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“De Saulo a Paulo”, de Dora Incontri

Dora Incontri é paulistana, nascida em 1962. Jornalista, educadora e escritora. Suas áreas de atuação são Educação, Filosofia, Espiritualidade, Artes, Espiritismo. Tem mestrado, doutorado e pós-doutorado em Filosofia da Educação pela USP. É sócia-diretora da Editora Comenius e coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita. Docente de pós-graduação pela Universidade Santa Cecília. Dirige em São Paulo, o Espaço Pampédia, um centro de educação e cultura, uma incubadora de ideias. Tem mais de 30 livros publicados sobre Educação, Filosofia, Espiritualidade; livros didáticos; livros psicografados.

Dora está lançando o livro “De Saulo a Paulo”, e fez uma interessante publicação em seu blog sobre o assunto, que reproduzimos a seguir:

Minha relação com Paulo de Tarso (*)

E eis que no meio da estrada repentina luz se faz, mais luminosa que o sol, quase ofuscando o rapaz. Tremendo de comoção, Saulo tomba do camelo. No céu se rasga um caminho e desce alguém para vê-lo. Voz suave, olhar profundo, rosto belíssimo, santo, pergunta esse Alguém a Saulo: — Por que me persegues tanto? Responde Saulo espantado: — Mas quem sois vós, meu Senhor? — Sou Jesus, a quem persegues, com tanta raiva e rancor! Saulo chora, se arrepende, ajoelhado sobre a estrada. Ante Jesus majestoso. seu orgulho vira nada!

E eis que no meio da estrada
repentina luz se faz,
mais luminosa que o sol,
quase ofuscando o rapaz.
Tremendo de comoção,
Saulo tomba do camelo.
No céu se rasga um caminho
e desce alguém para vê-lo.
Voz suave, olhar profundo,
rosto belíssimo, santo,
pergunta esse Alguém a Saulo:
— Por que me persegues tanto?
Responde Saulo espantado:
— Mas quem sois vós, meu Senhor?
— Sou Jesus, a quem persegues,
com tanta raiva e rancor!

Há exatos 40 anos, quando tinha apenas 11 anos de idade, li pela primeira vezPaulo e Estêvão, romance de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier. Ou melhor, minha mãe leu em voz alta para mim, porque descobriu que eu estava lendo escondido no banheiro. Ela achava que o livro era muito pesado para minha idade e não queria que eu lesse. Mas acabou ela mesma fazendo a leitura, não sei se censurando alguma coisa. Morávamos então em Berlim. E no inverno sombrio daquela cidade, na época ainda com o muro, que tanto nos deprimia, fiquei apaixonada pela figura de Paulo, pela história de sua vida.

Depois dessa primeira vez, li mais que 50 vezes esse livro. E isso não é hipérbole. Parei de contar quando cheguei à 50ª leitura. E passei a estudar vorazmente todas as versões da vida do apóstolo. A que está nos Atos, suas Epístolas, li narrativas católicas, protestantes, ateias e a que mais me encantou foi a escrita na primeira metade do século XX, por um judeu, Sholem Ash, intitulada O Apóstolo. Nos últimos 15 anos, com o intenso envolvimento com a Pedagogia Espírita e questões educacionais, não me dediquei mais a esse tema.

Agora estou lançando o livro de Saulo a Paulo, a história recontada inteiramente em versos para crianças e que faz parte da série Grandes Pessoas. Na verdade, muito antes de imaginar lançar essa série, quando ainda nem tinha fundado a Editora Comenius e minha mãe ainda estava encarnada, escrevi esse texto, constituído de 70 estrofes. Talvez uns 18 ou 19 anos atrás.

Por conta desse lançamento, reli de cabo a rabo Paulo e Estêvão e decidi fazer esse balanço público da minha relação com Paulo de Tarso. Essa releitura me fez muito bem, porque me levou às motivações profundas que enraizaram os ideais dessa minha presente vida e aos sentimentos mais viscerais que ainda nutrem a minha personalidade.

