, defende uma nova Igreja, longe da hierarquia e das ortodoxias de Roma, e com espaço para gays e padres casados.

O GLOBO: Como a Igreja vai sobreviver ?

Mário França: Chegou um momento em que a Igreja, só com os oficiais, padres, bispos e Papa, não aguenta mais. Esta estrutura foi uma traição à Igreja primitiva, em que todo mundo participava e tinha direitos iguais de participação. Todos são iguais, não tem homem, mulher, judeu, gentio ou escravo e senhor. Depois a Igreja erigiu uma estrutura monárquica, um pouco copiada de Roma. Foi consequência da chegada dos príncipes, que começaram a nomear parentes para tomar conta das muitas propriedades da Igreja. Era preciso estruturar ou tudo ia ficar na mão de famílias poderosas, nobres. Para evitar isso, o laicado foi afastado do poder da Igreja – o laicado não era o povão, eram estes príncipes que estavam cada vez incomodando mais. Passou o tempo e a Igreja ficou identificada por seus bispos, padres etc. É errado, né? Todo cristão, todo católico, tem o direito de formar um grupo, com o qual a hierarquia não pode se meter. A Igreja do futuro vai ser predominantemente leiga ou então não vai aguentar.

O Grupo de diversidade católica, que reúne gays, é um exemplo do que o senhor está dizendo?

Mário França: Exatamente. É um grupo de pessoas que são assim. A Igreja não pode excluir, tem de atender todo mundo. É uma maneira de a Igreja mostrar sua abertura. A consciência histórica é lenta. Teve um tempo que os missionários se perguntavam se tinham que batizar ou não os negros da África, por que não sabiam se eram animais ou gente. Muita coisa que achamos normal hoje, daqui a 50 anos será considerada intolerável. Os laicos vão obrigar a Igreja a criar um espaço de debate público, que não existe. A qualquer problema, corre-se para o bispo.

Mas as mudanças têm sido lentíssimas.

Mário França: Não se mexe da noite para o dia com 1,2 bilhão de pessoas. Não se podem criar traumas, as pessoas têm mentalidades muito diversas e, como diz o Rubens César Fernandes, do Viva Rio, o importante é que a gente mantenha todo esse pessoal dentro da Arca de Noé. Os sociólogos dizem que tudo pode mudar, menos o religioso, porque o ser humano tem necessidade de segurar alguma coisa. A gente percebe que isto não tem sentido. O sagrado também é construído através de uma linguagem e de práticas.

Esta posição está afastando muita gente.

Mário França: É, há paróquias que viraram agências de fornecer sacramento, isto está condenado. Tem de ter o sentido missionário. É o que se está tentando fazer agora. Mas é lento. Quando eu fui da Comissão Teológica do Vaticano, não tinha nenhuma mulher, agora já tem quatro. Não há dúvidas de que o fim do celibato já deveria ter acontecido, Paulo VI era a favor disso – mas uma coisa destas vai mudar a estrutura.

A questão da contracepção também está mais do que na hora de ser enfrentada.

Mário França: São questões morais que têm se ser mudadas, mas é uma coisa lenta. No papado de João Paulo VI, o cardeal de Bruxelas disse: na minha arquidiocese é permitido camisinha – ele estava com um problema seríssimo de explosão de Aids entre trabalhadores imigrados. Resolveu assumir e disse: aqui é preciso usar camisinha. O Vaticano não disse uma palavra.

A Igreja não vem conseguindo acompanhar as mudanças sociais?

Mário França: São rapidíssimas. Na PUC, a mudança de uma geração para a outra se dava em 20 anos, depois passou para 10, agora com dois ou três anos, você já vê aluno do quarto ano que não consegue entender o calouro. É uma sucessão vertiginosa que não conseguimos mais acompanhar, que provoca um curto-circuito na cultura.

Quem é o mais progressista entre os candidatos a Papa?

Mário França: Os cardeais terão de fazer um perfil de uma pessoa que entenda o mundo e saiba enfrentar esses desafios todos. Tem de ter boa formação pastoral e intelectual, capaz de se cercar de pessoas competentes. Tem um candidato de Honduras, Luis Alfonso Santos, que é uma pessoa muito possível de dar um bom Papa. Sabe línguas, é sensível, mora no país mais pobre da América Central: é uma pessoa que marca pela inteligência. Tem Luiz Antonio Tagle, um filipino progressista também, mas ele é muito novo. Tem 55 anos. Mas eu duvido que queiram colocar um cardeal de 50 anos, pois ele ficaria 30 anos. A turma não quer isso não. Cardeal Ravasi, encarregado da Cultura, também é muito aberto.

Resumindo: o senhor diz que a Igreja tem de mudar?

Mário França: Já está mudando. Ou muda ou acaba. É um momento sério da sociedade, faltam líderes. Onde estão os Churchill, De Gaulle, Adenauer? Não tem mais, está faltando líder. Na Igreja também, e os problemas são muito grandes. As religiões têm um papel muito forte no mundo de hoje, e a Igreja tem de ser uma reserva ética, apesar dos mal feitos da cúpula.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/a-igreja-muda-ou-acaba-diz-teologo-brasileiro-7596687#ixzz2LG7AYnXI



FONTE: sítio eletrônico do jornal “O Globo”
http://oglobo.globo.com/mundo/a-igreja-muda-ou-acaba-diz-teologo-brasileiro-7596687   

(Colaboração: matéria gentilmente enviada pelo colega Célio Braga).

* publicado originalmente em 18/02/2013 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

‘Cansaço físico é apenas a moldura da decisão do papa’ *

Entrevista: Ezio Mauro

 Papa Bento XVI acena para os fiéis pela última vez da sacada de sua residência de verão em Castel Gandolfo

A explicação oficial inicial para a renúncia do papa Bento XVI, anunciada na última segunda-feira, foi a perda das forças físicas. Um motivo surpreendente, particularmente depois que o mundo – bem como Joseph Ratzinger – acompanhou o calvário de seu antecessor,João Paulo II. Aos poucos, no entanto, Bento XVI foi dando novos esclarecimentos, que descortinaram outros motivos para a imprevista renúncia.
Na missa da Quarta-Feira de Cinzas, o papa denunciou que“o rosto da Igreja é por vezes desfigurado por pecados contra a unidade da Igreja e divisões do corpo eclesiástico”, e lembrou que Jesus denunciou “a hipocrisia religiosa” e aqueles que buscam o aplauso e a aprovação do público em vez da simplicidade. Ratzinger não foi específico, mas, para um dos maiores jornais da Itália, o La Repubblica, que levantou a bandeira dos motivos políticos já na segunda-feira, o discurso do papa se dirigia abertamente a Tarcisio Bertone, o cardeal indicado por Bento XVI para secretário do estado do Vaticano. Diretor do jornal, Ezio Mauro afirma, em entrevista ao site de VEJA, que o objetivo do papa com a sua renúncia era derrubar o governo de Bertone, já que no papado lhe faltavam forças para revolucionar internamente o Vaticano. Confira a entrevista:
La Repubblica possui informações seguras de dentro do Vaticano confirmando que os motivos da renúncia do papa são políticos? Imediatamente após a renúncia escrevemos que as razões para a perda de vigor físico, a idade que avança, o cansaço são certamente apenas a moldura de sua decisão. Na quarta-feira, o papa disse abertamente que existem outras razões. Nós dissemos imediatamente que o cansaço era um desacordo profundo com a Cúria, com o modo pelo qual a Cúria é governada e, ao mesmo tempo, a quase incapacidade de mudar essa situação com um papa idoso, que se sente cansado para revolucionar todo um sistema do Vaticano. Então, a sua demissão responde a seus desejos pessoais, físicos e morais de ter um pouco de tranquilidade e se associa também à necessidade, nessa sua estrada, de zerar o governo da Igreja.
 
La Repubblica defende em seus artigos que o objetivo do papa era derrubar o seu próprio secretário de estado, Tarcisio Bertone. O que mudaria na Igreja sem Bertone? É automático nas regras do Vaticano que, quando um papa renuncia, o secretário de estado, que foi indicado pelo próprio papa, também cai. Assim acaba automaticamente o reinado de Bertone. O próximo papa será um soberano absoluto que pode escolher se quer manter Bertone ou nomear um outro secretário de estado. Com a renúncia do papa, termina o governo de Bertone. Dizem que o papa é contrário aos métodos usados pela secretaria do estado, sobretudo nos últimos anos, e piorou com os escândalos em que o Vaticano se meteu, o vazamento de informações, o corvo [referência ao mordomo Paolo Gabriele]. Então, com o discurso muito duro que ele pronunciou na quarta-feira, sobre as divisões dentro da Igreja, as personalidades que deturpam a imagem da Igreja, ele se dirigiu à cúpula do poder da igreja. É como se o papa tivesse dito ‘eu falei da minha doença, da minha fraqueza física, e, na alma, também falo da doença da Igreja’. Certamente isso também influenciou a decisão do papa.
Em um vídeo publicado na segunda-feira no Repubblica TV, o senhor comenta que a renúncia representa a modernização da Igreja. O senhor se referia à justificativa humana de Joseph Ratzinger ou à possibilidade de uma transformação na forma como opera a Igreja? Às duas coisas ao mesmo tempo. Eu disse que essa renúncia é a irrupção da modernidade dentro de uma estrutura secular porque o homem, com as suas fraquezas, com a diminuição de suas forças físicas, emerge, vem à luz, e não tanto a figura santa, sagrada do papa. É a pessoa física. E isso é um sinal de modernização. Além disso, de qualquer forma, a dessacralização do papa, que permanece certamente como figura de referência para todos os católicos, mostra que ele também é um homem e que é preciso levar em conta as debilitações humanas, as suas forças. Tudo isso transformará a Igreja, pois se o papa se demite porque lhe faltam as forças, a escolha de seu sucessor deve levar isso em conta. Então haverá os critérios espirituais, de autoridade, mas também os físicos, de idade, o caráter, o estado da alma. Nesse sentido, há uma modernização da Igreja.


FONTE: Revista Veja
http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/%E2%80%98cansaco-fisico-e-apenas-a-moldura-da-decisao-do-papa      * postado originalmente em 18/02/2013 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/

Mitos não são mentiras mas…  serão verdade? *

Por Douglas.

Fonte: http://www.jetdicas.com/img/fotos/caixa%20de%20pandora%204.jpg

  Antes de tudo quero começar falando a vocês, caros leitor e leitora, um pouco a respeito da linha do horizonte. A linha do horizonte é aquela onde se encontram, para o seu olhar, o céu e a terra quando você olha muito distante. Ou o céu e o mar quando você está na beira da praia ou navegando. Mas o que isso tem a haver com o nosso assunto? É que essa bela imagem, a do horizonte, é utilizada por um grupo de cientistas sociais de várias disciplinas para definir uma coisa chamada por eles de Horizontes Culturais. E essa definição é muito importante no contexto de nosso pequeno artigo para esse blog. Um Horizonte Cultural ou Civilizacional é o conjunto de valores, significados, conceitos, idéias e sonhos experienciados por uma civilização em todos os aspectos socio-culturais possíveis de se identificar nela, junto com seu desenvolvimento tecnológico, econômico e político. É, evocando-se a imagem, até onde as pessoas que vivem em uma civilização conseguem enxergar dentro do mundo em que vivem, respondendo assim às necessidades de tempo e lugar de suas experiências. O filósofo Ken Wilber, um dos maiores pensadores do século XX, utiliza uma outra palavra para se referir aos Horizontes Culturais. Ele utiliza o termo cosmovisão, que é a palavra que passaremos a usar à partir daqui. Sintetizando os estudos de diversos pesquisadores em seu livro Uma Breve História do Universo – de Buda a Freud, ele descreve cinco cosmovisões básicas e claramente distintas na história humana, a saber:

  •  a arcaica, de desenvolvimento tecnológico/econômico forrageiro e organização social tribal;
  •  a mágica, de desenvolvimento tecnológico/econômico horticultor e organização social tribal e de aldeias;
  •    a mítica, de desenvolvimento tecnológico/econômico agrário e organização social em Estados primitivos;
  •  a racional, de desenvolvimento tecnológico/econômico industrial e organização social em nações-Estados;
  •   e a existencial, de desenvolvimento tecnológico/econômicoinformacional e organização social planetária.