Primeiro, devo dizer, que o romance de Emmanuel resistiu ao tempo, em sua estrutura literária, belissimamente escrito, em sua mensagem que revitaliza o espírito e acende ideais. Apesar, é claro, de hoje minha visão a respeito desse livro ser muito diversa de anos atrás. Dediquei-me ao estudo dos primeiros 300 anos de Cristianismo, com autores como Bart Ehrman, Richard Rubenstein ou Paul Johnson, afora todas as novidades de manuscritos descobertos no século XX, que lançaram novas luzes sobre os Evangelhos. Com esse conhecimento, fica claro que o romance de Emmanuel é um romance. Tem uma validade histórica relativa. Por exemplo, sabemos hoje que os conflitos entre Paulo e Tiago não foram tão amistosos como parecem ter sido nos relatos de Emmanuel, com uma reconciliação final tão fraterna e cristã. Mais: Paulo certamente conservou traços de autoritarismo de sua personalidade depois de sua conversão. E não se tornou aquele modelo de humildade que Emmanuel retrata. Outra coisa que me chamou atenção nessa leitura de agora: na narrativa de Emmanuel, a leitura e a cópia de um manuscrito de Levi ocupam lugar central da história. Todos os apóstolos liam, copiavam etc. Hoje se sabe que eram todos analfabetos. Com exceção do próprio Paulo, que era doutor da Lei e talvez de Mateus (ou Levi), que era cobrador de impostos. A escrita e a leitura não ocupavam essa centralidade entre os primeiros cristãos, mas sim o ensino oral, pois a maioria da população não sabia nem ler nem escrever.

Tudo isso apenas para dizer que os romances mediúnicos (os bons romances que hoje nem existem mais) não têm a intenção de nos dar informações históricas, porque cabe a nós, encarnados, pesquisar a História. A intenção dos Espíritos é de nos edificar com uma mensagem estimulante, uma inspiração positiva – como aliás, fez comigo.

Mas voltemos à figura de Paulo. Passado esse arrebatamento juvenil pelo apóstolo, tive que me defrontar com as numerosas críticas que existem em torno de sua doutrina e atuação. Muitos historiadores do cristianismo, entre eles Charles Guignebert (que li por conselho de Herculano Pires) ou Paul Johnson, consideram que Paulo é o verdadeiro fundador da Igreja, tendo lançado a base dos dogmas que ainda empanam a pureza da mensagem de Jesus. Exemplo disso é a ideia do pecado original, que não aparece nas palavras de Cristo, sempre otimista em relação ao ser humano: “vós sois deuses”, “sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito”.

Outra acusação séria e verdadeira, feita a Paulo, é que se encontram em suas epístolas, traços do machismo que promoveu a exclusão da mulher como participante ativa nas práticas cristãs. E ainda há seu conservadorismo político, manifesto por exemplo na Epístola aos Romanos, que pode ter fundamentado a teoria do “direito divino” na Idade Média, ideia segundo a qual temos de respeitar a autoridade constituída, porque ela foi posta por Deus.

É verdade que Paulo, como ex-doutor da Lei judaica, como filho de seu tempo, numa cultura greco-romana e judaica (as três extremamente patriarcais), inserido num contexto pessoal de culpa (tinha matado Estêvão, promovido vasta e sangrenta perseguição aos cristãos), impregnado dos conceitos bíblicos do pecado, não poderia se furtar a carregar tudo isso para sua interpretação da mensagem de Jesus! Não é possível julgarmos um homem de dois mil anos atrás, com nossos conceitos de hoje. Ele compreendeu e traduziu Jesus, como um ex-doutor da Lei daquele contexto histórico e com aquela história pessoal poderia compreender!

Mas o que pode ainda nos inspirar Paulo, sua luta, sua vida?…Muitas coisas. Tanto que ao reler sua história agora, aos 51 anos de idade, consegui sentir em mim as mesmas emoções motivadoras, que me tocaram aos 11 anos de idade.

Embora carregando para a sua tarefa de difusão do cristianismo nascente, as marcas de sua herança cultural, só Paulo podia fazer o que fez: arrancar a mensagem de Jesus do exclusivismo judaico e espalhá-la aos quatro cantos do Império Romano. Não foi à toa que Jesus o chamou para isso. O que me fascina em Paulo, ainda hoje, é seu espírito desbravador e universalista, fiel até o sacrifício e a morte a uma incumbência recebida. É daquelas almas que quando possuídas de um ideal, quando encarregadas de uma missão, não medem esforços, não se detém diante de nenhum obstáculo, percorrem estradas, atravessam mares, se defrontam com inimigos e vão até o fim. Devoção sem limites, ímpeto sem descanso, coragem sem esmorecimento.

Exatamente dessas virtudes precisava o homem que fosse desentranhar a mensagem de Jesus do seu horizonte apenas judaico, para lançá-la ao mundo e semeá-la na história e fazer com que ainda hoje a tivéssemos em mãos. E isso, apesar de suas licenças históricas, o romance de Emmanuel retrata muito bem.

E exatamente dessas virtudes que precisa qualquer pessoa ainda hoje que queira levar adiante uma causa nobre, que queira participar do bom combate pela mensagem do Reino, qualquer pessoa que tenha recebido alguma incumbência existencial que implique em mexer com mentalidades cristalizadas, com corações adormecidos, para acordar consciências!

Mudanças significativas, desbravamento de novas ideias, semeaduras de paradigmas transformadores não se fazem com pessoas mornas, pacatas e sossegadas no seu canto. É preciso garra e paixão, ímpeto e capacidade de sacrifício para empreendimentos assim. Isso não significa santidade e perfeição, como Paulo não era santo, nem perfeito. Apenas a pessoa certa para a tarefa em vista.

A personalidade de Paulo também me atrai pela sua sinceridade absoluta, com seu ódio à hipocrisia, pela sua incapacidade de fazer compromissos com princípios e ideias (o que para muitos pode parecer agressividade e inflexibilidade).

É fácil entender por que Paulo tanto me encantou. Minha tarefa existencial – que não é maior ou melhor do que outras tarefas – também requer essa coragem, esse espírito desbravador e essa sinceridade de princípios.

Às vezes, isso não agrada a muitos. Mas, espero estar cumprindo com a fidelidade paulinamente teimosa a incumbência recebida. A releitura de Paulo me realimentou, passados 40 anos, os mesmos sentimentos apaixonados de agir pela mensagem do Reino, nesse mundo que ainda é um grande Império Romano. E não posso deixar de mencionar que o meu grande inspirador na infância e adolescência, J. Herculano Pires, assinou durante décadas uma coluna no Diário de São Paulo, com o pseudônimo de Irmão Saulo. Coincidência de inspirações?

Para finalizar, uma consideração a respeito das Epístolas de Paulo, que hoje são consideradas pelos pesquisadores das escrituras como efetivamente os documentos mais antigos que temos do cristianismo primitivo (todos os evangelhos foram escritos depois das epístolas): apesar das heranças judaicas, apesar de algumas ressonâncias da cultura da época, esses textos de Paulo contém pérolas espirituais muito valiosas. Por exemplo, apesar da ideia de pecado original, há frases profundamente otimistas em relação ao ser humano, como “somos herdeiros de Deus e co-herdeiros do Cristo”. E apesar de muitas vezes se acusar Paulo de ser um espírito duro e autoritário, ele escreveu umas das mais belas páginas de todos os tempos sobre o amor:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria. O amor é paciente, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. (Cor. I, 13)

 

(*) http://doraincontri.com/2014/08/29/minha-relacao-com-paulo-de-tarso/

Espíritas têm os melhores indicadores de educação e renda, revela Censo (2010) *

 

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

Dados do Censo Demográfico 2010, divulgados nesta sexta-feira (29), mostram que a população que se autodeclara espírita tem os melhores indicadores de educação e renda em relação às demais representações religiosas no país.

Os espíritas têm a maior proporção de pessoas com nível superior (31,5%) e os menores índices de brasileiros sem instrução (1,8%) e com ensino fundamental incompleto (15%). Apenas 1,4% das pessoas que se declararam adeptas desse grupo religioso não são alfabetizadas.

Espíritas no Brasil:

31,5%têm nível superior

15%têm ensino fundamental incompleto

1,8%não têm instrução

1,4%não são alfabetizados

Quanto às classes de rendimento acima de cinco salários mínimos, os espíritas também se destacam com incidência de 19,7% –a pesquisa considera a distribuição das pessoas de dez anos ou mais por rendimento mensal domiciliar per capita. Os católicos, por sua vez, estão concentrados na faixa até um salário mínimo: 55,8%.