É importante que eu lhes diga nesse momento que à medida que uma sucede a outra, com seus períodos de transição, a cosmovisão seguinte transcende a anterior, NUNCA anulando o que vem antes, mas transcendendo a primeira, indo além  ressignificando e incorporando os elementos da que lhe antecede. E o que isso tem a haver com nossas considerações sobre mitos, mitologia e o seu valor presente em nossas sociedades? É que ao assimilar os elementos constitutivos dos Horizontes Culturais precedentes, nossa cosmovisão existencial tem de lidar com o conteúdo que veio antes e, repito, dar novos significados e valores a esse conteúdo. Isso é muito importante! E assim o é porque não somos seres isolados de nosso passado ancestral. Assim como carregamos as marcas de nossos estágios evolutivos passados na esfera física, com sua perspectiva mineral, vegetal e animal, carregamos igualmente as forças psíquicas e espirituais que nos precedem, para que possamos evoluir, transcendendo. Sendo assim, conhecer estas perspectivas em seus aspectos básicos e gerais nos ajudará a discernir e compreender a razão de os mitos e das mitologias serem tão importantes até hoje, sobretudo quando tratamos do tema religião, quando não raro o que se trabalha em nossos corações e mentes nesse assunto é feito de conteúdos e invólucros mentais que assimilamos, quase sempre de modo inconsciente, de acordo como doutor Carl Jung como verdades inquestionáveis, no pior e mais negativo sentido que é dado ao termo dogma. Vamos então dar uma rápida olhada no que é que o filósofo Ken Wilber nos traz sobre o horizonte mítico-agrário. Em resumo apertado, podemos verificar que nessa cosmovisão surgida entre 4.000 a 2.000 anos A.E.C., substitui-se a enxada pelo arado, muito pesado e difícil de manusear, provocando um esforço que, uma vez executado, permitia uma produção de alimentos muito maior do que a fase anterior, a mágico-horticultora.

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Mas nisso tem-se um preço duro a se pagar: a mulher deixa de ser um membro produtivo da comunidade, se tornando o membro exclusivamente reprodutivo. Isso se dá porque uma mulher grávida pode cavucar a terra com uma vara ou uma enxada para semear, mas se ela manuseia o arado, os índices de aborto começam a subir assustadoramente, o que rapidamente foi percebido por ambos os sexos. Sendo assim, os homens param de ser caçadores e coletores em tempo integral e as mulheres tem de se recolher ao lar e à criação dos filhos. Tal fato é deveras significativo em vários aspectos. Primeiro, é aí que surge a estrutura do patriarcado, em substituição à divinização do feminino. Os homens aram a terra e fazem as guerras, logo, começam a dar as ordens na organização socio-política. Prova disso é que as deusas adoradas por todos desde então passam a ser substituídas por deuses como o elemento provedor espiritual do agregamento comunal. Conforme Wilber, em todo o planeta Terra mais de 90% das sociedades agrárias nesse momento adora deuses masculinos no lugar de suas contrapartes femininas. O mitólogo Joseph Campbell, no volume 2 de sua obra As Máscaras de Deus descreve que, então, as deusas adoradas passaram a ser vistas como as consortes, as esposas dos deuses masculinos, submissas e sujeitas a esses tal qual as mulheres estavam sujeitas nesse Horizonte Civilizacional aos homens, provedores e defensores de todos da comunidade. Porém há mais a ser dito. Com a abundância produtiva de alimentos crescendo, muitos homens – sempre homens – começaram a se especializar em outras atividades, tais como o comércio, a guerra, a contemplação, etc, permitindo com isso o surgimento de uma sofisticação não encontrada no período anterior. De fato, a moeda de troca, o comércio, a metalurgia, as guerras, as matemáticas e o culto religioso elaborado surgem nesse momento na história humana, com toda a gama de complexidade que a interação desses elementos acarreta. Um exemplo disso é a percepção de que ao invés de uma Grande Deusa ou Grande Mãe a tudo reger na biosfera terrestre, haveriam forças outras distintas, sobretudo masculinas, a ocupar um espaço sagrado próprio e a serem levadas em consideração pelos humanos. Começam assim a nascer os deuses diversos, que interagem entre si e com os seres humanos, imiscuindo-se em seus assuntos e influenciando-os para a melhor ou para a pior – e geralmente o encontro com uma divindade era para a pior para a parte mais fraca, nós – tão bem organizados em uma hierarquia celeste – do grego hyeros e arché: poder sagrado – quanto o eram os Estados primitivos. O aspecto da contemplação é particularmente importante para nossos estudos. O Homem passa a ser nesse período, de modo mais profundo e abrangente que no estágio evolutivo anterior, um contemplativo, um teorético. Começa a fazer teoria, palavra que vem do grego theyon oraos, isto é, vejo, contemplo o divino, conforme explicação da doutora Karen Armstrong em sua obra Uma História de Deus. Ora, o Homem desse período era um observador atento daquilo que acontecia ao seu redor e dentro de si, uma vez que, geralmente analfabeto, tinha de prestar atenção ao que acontecia dentro e fora de si como uma questão de sobrevivência, fato que o Homem contemporâneo tem dificuldade para vivenciar em uma sociedade de consumo fácil e de espetáculos onde matar o tempo em lazer é o que significa bem-estar para muitos. Mas o ser humano do Horizonte Agrário-mítico não podia se permitir ser assim. E quando ele se torna um teorético, um contemplativo, ele enxerga que dada a multiplicidade de forças ao seu redor e dentro de si, forças essas que não raro poderiam com muita facilidade lhe tirar a paz, o sossego, a saúde e mesmo a vida, ele precisa posicioná-las em seu devido lugar em relação a si. E esse lugar é acima de si mesmo, como força, como poder, como um deus com quem ele teria de interagir do mesmo jeito que o fazia com os outros homens: dialogando com eles, para tentar um entendimento; negociando com eles, para tentar um concerto de vontades; se submetendo em absoluto a eles, para aplacar a sua ira ou, em casos raros e extremados, guerreando contra eles com a ajuda de um ou mais deuses superiores, para que o status quo ante de harmonia pudesse ser restabelecido. E mais: o ser humano, por ser humano, precisa dar sentido às coisas que ele vivencia e ao que ele é para ser pleno, para estar satisfeito com a vida e seguir em frente. Sua natureza é dinâmica uma vez que ele interage com a natureza ao seu redor, com sua natureza íntima e entre si. Ao enxergar a multiplicidade de deuses, sua harmoniosa concatenação no arranjo de tudo o que existe – chamado por exemplo pelos gregos de kósmos, ordem – e as possibilidades que advém desse conhecimento em sua vantagem, o Homem passou também a se dedicar a explicar, com sua acurada observação das coisas e sua contemplação, a origem do mundo, dos deuses, do Homem e de todo o cosmo. Com isso nascem o mito e a mitologia. Efetivamente, a palavra mythos em grego significa: conto, estória, narrativa. Mas não estamos falando aqui de uma narrativa qualquer. Os contos dos irmãos Grimm também são contos, mas não são mitos. Ninguém fala do mito da gata borralheira, do mito da chapeuzinho vermelho, etc. Sendo assim, o que distingue os mitos de estórias populares? É que o mito é uma narrativa sagrada e explicativa da origem de algo: o cosmo, os deuses, o Homem, uma planta, uma estrela ou constelação e por aí vai. Essa narrativa sagrada geralmente – mas não exclusivamente – estará acompanhada de um ou mais significados simbólicos, perceptíveis ou não pelo ouvinte do mito. Para melhor nos fazermos entender, passo a citar o mitólogo e estudioso de religiões comparadas Mircea Eliade em sua obra Mito e Realidade: “A definição que a mim, pessoalmente, me parece a menos imperfeita, por ser a mais ampla, é a seguinte: o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. O mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. Os personagens dos mitos são os Entes Sobrenaturais. Eles são conhecidos sobretudo pelo que fizeram no tempo prestigioso dos “primórdios”. Os mitos revelam, portanto, sua atividade criadora e desvendam a sacralidade (ou simplesmente a “sobrenaturalidade”) de suas obras. Em suma, os mitos descrevem as diversas, e algumas vezes dramáticas, irrupções do sagrado (ou do “sobrenatural”) no Mundo. É essa irrupção do sagrado que realmente fundamenta o Mundo e o converte no que é hoje. E mais: é em razão dos Entes Sobrenaturais que o homem é o que é hoje, um ser mortal, sexuado e cultural”. Simplificando então: o mito é uma narrativa de origem de algo que se dá em razão de uma manifestação do sagrado ou do sobrenatural na ordem das coisas, explicando assim sua origem e dando sentido para a existência desse algo. Aqui cabe algo importante a se dizer: os mitos não têm a intenção ou mesmo pretensão de ser um estudo objetivo, científico do universo e do Homem. Efetivamente, para o ser humano artesão de mitos, o universo não é uma coisa a ser estudada, medida, dissecada, decomposta, recomposta e reproduzida. O universo para o artesão de mitos não é um objeto, mas sim uma realidade vívida na qual se está inserido. E mais importante ainda: o universo é uma realidade na qual o Homem deve encontrar o seu lugar para que nunca ele se perca nos exageros para mais ou para menos, no descomedimento definido pelo termo grego hybris. Essa é a posição dos filósofos e mitólogos Jean-Pierre Vernant e Luc Ferry, nas obras A Sabedoria dos Mitos Gregos e O Universo, Os Deuses, Os Homens. Se o ser humano escutar os mitos e daí prestar atenção ao mundo dentro de si e ao seu redor, ele vai ver que, à parte a dor causada por calamidades naturais, os problemas humanos praticamente todos são os problemas de hybris/descomedimento, de descontrole, quando tenta ser menos do que é – um animal – ou mais do que é – um deus. Sendo assim, escutar os mitos era se conectar com uma sabedoria prática de vida que mostrava ao Homem seu lugar no mundo, lhe expunha a origem das coisas e dava sentido à sua existência, tudo à partir dos mitos. Os grandes momentos da vida: nascimento, crescimento, casamento, reprodução, trabalho, lutas, doenças e morte, enfim, tudo estava concatenado em uma rede de significados e valores. Agora você pode se perguntar: se os mitos são tão importantes assim, por que é que não os utilizamos mais? A abordagem da Filosofia e das Ciências não fazem o mesmo que os mitos, mas desta vez dizendo tudo às claras, sem linguagem simbólica, sem significados ocultos, sem apelos imaginativos e imagéticos? Não é tudo mais fácil agora? Precisamos ainda dos mitos na era existencial-informacional-planetária? Bem, vamos por partes. Lembra que eu lhe disse no início desse artigo que uma cosmovisão transcende a outra e que transcender não é eliminar o anterior porém, ao contrário, incorporá-la e ir além? Pois é. A cosmovisão ou Horizonte Civilizacional existencial-informacional-planetário não existe ignorando as conquistas humanas, sejam elas materiais ou espirituais do passado mas, muito pelo contrário, se valendo dela em outros contextos, dando-lhes outros significados e, acima de tudo, evidenciando seu real valor. Isto ocorre inclusive no que diz respeito à mitologia. Agora outra coisa: quem foi que disse que não usamos mais os mitos? Certamente nunca fui eu! Não só continuamos a usar os mitos antigos como inclusive criamos mitos novos! No que diz respeito a esses últimos, posso lhe indicar de preferência a leitura do volume 4 da série já citada, As Máscaras de Deus, do mitólogo Joseph Campbell. Trata-se de um estudo pormenorizado de como a mitologia ainda é importantíssima nos dias de hoje justamente porque continua a ser produzida pelo Homem, em circunstâncias bem variadas por sinal. Vamos a alguns exemplos: Adolph Hitler, o líder da Alemanha Nazista, resgatou do passado germânico de seu povo o mito dos Hiperbóreos, uma civilização que teria vivido há muito tempo no planeta na área que hoje é o círculo polar Ártico e que seria, no seu entendimento, os reais antepassados dos povos germânicos. O mito diz que eram a raça branca alegadamente pura e superior, inclusive possuindo poderes sobrenaturais em razão de sua pretensa pureza. Hitler e o staff místico da liderança nazista entendiam que, se conseguissem restaurar a pureza racial, cultural e política dos povos germânicos, que os Hiperbóreos retornariam na figura de seu povo e, recuperando seus poderes, seriam invencíveis. É assim que descrevem essa faceta mística de Hitler os pesquisadores J. H. Brennan em Reich Oculto e Paul Roland em Os Nazistas e o Ocultismo.