Os evangélicos pentecostais são o grupo com a maior proporção de pessoas nessa classe de rendimento de até um salário mínimo (63,7%), seguidos dos sem religião (59,2%).

Os católicos (6,8%), os sem religião (6,7%) e evangélicos pentecostais (6,2%) também se destacam negativamente com as maiores proporções de pessoas de 15 anos ou mais de idade sem instrução. Em relação ao ensino fundamental incompleto são também esses três grupos de religião que apresentam as maiores proporções (39,8%, 39,2% e 42,3%, respectivamente).

Entre a população católica é proporcionalmente elevada a participação dos idosos, entre os quais a proporção de analfabetos é maior. De acordo com o Censo 2010, os católicos e os sem religião formam os grupos que tiveram os maiores percentuais de pessoas de 15 anos ou mais de idade não alfabetizadas (10,6% e 9,4%, respectivamente).

Outros dados

Os dados do Censo Demográfico 2010 mostram também que a população evangélica no Brasil passou de 15,4% da população brasileira para 22,2%, o que dá um crescimento de 6,8 pontos percentuais nos últimos dez anos, e atualmente representa 42,3 milhões de pessoas –sendo esta a segunda religião com o maior número de adeptos no país.

A pesquisa indica ainda aumento da população espírita, que hoje é de 3,8 milhões, e das pessoas que se declararam sem religião (aproximadamente 15 milhões).

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o aumento no número de evangélicos é proporcional ao crescente declínio da religião católica, que perdeu 9,4% de fiéis em relação ao Censo de 1991.

Ainda assim, o catolicismo é predominante no país: são mais de 123 milhões de pessoas (64,6% da população brasileira; até 2000 eram 73,6%). O Brasil é considerado o maior país do mundo em números de católicos nominais.

Até o início da década de 90, os evangélicos representavam apenas 9% do contingente populacional, dos quais a maioria de origem pentecostal. Com a expansão das igrejas evangélicas pelo país e a veiculação de programas religiosos nas emissoras de televisão, tal índice subiu 44,16%.

Espíritas no Brasil

•             31,5% têm nível superior

•             15% têm ensino fundamental incompleto

•             1,8% não tem instrução

•             1,4% não são alfabetizado

 

 

FONTE: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/06/29/espiritas-tem-os-melhores-indicadores-de-educacao-e-de-renda-aponta-pesquisa-do-ibge.htm

 

* publicado originalmente em 29/06/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

O CONSOLADOR E O INSENSÍVEL *

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por Jefferson

O Brasil chora a dor do falecimento de 235 pessoas – em sua maioria, jovens – na tragédia ocorrida na boate Kiss, em Santa Maria – RS, no último domingo (27/01/2013). Mais de 70 estão internados em estado grave. Pais, namorados, amigos, desconhecidos, todos os cidadãos de Santa Maria e do Brasil estão tristes na alma com o ocorrido. Para os mais próximos, o desespero de perder um ente jovem, mal saído da adolescência, para as chamas e a fumaça de um incêndio plenamente evitável é inimaginável.

Qual é o papel do Movimento Espírita diante do sofrimento desses familiares? Do desespero de pais e mães que choram os seus filhos, queenterram as suas esperanças e os seus corações juntamente com os caixões? A resposta é simples: chamar o Espiritismo para o papel dado a ele por Jesus: o de Consolador. Secar lágrimas, ser solidário, oferecer palavras de afeto ou mesmo oferecer ajuda material e técnica, como muitos voluntários da área de saúde do Brasil inteiro estão fazendo.

Contudo, a boa intenção de ajudar, de trazer consolo, quando distraída do amor fraterno e da devida sensibilidade pode ser uma forma de agredir, de machucar, ainda que sem essa intenção.

A Federação Espírita Brasileira (FEB), em seu sítio eletrônico, publicou a seguinte mensagem: “A Federação Espírita Brasileira manifesta solidariedade e vibrações fraternas às famílias envolvidas e a toda comunidade de Santa Maria (RS)”.

 

 

 

Como entidade espírita brasileira, nenhuma outra casa tem a representatividade que a FEB possui. Muito acertado e desejável que em nome do Movimento Espírita nacional, a sua associação mais conhecida mostrasse a sua solidariedade com os envolvidos naquele sinistro. Ótimo se parasse aí.

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A FEB, contudo, querendo esclarecer os possíveis motivos de tantas vidas ceifadas, provavelmente para mostrar que nada ocorre por acaso, que Deus é justo e misericordioso, teve a infelicidade de  publicar, em adendo, a seguinte mensagem psicografada do espírito Emmanuel por intermédio de seu médium, Chico Xavier:

Desencarnações Coletivas (Emmanuel)

Sendo Deus a Bondade Infinita, por que permite a morte aflitiva de tantas pessoas enclausuradas e indefesas, como nos casos dos grandes incêndios?

(Pergunta endereçada a Emmanuel por algumas dezenas de pessoas em reunião pública, na noite de 23-2-1972, em Uberaba, Minas).

RESPOSTA:

Realmente reconhecemos em Deus o Perfeito Amor aliado à Justiça Perfeita. E o Homem, filho de Deus, crescendo em amor, traz consigo a Justiça imanente, convertendo-se, em razão disso, em qualquer situação, no mais severo julgador de si próprio.

Quando retornamos da Terra para o Mundo Espiritual, conscientizados nas responsabilidades próprias, operamos o levantamento dos nossos débitos passados e rogamos os meios precisos a fim de resgatá-los devidamente.

É assim que, muitas vezes, renascemos no Planeta em grupos compromissados para a redenção múltipla.

***

Invasores ilaqueados pela própria ambição, que esmagávamos coletividades na volúpia do saque, tornamos à Terra com encargos diferentes, mas em regime de encontro marcado para a desencarnação conjunta em acidentes públicos.

Exploradores da comunidade, quando lhe exauríamos as forças em proveito pessoal, pedimos a volta ao corpo denso para facearmos unidos o ápice de epidemias arrasadoras.

Promotores de guerras manejadas para assalto e crueldade pela megalomania do ouro e do poder, em nos fortalecendo para a regeneração, pleiteamos o Plano Físico a fim de sofrermos a morte de partilha, aparentemente imerecida, em acontecimentos de  sangue e lágrimas.

Corsários que ateávamos fogo a embarcações e cidade na conquista de presas fáceis, em nos observando no Além com os problemas da culpa, solicitamos o retorno à Terra para a desencarnação coletiva em dolorosos incêndios, inexplicáveis sem a reencarnação.

***

Criamos a culpa e nós mesmos engenhamos os processos destinados a extinguir-lhe as conseqüências. E a Sabedoria Divina se vale dos nossos esforços e tarefas de resgate e reajuste a fim de induzir-nos a estudos e progressos sempre mais amplos no que diga respeito à nossa própria segurança.

É por este motivo que, de todas as calamidades terrestres, o Homem se retira com mais experiência e mais luz no cérebro e no coração, para defender-se e valorizar a vida.

***

Lamentemos sem desespero, quantos se fizerem vítimas de desastres que nos confrangem a alma. A dor de todos eles é a nossa dor. Os problemas com que se defrontaram são igualmente nossos.

Não nos esqueçamos, porém, de que nunca estamos sem a presença de Misericórdia Divina junto às ocorrências da Divina Justiça, que o sofrimento é invariavelmente reduzido ao mínimo para cada um de nós, que tudo se renova para o bem de todos e que Deus nos concede sempre o melhor.

(Transcrito do livro: XAVIER, Francisco C. Autores diversos. Chico Xavier pede licença. S. Bernardo do Campo: Ed. GEEM. Cap. 19).

Não precisa ser perspicaz para imaginar o soco no estômago que uma explicação dessa causa em pais e mães que acabaram de enterrar os seus filhos.

Como esperar que os pais, parentes e amigos se animem ao lerem que as jovens vítimas eram “Invasores ilaqueados pela própria ambição”, que esmagavam coletividades com “volúpia do saque”? Qual o consolo que nós espíritas oferecemos ao dizer as mães em luto que seus filhos provavelmente eram “promotores de guerras” com “megalomania do ouro e do poder”, e por isso morreram de forma tão desastrosa? Esse é o Consolador Prometido por Jesus?

 

Não temos dúvida: o familiar em dor, desespero, sem saber o porquê da perda, ao ler uma mensagem dessas, não ficará mais consolado; ao contrário, se sentirá indignado e ofendido.