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Outro exemplo é a mitologia socialista criada em torno das premissas do filósofo e cientista político alemão Karl Marx. Em resumo apertado, pode-se dizer que a base de seu pensamento é: não há Deus, não há deuses, não há mundo espiritual, numênico, mas apenas o mundo material, fenomênico. A história é a interação dialética de duas forças muito materiais: a classe social dos que mandam e detém o poder e a classe social dos que obedecem e são explorados. Uma vez arregimentada a classe dos explorados para tomar o poder e derrubar os exploradores, pode-se criar uma nova era de paz, segurança e prosperidade em torno do ideal do igualitarismo. E isso estaria prestes a acontecer pois a estrutura econômico-financeira hoje em vigor com sua super estrutura sócio-política, a do Capitalismo e do Liberalismo político estaria tão debilitada que é uma questão de tempo até que ela chegue à ruína e tudo possa mudar. Voltando ao ponto anterior a esses dois exemplos, resta a pergunta: será que ainda continuamos a usar mitos antigos atualmente? A resposta não pode ser menos objetiva: sim! E de modo poderosíssimo. O maior exemplo disso se encontra no contexto das grandes religiões que continuam vivas em nosso planeta, tais como o Cristianismo, o Islamismo, o Judaísmo, as diversas vertentes do Hinduísmo, o Budismo e por aí vai. Em todas elas e em muitas outras o mito é parte constituinte e estrutural da religião, sendo mesmo sua essência. E é aqui que nossa verve espírita começa a se apresentar de modo mais explícito. Tomemos por estudo os dois casos que mais se aproximam culturalmente da Doutrina Espírita, por lhe antecederem e fornecerem subsídios de significados e valores, a saber, o Judaísmo e o Cristianismo. As Escrituras Sagradas Hebraico-Aramaicas, do Judaísmo e as Escrituras Gregas Cristãs, do cristianismo, enfeixadas no exemplar de nossas Bíblias Sagradas como antigo e Novo Testamento são um conjunto de escritos de autores e épocas diferentes que reúnem uma vasta gama de tipos de literatura: poemas, hinos religiosos, meditações filosóficas, textos de história sagrada, profecias e… mitos! Mitos, alguém pode questionar? Sim, mitos! Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Certamente tal visão não é corroborada pela quase totalidade dos cristãos católicos e protestantes uma vez que, conforme nos explica Mircea Eliade no já citado Mito e Realidade, tanto judeus quanto cristãos já bem no início do estabelecimento de seu cânon de textos sagrados, consideravam seus escritos sacros como história simples, literal e direta e os textos sagrados dos outros povos como sendo mitológicos. E aqui, já divulgavam o termo mitológico como sinônimo de estórias inventadas pela imaginação, tal qual o termo é conhecido hoje, em contraposição aos alegados fatos inquestionáveis de suas Bíblias Sagradas. Todavia, a análise de seu material sacro indica muito claramente hoje que, do ponto de vista da historiografia, da Antropologia Arqueológica, da Sociologia aplicada ao passado dos povos do Levante e da região mediterrânea, dos estudos de Mitologias Comparadas, de Religiões Comparadas e de Simbologia, estamos sim lidando não com fatos históricos porém sim com mitos, belos e poderosos mitos, usados por essas duas grandes religiões, a judaica e a cristã com o mesmo sentido dos povos antigos: dar sentido à vida, mostrar ao Homem o seu lugar no universo, explicar a origem de tudo e para onde se dirige a humanidade. São, na imagem de Jesus de Nazaré em  Mateus 9:14-17Marcos 2:18-22 e Lucas 5:33-39, vinho novo em um odre velho e, se não forem respeitados e considerados como os bons mitos que são, romperão os odres dogmáticos nos quais foram colocados. Mas considerar um mito como um fato histórico não é o maior, digamos, descomedimento ou hybris literário por parte dessas religiões. O problema maior se situa no fato de doutrinas, conceitos e valores serem ensinados para os seres humanos como verdades imutáveis em razão da leitura equivocada dos textos sacros mitológicos como história, criando-se assim uma situação de desconforto entre muitos dos fiéis em diversos aspectos de sua vida pois, não querendo abandonar o aconchego espiritual de seus grupos religiosos, ao mesmo tempo não podem aceitar a literalidade das Escrituras Sagradas frente ao avanço das pesquisas científicas e filosóficas que dissecam as religiões e os fatos aos quais elas se referem, dando uma visão muito mais precisa e exata das coisas. E o problema fica maior quando muitos desses fiéis não encontram um pouso seguro e sadio para seus espíritos e resvalam para as tristes conseqüências de uma vida atéia, materialista e, o pior de tudo, hedonista. Tudo em parte porque os mitos não são respeitados e estudados como tais, perdendo assim sua poderosa carga simbólica e seu dinamismo imaginativo em nossas consciências, dando-nos também a força para seguirmos em nosso crescimento como seres humanos.   Diante disso tudo, a Doutrina dos Espíritos mais do que nunca nos apresenta, já desde o século XIX, quando o materialismo e o ateísmo começavam a assumir dimensões preocupantes, uma visão diferente, ampla e transcendental das sagradas escrituras míticas judaico-cristãs. Por exemplo, referindo-se ao mito judaico da criação à luz das ciências de sua época e da Doutrina dos Espíritos, o mestre Allan Kardec comenta, no item 59 de O Livro dos Espíritos (tradução de Evandro Noleto Bezerra) que: “Dever-se-á por isso concluir que a Bíblia é um erro? Não; mas que os homens se equivocaram ao interpretá-la”. Novamente, na questão de número 480 do mesmo livro, perguntados os Espíritos de Luz sobre uma passagem do Evangelho, irão muito além da pergunta ao responder que: “Uma coisa pode ser verdadeira ou falsa conforme o sentido que se der às palavras. As maiores verdades podem parecer absurdas quando se olha apenas a forma e quando se toma a alegoria pela realidade. Compreendei bem isto e guardai-o, pois é de aplicação geral”. Igualmente, tratando da resposta à pergunta 521 sobre o papel dos Espíritos Superiores no estímulo e proteção ao progresso das Artes, o Codificador irá comentar, em um tópico altamente pertinente aos estudos de mitologia, o que se segue: “Os Antigos haviam feito desses espíritos divindades especiais. As musas não eram senão a personificação alegórica dos Espíritos protetores das ciências e das artes, como os deuses Lares e Penates simbolizavam os Espíritos protetores das famílias. Entre os modernos, as Artes, as diferentes indústrias, as cidades, os países também têm os seus patronos ou protetores, que nada mais são do que Espíritos superiores, embora sob outros nomes”. Para tornar mais explícita ainda as explicações espíritas pertinentes aos fenômenos mitológicos, Kardec questiona na pergunta 537: “A mitologia dos Antigos se fundava inteiramente sobre as idéias espíritas, com a única diferença de que consideravam os Espíritos como divindades. Representavam esses deuses ou esses Espíritos com atribuições espirituais. Assim, uns eram encarregados dos ventos, outros do raio, outros de presidir à vegetação etc. Essa crença é destituída de fundamentos?“Tão pouco destituída de fundamentos que ainda está muito aquém da verdade”. Finalmente, o tema é pontuado de modo claro e definitivo na pergunta de número 668, com a resposta dos Espíritos de Luz e o comentário abalizado do Codificador: “Por se terem produzido em todos os tempos e serem conhecidos desde as primeiras idades do mundo, os fenômenos espíritas não terão contribuído para a difusão da crença na pluralidade dos deuses? “Sem dúvida. Como os homens chamavam deus tudo o que era sobre-humano, para eles os Espíritos pareciam deuses. É por isso que quando um homem se distinguia dos demais, por suas ações, pelo seu gênio ou por um poder oculto que o povo não compreendia, faziam dele um deus e lhe rendiam culto após a morte”. Allan Kardec comenta na mesma questão:  “Entre os antigos, a palavra deus tinha uma acepção muito ampla. Não significava, como hoje, uma personificação do Senhor da Natureza. Era uma qualificação genérica, que se dava a todo ser colocado acima das condições da Humanidade. Ora, tendo as manifestações espíritas lhes revelado a existência de seres incorpóreos que agiam como forças da Natureza, eles os chamaram deuses, como nós os chamamos Espíritos. Simples questão de palavras, com a diferença de que, em sua ignorância, mantida intencionalmente por aqueles que nisso interesse, eles construíram templos e altares muito lucrativos, ao passo que hoje os consideramos como simples criaturas como nós, mais ou menos perfeitas e despojadas de seus envoltórios terrenos. Se estudarmos atentamente os diversos atributos das divindades pagãs, reconheceremos sem dificuldade todos os atributos dos nossos Espíritos, em todos os graus da escala espírita, seus estado físico nos mundos superiores, todas as propriedades do perispírito e o papel que desempenham nas coisas da Terra. “Vindo iluminar o mundo com a sua luz divina, o Cristianismo não podia destruir uma coisa que está na Natureza, mas fez que a adoração se voltasse para aquele a quem é devida. Quanto aos Espíritos, a lembrança deles se perpetuou sob diversos nomes, conforme os povos, e suas manifestações, que jamais deixaram de produzir-se, foram interpretadas de maneiras diferentes e muitas vezes exploradas sob o domínio do mistério. Enquanto a religião via nessas manifestações fenômenos miraculosos, os incrédulos os consideravam embustes. Hoje, graças a estudos mais sérios, feitos em plena luz, o Espiritismo, liberto das idéias supersticiosas que o obscureceram durante séculos, nos revela um dos maiores e mais sublimes princípios da Natureza”. Eis aqui uma dimensão muito diferente e bem mais abrangente dos mitos e da mitologia para o Homem do Horizonte Cultural existencial-informacional-planetário! Uma dimensão expandida, onde os estudos mitológicos podem conviver de modo muito apropriado com as pesquisas das Ciências, com as sínteses racionais e elucubrações das modernas Filosofias e, não menos importante, com a tão necessária ressignificação das Religiões frente às necessidades deste tempo, em todo o planeta Terra. Tal visão, começada a ser apresentada à Humanidade em o Livro dos Espíritos, segue sendo mais explicada em notáveis obras da Doutrina Espírita, tais como O Problema do ser, do destino e da Dor, do maior filósofo do Espiritismo depois de Kardec, o inolvidável Léon Denis; também com as obras À Caminho da Luz e O consolador, de Emmanuel, e Evolução em Dois Mundos, de André Luiz, todos psicografados pelo insigne médium espírita Chico Xavier. Tudo isso para nos mostrar como os mitos são verdade sim, mas verdade em seu contexto imaginativo, criativo, contemplador, poético, sagrado, contado e cantado, como o eram pelos antigos aedos gregos, além dos aedos de muitos outros povos e civilizações. Muito teríamos a explorar sobre o maravilhoso mundo mitológico, inclusive nos estudos da psique humana começados pelo doutor Sigmund Freud, continuados e expandidos tremendamente pelo doutor Carl Gustav Jung e seus discípulos, além de tantos outros pensadores. Mas por enquanto paramos aqui, e nos despedimos de vocês querido leitor e querida leitora, com uma citação de um discípulo do doutor Jung, o já mencionado Joseph Campbell, na obra O Poder do Mito, uma série de entrevistas transcritas em livro pelo jornalista Bill Moyers: “CAMPBELL: Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar, dentro de nós mesmos. MOYERS: Mitos são pistas?CAMPBELL: Mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana.MOYERS: Aquilo que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente?CAMPBELL: Sim”.   * publicado originalmente em 07/03/2013 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/

O Estado Laico e a PEC da Teocracia *

Por Jefferson     Laicidade ou Laicismo, no âmbito do Direito, é a separação entre o Estado e a religião. É uma conquista da República, pois nos estados absolutistas o rei era, antes de tudo, uma expressão visível da vontade de Deus, e o Estado era um presente divino ao soberano, podendo conduzi-lo da maneira que melhor lhe aprouvesse. Com o advento da República e a consequente escolha do líder político por processo democrático e eletivo, a esfera pública e a esfera privada ficaram separadas em definitivo. Uma das consequências dessa separação foi o afastamento do Estado do campo religioso, o chamado Estado laico, isso porque a religião é uma escolha eminentemente privada, que diz respeito a cada indivíduo, não podendo ser imposta por quem quer que seja. Quando o Estado, representado por seus governantes e parlamentares, resolve ultrapassar essa barreira, ele invade a esfera de cada um de seus cidadãos. Não porque defenda a crença em Deus, seja que deus for, mas porque quer  impor um código moral religioso a pessoas que possuem profissões de fé diferentes ou que nem fé possuem. Via de regra, desrespeitada a característica laica do Estado, a máquina pública deixa de ser de todos e passa a ser instrumento para impor o código moral/religioso de um grupo. Uma determinada agremiação de fé entende que possui uma procuração de Deus para agir em nome Dele e quer se aproveitar da força das instituições da República para impor o seu ponto de vista a todos os demais cidadãos. Chamamos isso de desrespeito. Muitas vezes o argumento do grupo infiltrado em um poder ou em uma instituição republicana, como o Congresso Nacional, por exemplo, é de que possui a legitimidade de uma maioria, por isso há uma vitória democrática. Isso é uma falácia. O Estado Democrático de Direito não se confunde com a ditadura da maioria. Princípios que regem todos os códigos de um país não podem ser subvertidos por uma maioria que quer se impor sobre o direito de outros grupos. Recentemente, o Deputado João Campos (PSDB-GO), presidente da Frente Parlamentar Evangélica, propôs uma PEC – Proposta de Emenda Constitucional – para incluir as associações religiosas de âmbito nacional no rol de legitimados para a propositura de ações diretas de inconstitucionalidade (ADIs) e ações declaratórias de constitucionalidade (ADCs). Segundo o parlamentar proponente, a referida PEC tem por objetivo preservar a liberdade religiosa e a liberdade de culto, que podem ser ameaçadas por normas expedidas pelos agentes estatais. Sob essa hipotética ameaça, uma associação religiosa de âmbito nacional poderia demandar via ADI ou ADC, conforme o caso, diretamente no Supremo Tribunal Federal (STF) na defesa dos seus direitos.   Não resta dúvida de que a pretendida PEC fere o princípio do Estado laico, pois legitima entidades religiosas a serem sujeitos ativos na mais alta corte jurídica do país para, via Judiciário, atacarem as tarefas normativas das instituições laicas democraticamente consagradas, com o intuito de defenderem o seu interesse particular. Enquanto detentoras de personalidade jurídica, nenhuma igreja, centro ou terreiro, por menor que seja, está desamparado da proteção do Estado, podendo atacar o ato concreto na comarca judiciária de sua cidade. É o chamado controle difuso de constitucionalidade. De outra forma, partidos políticos, Ordem dos Advogados do Brasil e Ministério Público Federal já se encontram no rol dos legitimados para a propositura dessas ações, não precisando nem mesmo ser provocados, solicitados por nenhuma entidade – de crentes ou ateus – para isso. Portanto, além de macular o Estado laico, a PEC é desnecessária. Existem muitos assuntos que estão tramitando no Congresso Nacional e que encontram forte oposição da Frente Parlamentar Evangélica. Legalização do aborto, casamento gay, eutanásia, liberação das drogas, criminalização da homofobia e ensino religioso nas escolas públicas são alguns temas em discussão nas sessões dos nossos parlamentares nacionais. Essas discussões interessam a toda sociedade brasileira e devem atender a população de um país como um todo. As idéias controvertidas do pastor/deputado Marcos Feliciano, atual presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, somente acirraram mais o radicalismo entre os defensores da “moral cristã” – conceito indefinido, pois muda conforme a vertente – e os ativistas de vários grupos de movimentos civis. A referida PEC, ao contrário do que o Deputado João Campos propagandeia, não pretende se restringir aos problemas de liberdade religiosa e de culto. Acreditar nisso, conhecendo a atuação da chamada “Bancada Evangélica” no Congresso Nacional seria ingenuidade. É um atalho para discutir no STF assuntos civis que o Congresso brasileiro já bateu o martelo. É permitir um novo fórum de debate em assuntos já ultrapassados na esfera legislativa. Cada um desses deputados e senadores, eleitos por seus redutos religiosos/eleitorais, pertencem a uma sigla partidária, sigla essa que possui legitimidade jurídica para discutir na Suprema Corte as sua divergências com as normas postas. Não há a mínima necessidade de que as duas maiores religiões do país – Católica e Protestante – se façam representar via aparato estatal no cume do Judiciário pátrio. Dizemos essas duas pois são as melhores representadas e estruturadas para isso. As chamadas seitas e religiões de menor expressão permanecem na marginalidade da nova PEC. Fonte: http://3.bp.blogspot.com/-_DbF5n96Qtw/Tr8AG1buGRI/AAAAAAAAAA4/XWUqwUOF5-I/s1600/178999_184826584872989_184824094873238_524409_3591550_n.jpg Existe um princípio elementar em qualquer democracia republicana: nas discussões políticas, a Constituição Federal tem que estar acima de tudo, inclusive da Bíblia, do Corão, do Evangelho Segundo o Espiritismo ou de qualquer outro livro considerado sagrado. A Carta Magna do nosso país deve ser o texto máximo porque ela tem que atender a todos, inclusive católicos, muçulmanos, espíritas, outras denominações religiosas e, inclusive, quem não tem religião e não acredita em nenhum deus. Quando respeitamos isso, estamos também defendendo a liberdade de cada um cultuar Deus do jeito que se sentir melhor. Aborto e liberação das drogas e outros assuntos polêmicos não podem ser decididos no Parlamento com base nas convicções desse ou daquele grupo religioso, mas com argumentos que satisfaçam a todos, inclusive o brasileiro e a brasileira que não possui crença religiosa nenhuma. Isso é o Estado laico, com suas qualidades e defeitos, mas é o princípio que nos assegura a liberdade religiosa e a plenitude do exercício da cidadania. Particularmente, nós, espíritas, que prezamos e defendemos a liberdade de consciência como atributo inerente a cada ser humano, podemos e devemos defender o nosso ponto de vista, fora dos nossos centros religiosos, com todos os argumentos jurídicos, sociais e científicos que conheçamos. É assim que se discute em um regime democrático como cidadãos. Devemos ter argumentos sólidos que satisfaçam a todos, inclusive aqueles que não acreditam em Deus, na imortalidade da alma, na lei de causa e efeito, na reencarnação e na comunicação dos desencarnados. Assim faremos a nossa causa vitoriosa, e não com convicções pessoais, ainda que sinceras e verdadeiras para nós, mas que não fazem parte do sistema de crença dos demais concidadãos.   Para os que tiverem interesse, segue o link do programa “Expressão Nacional”, da TV Câmara, contendo o vídeo do debate entre o Deputado João Campos, autor da PEC, o Deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), o cientista político Murilo Aragão e este que aqui escreve, Jefferson Bellomo, participante do programa na condição de especialista em história das religiões. LINK: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/tv/materias/EXPRESSAO-NACIONAL/439931-EXPRESSAO-NACIONAL-DISCUTE-PEC-QUE-PODE-MUDAR-CARACTERISTICA-BRASILEIRA-DE-ESTADO-LAICO.html Da minha parte, não tenho a mínima dúvida que a proposta feita pelo referido parlamentar atenta não só contra o Estado laico, mas, em visão mais ampla, também contra as bases do Estado Democrático de Direito.   * publicada originalmente em 21/04/2013 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/

Condenados por Deus: Um Problema Teológico (Parte III – final) *

Ressurreição de Cristo – Carl Bloch

  por Jefferson

Esta é a terceira e última parte do artigo “Condenados por Deus: um problema teológico”. Para os que estão acessando o artigo pela primeira vez, sugerimos a leitura das duas partes precedentes, publicadas nos dias 22/02 e 27/03/12.

Alguns Conceitos Básicos

Este blog é espírita, portanto, muito natural que os assuntos apresentados aqui sejam escritos e lidos sob esta óptica. Já deixamos claro, nas duas partes anteriores deste artigo, que os dogmas do pecado original e da salvação pela cruz, independente de se acreditar ou não no Espiritismo, não fazem nenhum sentido, pois a sua base somente se sustenta se a história de Adão e Eva fosse verdadeira, o que os fatos apresentados pela Ciência já demonstraram não ser o caso. Contudo, se somente derrubássemos o edifício da fé cristã e não oferecêssemos alternativa, como fazem os defensores do Ateísmo, nada de digno faríamos. Se a visão espírita diverge da visão apresentada pela teologia cristã, é necessário que ofereça uma alternativa racional para o desequilíbrio humano e para o sofrimento que sempre ronda a nossa espécie, sem que para isso haja a necessidade de recorrer à “natureza pecadora” e ao “castigo divino” com os quais não concorda. Para tanto, qual a explicação espírita para essas questões? Para responder a essa pergunta, precisamos partir de um conhecimento comum daquilo que o Espiritismo professa, principalmente para quem não tem intimidade nenhuma com a literatura espírita:

1)      O Espiritismo acredita em Deus? Sim, tanto que o início dos estudos espíritas, explanados no livro-base do Espiritismo, “O Livro dos Espíritos” de Allan Kardec, destina o seu primeiro capítulo somente para tratar Dele. Na questão número quatro, daquele livro, temos: “4. Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus? “Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.”

2)      Como é Deus na visão espírita? É um Deus que se revela muito mais pela Sua criação do que pelos livros e pelos templos. Na questão nona, do livro já citado, temos a seguinte explicação: “9. Em que é que, na causa primária, se revela uma inteligência suprema e superior a todas as inteligências? “Tendes um provérbio que diz: Pela obra se reconhece o autor. Pois bem! Vede a obra e procurai o autor. O orgulho é que gera a incredulidade. O homem orgulhoso nada admite acima de si. Por isso é que ele se denomina a si mesmo de espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!” Mais adiante, a questão de número treze trata dos atributos de Deus: 13. Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom, temos idéia completa de Seus atributos? “Do vosso ponto de vista, sim, porque credes abranger tudo. Sabei, porém, que há coisas que estão acima da inteligência do homem mais inteligente, as quais a vossa linguagem, restrita às vossas idéias e sensações, não tem meios de exprimir. A razão, com efeito, vos diz que Deus deve possuir em grau supremo essas perfeições, porquanto, se uma Lhe faltasse, ou não fosse infinita, já Ele não seria superior a tudo, não seria, por conseguinte, Deus. Para estar acima de todas as coisas, Deus tem que se achar isento de qualquer vicissitude e de qualquer das imperfeições que a imaginação possa conceber.” Portanto, Deus, para a Doutrina Espírita, é a causa primária de tudo e a inteligência suprema do universo, possuindo todas as Suas qualidades (justiça, amor, sabedoria, etc.) em grau infinito, sem possuir nenhuma partícula de nossas limitações, nenhum átomo de nossos defeitos.