Na Palestina do século I, uma pessoa cega, paralítica ou endemoninhada era vista como pecadora. Ninguém tinha pena. Era castigo de Deus e Deus sabe o que faz. Problema delas. Nem no templo de Jerusalém elas poderiam entrar. Estavam afastadas do mundo e de Deus.

Um rabi de Nazaré, tido por muitos como messias de Deus, nunca negou auxílio para nenhuma. Nunca soubemos que acusou qualquer um dos enjeitados da sorte como pecadores. Simplesmente amava e o seu amor puro curava esses sofredores. O nome dele era Jesus de Nazaré.

O Espiritismo só será o consolador prometido por Jesus se os espíritas souberem consolar quem chora, e não apontar o dedo discursando sobre supostas culpas.

No caso da mensagem de Emmanuel, ela integra um livro da série “Na Era do Espírito”[1], onde questões feitas por encarnados são respondidas pelo amigo espiritual do médium mineiro. É um tema de estudo, em um ambiente de estudo e feito para o estudo. Não é mensagem para ser distribuída e amplamente divulgada em um momento tão doloroso, o que quase equivale a entregá-la nos velórios e funerais.

Em tragédias como essa, os votos de fraternidade e solidariedade devem ser os primeiros. As famílias e os amigos desses jovens merecem todo o nosso respeito em seu luto. Não sejamos especuladores do sofrimento alheio. Ainda estamos longe de conhecer todas as causas espirituais de um desastre como esse. Publicar (ou postar nas redes sociais) “Desencarnações Coletivas”, nesta hora, pode causar mais dor do que consolo, além de generalizar a resposta que não temos, pois somos ignorantes das causas das aflições nossas e alheias. O silêncio é a melhor condolência.

 

[1] Os outros livros que compõem a série “Na Era do Espírito” são:  “Na Era do Espírito” (1973), “Astronautas do Além” (1974) e “Diálogo dos Vivos” (1974).

Imagem 1: fonte Fonte: http://www.google.com.br/imgres?start=109&hl=pt&sa=X&tbo=d&biw=1440&bih=776&tbm=isch&tbnid=n3m4rUBqm1j95M:&imgrefurl=http://www.valor.com.br/brasil/2987446/apos-incendio-em-boate-118-pacientes-seguem-internados-no-rs&docid=UgDrcqu33HbPsM&imgurl=http://www.valor.com.br/sites/default/files/imagecache/media_library_560_367/images/santa_maria_galeria_parte20_0_0_1920_1257.jpg&w=560&h=367&ei=2g8IUem8I4T89gTu7oBo&zoom=1&ved=1t:3588,r:17,s:100,i:73&iact=rc&dur=1508&sig=116726518455711075366&page=6&tbnh=178&tbnw=277&ndsp=21&tx=207&ty=99

Imagem 2: fonte: portal da FEB (http://www.febnet.org.br/blog/geral/movimento-espirita/desencarnacoes-coletivas-emmanuel/)

 

* postado originalmente em 29/01/2013 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

Pesquisa sobre psicografia pode ajudar a desvendar mediunidade *

Médico goiano integrou equipe de cientistas que analisou o cérebro de médiuns em processo de transe. Resultados inéditos colaboram para romper paradigmas científicos

Fernando Leite/Jornal Opção
Leonardo Caixeta, doutor em Neurologia: “Nós não podemos negar um fenômeno que existe, que está a olhos vistos, que qualquer cientista honesto tem de reconhecer: nós somos seres espirituais”
Thiago Burigato