3)      Como o Espiritismo entende a Bíblia? Podemos tomar por base as palavras de Allan Kardec, que organizou e publicou o ensino dos Espíritos, como uma opinião da maioria dos espíritas: “A Bíblia, evidentemente, encerra fatos que a razão, desenvolvida pela Ciência, não poderia hoje aceitar e outros que parecem estranhos e derivam de costumes que já não são os nossos. Mas, a par disso, haveria parcialidade em se não reconhecer que ela guarda grandes e belas coisas. A alegoria ocupa ali considerável espaço, ocultando sob o seu véu sublimes verdades, que se patenteiam, desde que se desça ao âmago do pensamento, pois que logo desaparece o absurdo.” (Allan Kardec, “A Gênese”, capítulo IV, item 6)

4)      Como a Doutrina Espírita interpreta a narrativa de Adão e Eva? Segundo os Espíritos que participaram da criação do “Livro dos Espíritos”, temos a seguinte explicação: 50. A espécie humana começou por um único homem? “Não; aquele a quem chamais Adão não foi o primeiro, nem o único a povoar a Terra.” Segundo entendimento de Allan Kardec, o que tem sido confirmado por diversas escritas mediúnicas, Adão representa um conjunto de espíritos exilados dos seus planetas de origem, vez que teimavam em permanecer retardatários ao progresso geral de suas sociedades. Foram trazidos ao nosso planeta e aqui reencarnaram em expiação, para progredirem e fazer às tribos que aqui estavam, bem mais atrasadas do que eles em termos morais e intelectuais, progredissem também. “De acordo com o ensino dos Espíritos, foi uma dessas grandes imigrações, ou, se quiserem, uma dessas colônias de Espíritos, vinda de outra esfera, que deu origem à raça simbolizada na pessoa de Adão e, por essa razão mesma, chamada raça adâmica. Quando ela aqui chegou, a Terra já estava povoada desde tempos imemoriais, como a América, quando aí chegaram os europeus. “Mais adiantada do que as que a tinham precedido neste planeta, a raça adâmica é, com efeito, a mais inteligente, a que impele ao progresso todas as outras. A Gênese no-la mostra, desde os seus primórdios, industriosa, apta às artes e às ciências, sem haver passado aqui pela infância espiritual, o que não se dá com as raças primitivas, mas concorda com a opinião de que ela se compunha de Espíritos que já tinham progredido bastante. Tudo prova que a raça adâmica não é antiga na Terra e nada se opõe a que seja considerada como habitando este globo desde apenas alguns milhares de anos, o que não estaria em contradição nem com os fatos geológicos, nem com as observações antropológicas, antes tenderia a confirmá-las.” (Allan Kardec, “A Gênese”, capítulo XI, item 34)

5)      Quem é Jesus para o Espiritismo? Uma pessoa sem igual, mas não um deus encarnado, porque Deus é único, como é muito claro toda a Antiga Aliança conhecida como Bíblia Hebraica. Jesus era judeu e como fiel observador da Torá, nunca reinvidicou para si a condição de divindade. A dita Santíssima Trindade nunca foi revelação evangélica genuína, mas uma construção teológica, idéia de gosto das comunidades cristãs de origem helenista, que não tinham a mesma identidade cultural das primeiras comunidades judaicas, como a de Jerusalém. Para ganharmos tempo, citaremos apenas duas passagens evangélicas que deixam bem claro o que afirmamos: “Aproxima-se então um mancebo e lhe diz: ‘Bom Mestre, que bem devo fazer para alcançar a vida eterna?’ Jesus lhe respondeu: ‘Por que me chamas bom? Não há senão somente Deus que é bom. Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos.”(Mateus, 19:16 e 17; Marcos, 10:17 e 18; Lucas, 18:18 e 19.) “Assim falou Jesus, e, erguendo os olhos ao céu, disse: ‘Pai, chegou a hora: glorifica teu Filho, para que teu Filho te glorifique, e que, pelo poder que lhe deste sobre toda carne, ele dê a vida eterna a todos os que lhe deste! Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo.” (João 17, 1-3; grifos nossos) 6)      Se Jesus não é Deus, então, quem ele é? Segundo ensinam os Espíritos, Jesus é o modelo dado por Deus à humanidade e pertence ao grupo dos Espíritos Puros, ou seja, aqueles espíritos que nada mais tem a expiar, que possuem as virtudes humanas em seu grau máximo sem serem portadores de nenhum dos vícios de nossa natureza. “625. Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?” “Jesus.” (Allan Kardec – Livro dos Espíritos)

7)      Se Jesus é guia e modelo, se a Bíblia tem verdades sublimes sob o véu da alegoria, para que serve a Doutrina Espírita? A humanidade está em constante processo de transformação, sempre com novas demandas e questionamentos. Mais amadurecida, a sociedade atual necessita de respostas que as suas antecessoras nem pensaram em formular. Longe do ambiente agropastoril e patriarcal do Oriente Médio, necessita de esclarecimentos e provas mais apropriadas para o tempo presente. Vejamos o que nos diz o Livro dos Espíritos: 627. Uma vez que Jesus ensinou as verdadeiras leis de Deus, qual a utilidade do ensino que os Espíritos dão? Terão que nos ensinar mais alguma coisa? “Jesus empregava amiúde, na sua linguagem, alegorias e parábolas, porque falava de conformidade com os tempos e os lugares. Faz-se mister agora que a verdade se torne inteligível para todo mundo. Muito necessário é que aquelas leis sejam explicadas e desenvolvidas, tão poucos são os que as compreendem e ainda menos os que as praticam. A nossa missão consiste em abrir os olhos e os ouvidos a todos, confundindo os orgulhosos e desmascarando os hipócritas: os que vestem a capa da virtude e da religião, a fim de ocultarem suas torpezas. O ensino dos Espíritos tem que ser claro e sem equívocos, para que ninguém possa pretextar ignorância e para que todos o possam julgar e apreciar com a razão. Estamos incumbidos de preparar o reino do bem que Jesus anunciou. Daí a necessidade de que a ninguém seja possível interpretar a lei de Deus ao sabor de suas paixões, nem falsear o sentido de uma lei toda de amor e de caridade.” Partindo desses conceitos básicos, fica claro que o Espiritismo não tem por pretensão de desqualificar ou revogar os ensinos bíblicos, muito menos as palavras de Jesus e o seu significado inquestionável para a humanidade. O Espiritismo tem por missão provar, através do ensino daqueles que já viveram como nós e que continuam a existir depois da morte, que o caminho ensinado por Jesus é o único a nos trazer felicidade. São os seus testemunhos do além-túmulo, de felicidade ou de infelicidade, que nos indicam o caminho a seguir ou a evitar, para que tenhamos uma vida de bem-aventuranças espirituais a partir desta vida mesmo. São os Espíritos, enviados pelo Altíssimo, que nos mostram os aspectos práticos de sermos virtuosos, da razão de nossos sofrimentos e da necessidade que temos de sermos pessoas mais integras, justas, caridosas, piedosas e compreensivas para com os nossos semelhantes, enfim, seguirmos os passos de Jesus, para que possamos ter a verdadeira felicidade, que é a da consciência iluminada, o verdadeiro templo de Deus. Com o Espiritismo, que nada mais é do que o desdobramento da mensagem evangélica, a consciência se ilumina, o coração se aquece e a alma se ilumina. Deus não é Beduíno O Barão de Montesquieu certa vez disse “Se os triângulos tivessem um Deus, ele teria três lados”. O Deus da Bíblia Hebraica é um pastor poderoso, porque era cultuado por povos que tem origem nômade. A “terra santa” é um pedaço de terra que possui abundância de pedras, desertos e montanhas, e carência de terras produtivas, mas é santa porque é a sua terra, e não dos outros. Encontraremos na Bíblia muitas menções ao cedro do Líbano, ao camelo e ao leão, mas não terá uma linha sobre uma jabuticabeira, uma jibóia ou lobo-guará, pelo simples fato de que não eram do conhecimento dos povos do Oriente. Quem escreveu a Bíblia, escreveu para o seu povo, embebido de sua cultura e de seus costumes, e o Deus narrado por ele também ficará limitado pelo seu horizonte. Portanto, as características do Deus da Antiga Aliança serão as mesmas do povo que o cultua. “Um deus terrível das selvas, um deus árabe, um deus que atravessava as montanhas, percorria os desertos, repousava em barracas, suntuosamente coloridas. Um deus que protege seu povo, à noite quando este se recolhe para dormir, um deus que o leva à batalha, que castiga os seus inimigos sem dó, um deus que muda de idéia como o vento, que é rápido na vingança e não recua ante uma mentira quando esta lhe convém. No entanto, é um deus que não comete injustiças, que é generoso para com estranhos, bondoso para com os órfãos e misericordioso para com os pobres. Em poucas palavras, um deus que possui todas as virtudes e defeitos do beduíno árabe.” (Thomas, Henry – A História da Raça Humana Através da Biografia – 10 ed., Rio de Janeiro: Globo, 1979, p.40 e 41). O mundo mudou, a humanidade evoluiu, Deus já não cabe mais nesse modelo. Como vimos mais acima, “Pela obra se reconhece o autor. Pois bem! Vede a obra e procurai o autor.”, dizem os Espíritos. Feita a proposta, vamos estudar a obra para conseguirmos dimensionar o autor. Vamos dar um rápido passar de olhos na criação para tentarmos entender a dimensão de seu Autor. Além da Imaginação Toda a histórica bíblica se passa na região que abrange a bacia latina do Mediterrâneo, o Oriente Médio e as terras que seriam os atuais Irã e Iraque. A sua crença na divindade era restrita ao seu conhecimento, às suas experiências, da mesma forma que os deuses ameríndios e polinésios não se assemelharam ao Deus de Israel, porque Israel desconhecia esses continentes. O mundo é muito maior do que Canaã. O mundo também não se sustenta sob colunas, não existe uma abóboda onde são firmadas as estrelas, não existem águas sobre essa abóboda e não existem abismos sob as colunas. O planeta não é plano e não é o centro do universo. Portanto, se quisermos entender Deus, temos que olhar para o livro da natureza, e não para a Bíblia. Pelas Sagradas Escrituras se pode entender muito de como o povo hebreu entendia Deus, mas não se pode entendê-Lo, pois Ele é muito maior. Israel, comparada ao Brasil, Estados Unidos, China e Índia, em termos geográficos, é uma pedaço de terra inexpressivo, e a sua população, com todo respeito que merece a sua cultura e as suas tradições milenares, mesmo hoje, é uma parcela ínfima quando comparada com o somatório de todas as civilizações e culturas que existiram e existem em nosso planeta. Deus é muito maior para ser representado por um único povo. O nosso próprio planeta, quando comparado com outros tantos, é uma pequena semente flutuante no espaço cósmico, e o nosso sol, que nos parece tão grande e imponente, é uma pequena chama de um fósforo aceso ao lado de Arturo, e esta estrela não passa de pálida fonte de luz se comparada com VY Cão Maior. E estamos falando de estrelas, que são pontinhos diminutos no condomínio de galáxias chamado Universo. “Pela obra se reconhece o autor.”, bem nos lembram os Espíritos. Pois bem, neste Universo devassado por nossos telescópios mais poderosos, do qual ainda sabemos muito pouco, é o verdadeiro livro das virtudes de Deus. Deus não pode ser um beduíno do deserto, não pode se comportar com as nossas fraquezas e mesquinharias, pois a sua obra espalhada pelo Cosmos nos atestam a sua infinita sabedoria e poder; uma natureza muito maior do que as nossas especulações infantis. O que representa uma pequena nota dissonante nessa sinfonia incalculável de sóis, supernovas, buracos negros e galáxias? O Arquiteto Supremo, o Criador Incriado é passível de se ofender conosco a ponto de amaldiçoar toda a raça humana? A sua ira é tão terrível que somente o sangue no altar, ou a crucificação de um justo é capaz de serená-lo? Elevemos o olhar para muito além do nosso horizonte. Deus é maior! Seguindo a máxima de que uma imagem vale mais do que mil palavras, vamos admirar o livro da criação divina cujas páginas os antigos hebreus não podiam ler e aproveitar para refletirmos em qual livro Deus deixou escritos os seus atributos.     A Soteriologia Espírita Fizemos, abaixo, um resumo da explicação dada pelos Espíritos sobre a nossa origem, a causa de nossas aflições e o destino que nos aguarda. Algumas frases são transcrições literais do Mestre Lionês. Todas as afirmações abaixo podem ser consultadas nas obras de Allan Kardec, particularmente no item VI de “O Livro dos Espíritos” e no livreto “O Que é o Espiritismo”. Deus tem a sua perfeição proporcional à sua obra, que se caracteriza pela imensidão ilimitada no tempo e no espaço. Mas se Deus é perfeito, porque nós somos miseráveis em nossas virtudes, pródigos em nossas desgraças, escravos de nossos prazeres e vítimas de nossas dores? Se Deus é justo, porque tantas diferenças visíveis desde o berço sem que a nossa vontade possa afastar o golpe do destino? Deus é tão grande que não nos enxerga e não ouve os nossos apelos? Qual a razão da vida que nem sempre é resultado de nossos melhores esforços? Os questionamentos não são novos, mas em uma época da busca pela razão, somos muito mais exigentes nas respostas. Adão e Eva, serpente, paraíso, maldição, pecado, Satanás, ira divina, nada disso mais satisfaz a quem procura uma resposta além dos muros do dogma. Para esses o Espiritismo tem muito a dizer. O Espiritismo não se impõe a quem quer que seja; quer ser aceito livremente e por efeito de convicção. Expõe suas doutrinas e acolhe os que voluntariamente o procuram. Não cuida de afastar pessoa alguma das suas convicções religiosas; não se dirige aos que possuem uma fé e a quem essa fé basta; dirige-se aos que, insatisfeitos com o que se lhes dá, pedem alguma coisa melhor. O Espiritismo, que nada mais é do que a Doutrina formada do ensino concordante dos Espíritos, postula que Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom, e que criou o Universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, visíveis e invisíveis. Os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo, e os seres imateriais, o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos. Todos somos criados simples e ignorantes, adquirindo inteligência, gostos e tendências de acordo com as escolhas feitas, conforme vamos evoluindo e passando por diversas experiências. Os Espíritos revestem temporariamente um invólucro material perecível, cuja destruição pela morte lhes restitui a liberdade. Deixando o corpo, a alma volve ao mundo dos Espíritos, donde saíra, para passar por nova existência material, após um lapso de tempo mais ou menos longo, durante o qual permanece em estado de Espírito errante, ou seja, sem morada fixa. Existem Espíritos de todas as espécies de inteligência e moralidade, da mesma forma que percebemos essas diferenças nas pessoas que habitam o nosso mundo. Contudo, os Espíritos não ocupam perpetuamente a mesma categoria. Todos se melhoram passando pelos diferentes graus da hierarquia espírita. Esta melhora se efetua por meio da encarnação, que é imposta a uns como expiação, a outros como missão. A vida material é uma prova que lhes cumpre sofrer repetidamente, ou seja, por várias reencarnações, até que hajam atingido a absoluta perfeição moral. As diferentes existências corpóreas do Espírito são sempre progressivas e nunca regressivas; mas, a rapidez do seu progresso depende dos esforços que faça para chegar à perfeição. As qualidades da alma são as do Espírito que está encarnado em nós; assim, o homem de bem é a encarnação de um bom Espírito, o homem perverso a de um Espírito impuro. O Espírito encarnado se acha sob a influência da matéria; o homem que vence esta influência, pela elevação e depuração de sua alma, se aproxima dos bons Espíritos. Aquele que se deixa dominar pelas más paixões, e põe todas as suas alegrias na satisfação dos apetites grosseiros, se aproxima dos Espíritos impuros, dando preponderância à sua natureza animal. Quem transgride a Lei de Deus são corrigidos através de novas existências, de forma a recomeçar o trabalho que negligenciaram, que nada mais é do que ser uma pessoa correta e caridosa, disposta a praticar ao bem e não se revoltar com as dificuldades que fazem parte da vida. Não existem faltas irremissíveis, que a expiação não possa apagar. Meio de consegui-lo encontra o homem nas diferentes existências que lhe permitem avançar, conforme os seus desejos e esforços, na senda do progresso, para a perfeição, que é o seu destino final. Portanto, o destino do homem está em suas mãos, sendo de sua responsabilidade os resultados que colhe na vida. Se não encontra causa de seus sofrimentos nesta vida, deverá suspeitar que a origem remonta a vidas anteriores. Assim, não existe injustiça, mas redenção em cada prova da vida. Mesmo a criança recém saída do útero materno, que nada fez nessa vida para vir com essa ou aquela deformidade, nascer nesse ou naquele ambiente, como Espírito imortal, viajante de muitas existências corporais, colhe hoje o que plantou no passado, e semeia hoje os frutos saborosos ou amargos do amanhã. Segundo o axioma “todo efeito tem uma causa”, as misérias da vida são efeitos que hão de ter uma causa e, desde que se admita um Deus justo, essa causa também há de ser justa. Ora, ao efeito precedendo sempre a causa, se esta não se encontra na vida atual, há de ser anterior a essa vida, isto é, há de estar numa existência precedente. Sem privilégios, sem maldições, sem injustiças, sem salvação pelo sacrifício de terceiros. Todos fomos criados com as mesmas possibilidades, todos escolhemos os nossos caminhos, todos somos responsáveis pelos nossos atos, todas temos as oportunidades inumeráveis de resgate, aprendizado e evolução. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça. Mas, a encarnação para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório. E uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo essa tarefa transpõem rapidamente e menos penosamente os primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, talseja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação e é quando se torna um castigo. Deus, através dos seus enviados e das pessoas com quem convivemos, nos ensina o bem e nos estimula ao progresso, cabendo a nós o mérito da vitória ou a responsabilidade do fracasso momentâneo. Nenhum dos seus filhos se perde, porque todos tem a eternidade como trunfo para a vitória. No nosso atual estágio evolutivo, não nos lembramos das vidas anteriores, porque essa lembrança mais atrapalharia do que nos auxiliaria em nossa tarefa. Como é comum reencarnarmos em grupos com quem temos uma história comum, o conhecimento público de nossas faltas seria motivo de vergonha e remorso; em outro sentido, os títulos de nobreza, os cargos de importância, os feitos grandiosos do passado nos eclipsariam a possibilidade de corrigir defeitos, modificar tendências, ter o benefício do anonimato para podermos desenvolver novos trabalhos sem desvios. Nascemos sem a memória do passado, que voltará em sua plenitude quando retornarmos ao nosso estado de Espíritos errantes, mas com a nossa personalidade, inteligência e índole incólumes, instrumentos necessários a nossa identidade enquanto indivíduos e ferramentas necessárias ao nosso progresso. Para nos melhorarmos, outorgou-nos Deus, precisamente, o de que necessitamos e nos basta: a voz da consciência e as tendências instintivas. Priva-nos do que nos seria prejudicial. Ao nascer, traz o homem consigo o que adquiriu, nasce qual se fez; em cada existência, tem um novo ponto de partida. Pouco lhe importa saber o que foi antes: se se vê punido, é que praticou o mal. Suas atuais tendências más indicam o que lhe resta a corrigir em si próprio e é nisso que deve concentrar-se toda a sua atenção, porquanto, daquilo de que se haja corrigido completamente, nenhum traço mais conservará. As boas resoluções que tomou são a voz da consciência, advertindo-o do que é bem e do que é mal e dando-lhe forças para resistir às tentações. Eis a soterologia espírita, que enaltece Deus em sua justiça e amor, que dignifica o homem enquanto ser dotado de livre-arbítrio e responsabilidade, e que nos dá a esperança de sempre continuarmos no caminho do bem, para que possamos, no menor espaço de tempo possível, estarmos face a face com o nosso Pai Celeste.   ,

* publicado originalmente em 18/01/2013 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