Poucas vezes a fronteira entre a fé e a ciência costuma ser testada por pesquisadores. Muitas vezes, o preconceito e o temor de críticas por parte de seus pares impedem cientistas de ir fundo em questões que poderiam levar o conhecimento humano a compreensões que a razão pura e o senso comum não conseguiriam vislumbrar. No entanto, vez ou outra um grupo de estudiosos resolve romper as amarras pré-estabelecidas, pesquisar o que poucos consideraram antes e chegar a conclusões surpreendentes, que prometem romper paradigmas e abrir portas para novas possibilidades.Leonardo Caixeta, doutor em Neurologia pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), é um dos que se se dispõem a averiguar o que outros não se atreveriam. Juntamente com outros três cientistas brasileiros e um estadunidense, ele iniciou em 2008 um estudo que buscava aferir o que acontece na cabeça de um médium no momento do suposto contato com o sobrenatural. Pu­blicada em novembro deste ano, a pesquisa recebeu o reconhecimento da comunidade científica internacional e tem suscitado debates sobre os novos rumos dos estudos científicos — cada vez mais receptivos ao espiritual, mas ainda entremeados de preconceitos.Caixeta relata que a ideia da pesquisa veio exatamente por conta de os membros do grupo se sentirem incomodados com o predomínio do paradigma materialista, o que, segundo ele, limita a ciência, impossibilitando que novos ramos sejam explorados e novas descobertas sejam feitas. “É importante que a ciência se dedique mais a isso (a explorar novas áreas), porque ela não pode ser parcial. A ciência não pode estudar só um campo e deixar outro de lado, porque ela não tem preconceito”, afirma. “A ciência talvez seja a coisa mais democrática que o ser humano tenha criado até hoje, porque ela não tem dogmas. Ciência é o método científico. Se você conseguir comprovar o que está falando usando métodos, eu sou todo ouvidos para lhe escutar.” Há quatro anos, Caixeta e professores da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal de Juiz de Fora — Julio Peres, Alexander Moreira-Almeida e Frederico Leão — decidiram estudar os limites entre as experiências materiais e as experiências extracorpóreas usando metodologias científicas. Para este fim, o grupo entrou em contato com Andrew Newberg, renomado neurocientista estadunidense que já participou de estudos referentes a possessões demoníacas e realizou estudos sobre o processo de transe de monges budistas. Em seu laboratório, no Hospital da Univer­sidade da Pensilvânia, na Fila­délfia, os cientistas puderam analisar os cérebros de dez médiuns brasileiros durante o processo de psicografia. Os objetos de estudo não tiveram seus nomes revelados. Eles eram todos registrados na Federação Espírita Brasileira (FEB), que apoiou os cientistas no trabalho que estavam desenvolvendo. Os médiuns, seis mulheres e quatro homens, se voluntariaram para participarem da pesquisa, mas só foram selecionados após um longo processo de triagem. Estavam entre os pré-requisitos em que deveriam se encaixar: não sofrerem problemas de saúde, serem destros, não portarem nenhum transtorno mental (como esquizofrenia, depressão, autismo ou bipolaridade, por exemplo) e não fazerem uso de nenhum medicamento psiquiátrico. Era essencial para os cientistas que metade dos médiuns tivesse várias décadas de experiência com psicografia, enquanto a outra metade tivesse apenas alguns anos de prática de contato com o mundo espiritual. O procedimento a que foram submetidos é conhecido como Spect, ou Single Photon Emission Computed Tomogra­phy, na sigla em inglês (ou “Tomografia Computadorizada de Emissão de Fóton Único”, em português). Ele consiste na aplicação de substâncias radioativas na corrente sanguínea, que permitiriam o mapeamento da atividade cerebral dos mé­diuns por meio do fluxo sanguíneo.
A hipótese dos cientistas, ou seja, o resultado que eles esperavam encontrar com o estudo, era o que qualquer cético poderia intuir sobre o processo psicográfico: que as áreas do cérebro ligadas à criatividade e ao planejamento — as que são comumente usadas durante o processo de desenvolvimento e escrita de um texto — seriam as mais trabalhadas. Essas re­giões, então, receberiam maior fluxo sanguíneo, o que seria evidenciado pelo exame.Os resultados, porém, foram surpreendentes: os cérebros dos médiuns estudados, especialmente daqueles mais experientes, apresentaram pouca atividade enquanto elaboravam os textos supostamente influenciados por espíritos. O lóbulo frontal, a parte do cérebro responsável pelo planejamento e pela criatividade, teve atividade muito inferior ao que era esperado para ocorrer em um processo complexo