Condenados por Deus: Um Problema Teológico (Parte II) *

  por Jefferson   O presente texto é a segunda parte do artigo “Condenados por Deus: Um Problema Teológico”, no qual analisaremos a Soteriologia[[1]] professada pelo Cristianismo, discutindo as suas bases históricas e racionais, abordando as suas implicações morais para, após, verificarmos como o Espiritismo trata o tema. Encerramos a primeira parte com o seguinte resumo da salvação cristã: – Cada um de nós nasce contaminado por transmissão pelo pecado de Adão e Eva; – O pecado nos afastou de Deus e nos condenou à morte; – Deus se reconciliou conosco enviando o seu único filho para ser sacrificado em nosso nome, como os animais eram sacrificados em nome dos ofertantes nos altares do templo de Jerusalém; – O sangue de Jesus limpou os nossos pecados, nos aproximando de Deus novamente; – Serão salvos aqueles quem Deus escolheu antecipadamente para isso, não dependendo da vontade do homem ou de seus méritos, mas da graça de Deus. Em continuidade, analisaremos a veracidade dessas afirmações e quais as suas consequências que elas passam na concepção de Deus. Um Homem, uma Mulher e Uma Cobra que Fala Se o pecado original é a fonte das misérias humanas e da nossa tendência para o mal, como quer a teologia cristã, a história bíblica sobre este pecado deve ser verdadeira, o que inclui a certeza histórica da existência de Adão e Eva e de uma serpente que fala. Se algo faltar nesta história, o erro do casal primitivo não ocorreu, e se não houve pecado, não há de se falar em punição divina e nem mesmo da sua redenção pela cruz. Primeiramente, ao contrário do que se pensa, o livro de Gênesis não foi o primeiro texto bíblico a ser escrito[2], nem tampouco Moisés foi o seu autor. Ele foi a compilação de diversas tradições dos povos de Israel e da Judéia, que servem de introdução a história dos patriarcas, pessoas que serviram a ideologia de um povo formado a partir de um ancestral comum. As narrativas sobre a criação, o surgimento do homem, da mulher, a explicação da necessidade do trabalho, das dores do parto, da morte, etc., são lendas piedosas que os hebreus antigos tinham como explicações sobre os fatos da vida a que cotidianamente eram confrontados. São mitologias daquelas sociedades, metáforas apropriadas ao objetivo de seus autores e de satisfação dos seus ouvintes. Querer dar a essas historietas a chancela de verdades incontestáveis é desfigurar o seu objetivo narrativo e retirar a idéia do contexto onde surgiu e se desenvolveu. Não cabe nem mesmo a afirmação dogmática de ser a “palavra de Deus”, porque o dogma da inerrância bíblica já foi superado, principalmente com os avanços da Ciência, notadamente a partir do século XIV. O primeiro grande golpe desferido contra a “incontestável veracidade bíblica” foi dado por Galileu Galilei (1564 – 1642), que com o seu telescópio artesanal provou a incorreção do sistema cosmológico dos antigos hebreus: a Terra não é o centro do universo e nem do nosso sistema solar. Josué não poderia ter parado o Sol (Js 10, 12-15) para se sagrar vitorioso sobre os exércitos dos reis amorreus, pois é a Terra que gira em torno do Astro Rei e não o contrário, sem contar que “parar o Sol” significaria sair da velocidade de rotação (1.674 km/h na linha do equador) para o estado estacionário do planeta, o que resultaria em um abalo sem precedentes nos continentes, oceanos, montanhas, cidades, etc., transformando tudo em pó. O segundo grande golpe veio com naturalista britânico Charles Darwin (1809 – 1882), com a sua obra “Origem das Espécies“[3] que comprova que os seres vivos são resultado da evolução de espécies anteriores. Além das provas derivadas dos fósseis de animais e hominídeos, a teoria de Darwin é corroborada pelos dados da Genética, que comprovam a ligação entre espécies pelas cadeias de seus DNAs, provando que existe um parentesco cromossômico entre os seres, não havendo um único indivíduo que não tenha surgido de um outro mais elementar. Descobertas após descobertas científicas vão demonstrando que a Bíblia deve ser vista como um livro religioso, e não um livro de história ou de ciência. A religião é uma abordagem humana de Deus, e não o contrário. Calcada em dogmas e rituais, ela não se presta a ser seguida como verdade absoluta, posto que o seu objetivo é o de atrair a humanidade para Deus, fazendo uso da linguagem figurada, das imagens literárias, das metáforas, parábolas, de sacerdotes, lugares sagrados e toda a sorte de recursos didáticos que tornem a Divindade mais inteligível a nós, seres imperfeitos em dificuldade para conhecer, ainda que parcialmente, a Perfeição Absoluta. Não é função da religião disputar o conhecimento com as academias, os laboratórios e universidades, da mesma forma que seria um absurdo a Ciência atacar a fé de cada um de nós. Portanto, partindo do princípio que Deus não erra, visto que é perfeito, a Sua palavra não pode ser desmentida. Se Galileu e Darwin provaram que a Bíblia contém equívocos, não é porque Deus errou, mas porque a Bíblia não pode ser tomada como a Sua palavra, mas palavra humana colocada nos lábios divinos, de acordo com os povos, seus costumes e a época. Darwin trouxe uma situação incômoda na crença da condenação da humanidade resultante do “pecado original” cometido por Adão e Eva: pela teoria da evolução das espécies, o casal adâmico, como original e diferente dos demais seres, nunca existiu. O fato é Darwin nos mostrou que a humanidade é resultado da evolução de espécies anteriores, e não fruto de uma criação única, exclusiva. Portando, o “casal original” não é nada original; se existiu de forma histórica, foi resultado de milhares de casais anteriores a ele. Um fato curioso, mas que é importante nessa história, é o papel da serpente na queda do casal primogênito. Na historieta de Gênesis, existe uma serpente que pensa, fala, seduz e que parece ter pernas, pois não se arrastava sobre o próprio ventre. Falar requer aparelho fonador, pensar requer estrutura cerebral e intricada rede neural e para seduzir se necessita de vontade. Fora do mundo das fábulas e da mitologia, tal cobra nunca existiu. Retirar a linguagem figurada da narrativa bíblica para uma aceitação literal de seu conteúdo é abrir mão da própria inteligência e torcer o texto sagrado dos antigos hebreus. Não se precisa avançar do senso comum para saber que cobra não pensa, não fala e não tem astúcia, características próprias dos seres humanos. E antes que alguém levante a hipótese demoníaca, o texto não permite identificar a serpente com Satanás, pois o que consta no primeiro texto é que “A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito.” (Gn 3,1). O texto é claro, trata-se de um animal e não nos permite criar uma situação onde o Anjo Mau – sem entrar no mérito de sua existência – se apresentou como o réptil da história aqui narrada. Por último, o texto bíblico é claro ao afirmar o motivo da expulsão de Adão e Eva do paraíso: “E o Senhor Deus disse: ‘Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda a sua mão e tome também do fruto da árvore da vida, e o coma, e viva eternamente.’ O Senhor Deus expulsou-o do jardim do Éden, para que ele cultivasse a terra donde tinha sido tirado.” [4] Logo, o motivo apresentado pelo narrador bíblico não é o da desobediência, mas o da rivalidade: a criatura já tinha ciência, se conquistasse a eternidade, rivalizaria com Deus. Por isso da impossibilidade da permanência do casal original no jardim do Éden. De forma intencional, o Cristianismo atribuiu o motivo da expulsão à desobediência. Em resumo, não temos Adão, Eva ou serpente, não temos fruto proibido, expulsão do paraíso e pecado original. O que temos é uma narrativa metafórica incluída na Bíblia, e como tal era vista pelos judeus antigos até que Paulo de Tarso fez uso dela para solucionar um grande problema que as comunidades cristãs viviam: a judaização do Cristianismo. São Paulo e a Teologia da Cruz A idéia do “pecado original” nasce com São Paulo. O Apóstolo dos Gentios cria uma forma inteligente dos incircuncisos participarem das comunidades cristãs sem precisarem aderir ao Judaísmo. A sua saída teológica foi a da salvação pela cruz. Paulo entendia que em Jesus não havia mais judeus e gentios, homens e mulheres, senhores e escravos; todos eram iguais por Nosso Senhor Jesus Cristo[5]. Era uma forte oposição ao grupo representado por Tiago, irmão do Senhor, que entendia que Jesus era o coroamento das promessas feitas por Deus à Abraão. Ora, pensavam os partidários de Tiago, não haveria como a pessoa ser recebida em Cristo sem antes fazer parte da família de Abraão. Isso significava aceitar todas as prescrições mosaicas, inclusive as da circuncisão, respeito ao sábado, ofertas no templo de Jerusalém, abstenção das carnes consideradas impuras, etc. Paulo, e seu companheiro de evangelização, Barnabé de Chipre, entendiam que tais exigências sufocariam qualquer tentativa de converter as pessoas oriundas do politeísmo à causa cristã. Uma coisa era aceitar o rito do batismo, outra bem diferente seria um grego adulto aceitar um corte na pele do pênis, prática mosaica conhecida como circuncisão. O Convertido de Damasco, com sua experiência na comunidade cristã de Antioquia da Síria, concluiu que não haveria justificativa plausível para a tendência judaizante imposta pelo grupo de Jerusalém. Afinal, tanto os gregos como os judeus recebiam os dons do Espírito Santo, não cabendo aos homens distinguir onde Deus abençoou[6]. Imbuído de tal pensamento, Paulo de Tarso construiu a teologia pela qual o pecado entrou no mundo por um só homem, Adão, e por um só homem, Jesus, o mesmo pecado saiu dele[7]. Jesus, ao morrer na cruz, afirmava Paulo, foi o derradeiro sacrifício pelos pecados de todos nós, libertando o homem das amarras da lei de Moisés, lei esta que permitia ao homem viver de forma digna ainda que sob o poder da sua fraqueza. Se Jesus havia nos liberado do pecado, não faria sentido os homens continuarem sob a lei dada aos pecadores. Com isso, a fé de Abraão era a fé dos cristãos em Nosso Senhor, não havendo mais a necessidade de templo, oferendas, circuncisão, etc. Por isso que encontramos no evangelho de João a afirmativa do Batista de que Jesus é o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1, 29). Este evangelho, escrito por volta do ano 100, concebido décadas depois da epístola de Paulo, já traz a doutrina da libertação pela cruz. A teologia paulina também atendia a uma grande indagação dos primeiros cristãos: se Jesus era o Messias Divino, o Filho de Deus, por que ele morreu na cruz como um bandido? Como explicar para os judeus que o seu mashiak, ao invés de libertar o “povo escolhido” do abuso imperialista romano, foi vítima pacífica daqueles estrangeiros tirânicos? Como fazer um grego entender que o Christós havia sido sentenciado ao castigo mais vergonhoso e doloroso que o Império dos Césares poderia reservar a uma pessoa? Que tipo de salvador era aquele que não conseguiu descer da cruz onde o deixaram? A teologia paulina, mais uma vez, responde a esses questionamentos transformando o escândalo da cruz em símbolo de redenção, de vitória. É na salvação dos pecados que Paulo encontra utilidade na morte por crucificação de Jesus. O seu sangue escorreu na cruz pela humanidade como o sangue do cordeiro imaculado era oferecido sobre o altar do templo de Jerusalém, mas em Jesus a redenção é universal e eterna, enquanto a do sacrifício animal é individual e precisa ser renovada a cada ano ou a cada falta. Jesus precisava morrer para que o seu sangue resgatasse a humanidade do pecado de Adão e Eva, permitindo aos crentes a limpeza da alma necessária para viverem na nova ordem das coisas, aguardada para a segunda vinda de Cristo: o Reino de Deus. Quando a Solução se Torna o Problema Entendida em seu contexto, a teologia paulina foi de uma genialidade impar. Não há como pensar o Cristianismo sem Paulo de Tarso. É provável que, sem a teologia de Paulo, o Cristianismo desaparecesse como outras religiões orientais desapareceram no Império Romano. Foi a sua visão inovadora que permitiu não só a recepção dos gentios no seio das comunidades cristãs, como a rápida propagação dos Cristianismo em toda a costa do Mediterrâneo em apenas um século. Se a doutrina judaizante de Tiago tivesse vencido, a igreja seria de poucos adeptos no mundo helênico, e teria sucumbido junto com a cidade de Jerusalém, com a invasão do exército romano sob o comando do general Tito, no ano 70 d.C. Contudo, nos dias de hoje, a teologia paulina não se sustenta, pois o terreno onde foi erigida é todo movediço. Adão, enquanto primeiro homem criado por Deus pronto e acabado, nunca existiu, da mesma forma que não existiu Eva, assim como nunca existiu uma serpente que fala, quanto mais uma serpente detentora de astúcia. Sem Adão e Eva não existe desobediência a Deus, logo não existe pecado e, por decorrência, não existe punição. Somente a imposição dogmática dos teólogos e a aceitação incondicional dos fiéis cristãos tem impedido que a teologia do pecado desapareça. Ainda que Adão e Eva fossem personagens reais, ainda que serpente tivesse pernas, falasse e os tivesse convencido a comer do fruto da árvore do conhecimento, o bom senso não poderia aceitar que Deus, detentor da infinita bondade e justiça, punisse não só o casal original como toda a sua descendência com a maldição da morte e de uma natureza íntima corrupta. Também não se pode admitir que este mesmo Deus, para se reconciliar com a humanidade, precisasse do sangue de um inocente para aplacar a sua ira. Em termos simples, teríamos um Deus irado, que nos culparia pelo pecado dos outros (Adão e Eva) e que nos absolveria pelo sacrifício de um inocente (Jesus). Por essa lógica, seríamos punidos pelo erro de desconhecidos e redimidos pelo sacrifício de terceiro, sem que em nada fizéssemos a diferença, nem para o erro, nem para a remissão, nos roubando por completo o dom maravilhoso do livre arbítrio. No dizer do grande escritor espírita Léon Dennis: “Apresentado em seu aspecto dogmático, o pecado original, que pune toda a posteridade de Adão, isto é, a Humanidade inteira, pela desobediência do primeiro par, para depois salvá-la por meio de uma iniqüidade inda maior – a imolação de um justo – é um ultraje à razão e à moral, consideradas em seus princípios essenciais – a bondade e a justiça. Mais contribuiu para afastar o homem da crença em Deus, que todas as agressões e todas as críticas da Filosofia.”[8] Assim, a condenação surge da cabeça de um homem, Paulo de Tarso, motivada pela preservação do Cristianismo frente ao desafio de sua autonomia em relação ao Judaísmo, mas, nos dias atuais, ameaça ser o motivo da perda de credibilidade do mesmo Cristianismo quando chamado a explicar-se em mundo menos inclinado às fábulas e mais exigente em relação aos fatos. Na terceira e última parte deste artigo, mostraremos como o Espiritismo entende o pecado e a salvação da humanidade. Até lá. [1] Parte da teologia que trata da salvação do homem. [2] Vários estudiosos apontam para o livro de Jó como o livro mais antigo da Bíblia. [3] O título completo pode ser traduzido como “Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação de raças favorecidas na luta pela vida”. [4] Gn 3, 22-23 [5] Gl 3, 28-29. [6] At 10, 44-48; 15, 1-35. [7] Rm 5, 15. [8] Léon Dennis, Cristianismo e Espiritismo, Ed. FEB.

* publicado originalmente em 27/03/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

Condenados por Deus: Um Problema Teológico (Parte I) *

por Jefferson

Toda a teologia[1] cristã é decorrente do pensamento de que o homem tem natureza pecadora, que já nasce com esta mancha. Não se trata de pecado pessoal, porque não foi cometido por nós; o bebê recém saído do conforto uterino, por exemplo, nada fez contra às leis divinas, contudo, segundo a doutrina cristã, a indefesa criança já surge amaldiçoada, resultado da transmissão do pecado de Adão e Eva, exclusivo da espécie humana, que nos condenou à morte e ao afastamento da presença de Deus. O preço do perdão divino? A morte sacrificial de um homem-deus na cruz erguida no Gólgota e o sangue desse inocente para pagar pela absolvição de cada um de nós. Este é o fundamento da fé cristã, independente de ser católica, protestante, ortodoxa grega ou outra qualquer.

 

No presente artigo, tentaremos dissecar a Soteriologia[2]professada pelo Cristianismo, discutir as suas bases históricas e racionais, analisar as suas implicações morais para, após, verificarmos como o Espiritismo trata o tema.

Observamos, antes de adentrar no tema, que a fé professada é escolha de cada um, não podendo haver críticas ou desconsiderações sobre aquilo em que cada um acredita, não sendo justificadas quaisquer ironias, ofensas ou agressividades de qualquer natureza sobre a religião alheia. Todavia, o questionamento é ato livre do ser humano, não havendo assunto ou dogma que não possa ser dissecado pelo bisturi da razão, acolhendo como único limite o respeito e a urbanidade no estudo.

 

O Pecado de Adão e Eva

 

É provável que o leitor conheça a história de Adão e Eva desde a sua infância, portanto, não nos demoraremos nela, que pode ser consultada em qualquer Bíblia no livro de Gênesis (Gn 1-3). O que nos interessa neste estudo é a chamada “queda”. Segundo a mitologia bíblica, Adão e Eva sucumbiram à tentação da serpente e comeram do fruto da árvore do bem e do mal. Deus os expulsou do paraíso antes que provassem da árvore da vida e conquistassem a eternidade, também se tornando deuses. Para que não retornassem ao Éden, dois anjos com espadas flamejantes ficaram responsáveis pela guarda dos portões paradisíacos, impedindo o retorno deles e de qualquer ser humano àquele lugar.

O episódio rendeu várias maldições divinas. Por conta da falta dos nossos antepassados, a serpente foi destinada a se arrastar pelo chão e a comer poeira por todos os dias da sua vida; a mulher recebeu as dores do parto e a subordinação ao marido; o homem ficou condenado a trabalhar no solo para tirar o seu sustento e, como do pó foi tirado, ao pó o homem deveria voltar quando se extinguisse a sua vida. A morte e o afastamento da presença de Deus foram as consequências da gula adâmica.

A Remissão dos Pecados por Cristo

Segundo a narrativa bíblica, passados aproximadamente 3.800 anos da criação de Adão[3], o fariseu Paulo de Tarso, conhecido pelos cristãos como São Paulo, estava com um grande problema na sua tentativa de divulgar a mensagem de Cristo entre os povos pagãos: a resistência dos judeus convertidos ao Cristianismo. Liderados por Tiago, irmão de Jesus, os cristãos-judeus acreditavam no filho de José e Maria como o Messias prometido, que voltaria em toda a sua glória para estabelecer o seu Reino em toda a Terra. Contudo, Paulo e Barnabé, seu companheiro de evangelização, haviam chamado os gentios (não-judeus) também para fazerem parte dessa nova ordem mundial, o que causava profundas divergências com os que consideravam que as promessas de Cristo somente poderiam ser destinadas ao povo de Abraão. Para o grupo de Tiago, antes de ser cristão, os gregos, macedônicos, cretenses, romanos, etc., deveriam, primeiro, se tornar judeus, circuncidando os homens e sujeitando os convertidos às prescrições mosaicas. Depois sim, segundo a igreja de Jerusalém, eles poderiam ser cristãos.

Paulo discordava duramente desse entendimento. Para ele, bastava a fé em Cristo, ponto final. Nada de circuncisão, cuidados alimentares, rituais de purificação, sacrifícios no templo de Jerusalém. A recepção do batismo e a fé no Messias ressuscitado era o bastante para judeus e gentios, afirmava o Convertido de Damasco.

De inteligência impar, com um conteúdo rabínico não encontrado entre os discípulos mais próximos de Jesus, Paulo de Tarso fundamenta o seu discurso em uma teologia que livra os cristãos das exigências judaicas, libertando-os das prescrições mosaicas que sempre os remetiam ao templo de Jerusalém.

Dessa forma, explica Paulo:

“Eis porque, como por meio de um só homem o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte, e assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram. (…) Se pela falta de um só todos morreram, com quanto maior profusão a graça de Deus e o dom gratuito de um só homem, Jesus Cristo, se derramaram sobre todos. (…) Por conseguinte, assim como pela falta de um só resultou a condenação de todos os homens, do mesmo modo, da obra de justiça de um só, resultou para todos os homens justificação que traz a vida. De modo que, como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim, pela obediência de um só, todos se tornarão justos.”

Graças à genialidade de Apóstolo dos Gentios, o Cristianismo estava desvinculado das exigências do Judaísmo, tornando a sua divulgação muito mais fácil entre outros povos, pois o único rito de iniciação era o batismo e a única prática ritual era a ceia em comum, com a divisão do pão e do vinho. Se ficasse vinculado ao Judaísmo, o Cristianismo esbarraria na resistência natural entre culturas, principalmente na questão da circuncisão[4] de homens adultos. É provável que muitos simpatizantes do Cristianismo desistissem de abraçar a nova fé se tivessem que ter os seus pênis tocados por uma lâmina.

Sem o vínculo às prescrições mosaica, o Cristianismo pode se desenvolver por toda a bacia do Mediterrâneo.

Contudo, as palavras de Paulo foram apropriadas por outros pensadores religiosos seguidores de seus passos, que fizeram da morte de Jesus na cruz a única salvação da natureza pecadora da humanidade, desvirtuamento moral este decorrente da falta de Adão e Eva.

 

No magistério católico oficial, publicado no Catecismo da Igreja Católica, temos a seguinte explicação

“Na linha de S. Paulo, a Igreja sempre ensinou que a imensa miséria que oprime os homens e sua inclinação para o mal e para a morte são incompreensíveis, a não ser referindo-se ao pecado de Adão e sem o fato de que este nos transmitiu um pecado por nascença nos afeta a todos e é ‘morte da alma’. Em razão desta certeza de fé, a Igreja ministra o batismo para a remissão dos pecados mesmo às crianças que não cometeram pecado pessoal.

De que maneira o pecado de Adão se tornou o pecado de todos os seus descendentes? O gênero humano inteiro é em Adão ‘sicuti unum corpus unius hominis – como um só corpo de um só homem’. Em virtude desta ‘unidade do gênero humano’, todos os homens estão implicados no pecado de Adão, como estão implicados na justiça de Cristo.”[5]

Para o autor evangélico Myer Pearlman:

“(bPecado Inerente, ou ‘pecado original’. O efeito da queda arraigou-se na natureza humana que Adão, como pai da raça, transmitiu aos seus descendentes a tendência ou inclinação para pecar. (Sl 51: 5.) Esse impedimento espiritual e moral, sob o qual os homens nascem, é conhecido como pecado original. Os atos pecaminosos que se seguem na idade de plena responsabilidade do homem são conhecidos como ‘pecado atual’. Cristo, o segundo Adão, veio ao mundo resgatar-nos de todo o efeito da queda. (Rm. 5: 12-21.)”[6]

Portanto, no ritual católico, por exemplo, vemos nas igrejas em destaque o altar, lugar de imolação, de sacrifício. A missa é o ritual de sacrifício pascal, no qual os fiéis relembram que Jesus foi imolado pelos seus pecados:

” Pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela; assim, quer pela oblação quer pela sagrada comunhão, não indiscriminadamente mas cada um a seu modo, todos tomam parte na acção litúrgica.”[7]

A cada celebração eucarística dominical, Cristo é oferecido como vítima para o aplacamento da ira de Deus e remissão do pecado de todos os participantes da ação litúrgica.

Contudo, não basta acreditar ou querer para obter a salvação. Não são todos que são salvos pelo sacrifício de Jesus, mas somente aqueles que Deus escolheu antecipadamente. O homem não pode salvar a si mesmo e nem mesmo escolher ser salvo, pois a salvação vem da graça de Deus e esta graça Ele dá a quem quer. Os que receberão a graça de Deus já foram escolhidos e predestinados a ela.

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bênçãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor. Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, conforme o beneplácito da sua vontade, para louvor e glória da sua graça, com a qual ele nos agraciou no Amado. (…) Nele, predestinados pelo propósito daquele que tudo opera segundo o conselho da sua vontade, fomos feitos sua herança, a fim de servirmos para o seu louvor e glória, nós, os que antes esperávamos em Cristo.” (Ef 1, 3-6 e 11-12)

“Pela graça fostes salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é o dom de Deus: não vem das obras, para que ninguém se encha de orgulho.” (Ef 2, 8-9)

“E nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio. Porque os que de antemão ele conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, a fim de ser ele o primogênito entre muitos irmãos. E os que predestinou, também os chamou; e os que chamou, também os justificou, e os que justificou, também os glorificou”. (Rm 8, 28-30)

Assim, em termos simples, podemos resumir a questão da salvação cristã da seguinte forma:

– Cada um de nós nasce contaminado por transmissão pelo pecado de Adão e Eva;

– O pecado nos afastou de Deus e nos condenou à morte;

– Deus se reconciliou conosco enviando o seu único filho para ser sacrificado em nosso nome, como os animais eram sacrificados em nome dos ofertantes nos altares do templo de Jerusalém;

– O sangue de Jesus limpou os nossos pecados, nos aproximando de Deus novamente;

– Serão salvos aqueles quem Deus escolheu antecipadamente para isso, não dependendo da vontade do homem ou de seus méritos, mas da graça de Deus.

Expostas as premissas básicas da Soterologia cristã, no próximo artigo, analisaremos as suas bases e as suas consequências, para, ao fim, comparar com a “Soterologia” espírita.

[1] 1 Teologia: ciência ou estudo que se ocupa de Deus, de sua natureza e seus atributos e de suas relações com o homem e com o universo; ciência da religião, das coisas divinas (Dicionário Houaiss)

[2] Parte da teologia que trata da salvação do homem.

[3] Tomando por base o calendário judaico, que coloca a criação de Adão 3.761 anos antes do nascimento de Cristo.

[4] Circuncisão: retirada cirúrgica do prepúcio, pele que recobre a glande do pênis. No Judaísmo, o ato ritual marca a inclusão masculina na comunidade judaica

[5] Catecismo da Igreja Católica – Edições Loyola (em parceria com as editoras Ave Maria, Vozes, Paulinas e Paulus) : São Paulo – 2009 – parágrafos 403 e 404

[6] PEARLMAN, Myer – Conhecendo as Doutrinas da Bíblia – trad. Lawrence Olson – Ed. Vida : São Paulo – 1999, p. 93.

[7] LUMEN GENTIUM – SOBRE A IGREJA – Papa Paulo VI – 21/nov/1964. Fonte: sítio eletrônico do Vaticano (http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html)

 

* publicado originalmente em 23/02/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br