que envolve a concentração, a organização de ideias, a escolha de palavras, a elaboração de um discurso lógico etc.De forma contrastante, quando submetidos ao mesmo procedimento fora do transe mediúnico, incitados a escreverem uma redação de autoria própria, os médiuns apresentaram atividade intensa no lóbulo frontal, ainda que os textos desenvolvidos tenham complexidade muito inferior aos produzidos durante o processo psicográfico. A hipótese, sugerida pelos próprios objetos de estudo e endossada por Caixeta, é a de que durante o contato com os espíritos, o cérebro dos médiuns funcionaria como que em uma espécie de piloto automático, anulando a individualidade e permitindo que seus corpos funcionassem como uma ferramenta suscetível à influência dos espíritos para a realização de uma determinada atividade. Nesse processo, o metabolismo dos médiuns estaria desacelerado e suas próprias personalidades e raciocínio não estariam expostos, o contrário do que ocorre durante a execução de uma tarefa consciente e planejada. A maior atividade percebida no cérebro dos cinco médiuns menos experientes durante a psicografia, quando comparados àqueles que já possuíam vários anos de prática, pode sugerir que quanto mais experiência a pessoa tiver com a mediunidade, mais aberta ela se torna a receber manifestações espirituais e mais ela se entrega à atividade mediúnica, permitindo a uma suposta entidade atuar sobre ele de forma mais fluida. Quanto menor a experiência do médium, menos propenso ele seria para a recepção de influência espiritual e mais de sua personalidade estaria presente no processo psicográfico.
.O Oresultado obtido com o experimento deixou perplexos os cientistas envolvidos, mas não os médiuns submetidos aos testes. Familia­rizados com o que a literatura espírita diz sobre o assunto, eles já supunham qual seria a conclusão do estudo.Apesar de inédita e perfeitamente consistente com os rigores científicos, os estudiosos temiam que a pesquisa não pudesse ser publicada devido a sua natureza voltada para o que é considerado sobrenatural. O motivo da apreensão era relacionado à recepção de pessoas ligadas à comunidade acadêmica, ainda muito preconceituosa com determinados temas. Muitos cientistas que às vezes tem vinculação religiosa — não é porque é cientista que tem de ser ateu — sempre tiveram alguma hesitação de começar a entrar nesse campo por parte da receptividade da comunidade acadêmica. “Nós no início hesitamos de entrar nesse caminho. Tínhamos preocupações como ‘será que vamos conseguir verba para fazer essa pesquisa? Será que vamos conseguir publicar esses dados?’ ”, conta Caixeta. A publicação de um estudo em uma revista científica é a validação de que ela foi aceita e reconhecida por seus pares. “Se a pesquisa é publicada no Brasil, ela é reconhecida pela comunidade científica nacional. Se é publicada fora, é reconhecida pela comunidade internacional”, explica. Sem a publicação, todo o esforço e investimento empreendidos para a realização de um estudo seriam em vão. Os temores da equipe de cientistas, contudo, se mostraram injustificados depois que a quarta mais importante revista científica do mundo, a “PLoS One”, reconheceu a qualidade do trabalho realizado e efetuou sua publicação em novembro deste ano sob o título “Neuroimagem durante o estado de transe: uma contribuição ao estudo da dissociação”. Caixeta afirma que, nos cinco primeiros dias após a publicação, o estudo foi acessado cerca de 5 mil vezes, o que comprovou o reconhecimento da comunidade internacional. O cientista avalia também que os dados revelam maior interesse e maior receptividade a esse tipo de achado, fato que surpreendeu os autores do projeto. As críticas, parte do processo acadêmico, ainda não começaram a chegar, dado o curto tempo decorrido desde a publicação da pesquisa. Caixeta, porém, tem a expectativa de que elas se limitem a pontos referentes à forma como o experimento foi conduzido, como, por exemplo, a utilização de uma amostragem muito pequena, ou talvez algum questionamento sobre o processo de aferência dos dados. “Em ciência você não pode chegar e falar ‘eu não acredito!’. É diferente da religião, onde você pode chegar para um padre e dizer: ‘eu não acredito no que você está falando’. Em ciência você segue um método, todas as informações são relatadas. Então, se houver alguma crítica, ela vai ser voltada para questões metodológicas”, diz. A continuidade do estudo está nos planos de Caixeta e de outros cientistas goianos. Em parceria, eles pretendem ampliar a quantidade de objetos de estudo e replicar os procedimentos para verificar se os resultados se repetem. Outras situações mediúnicas também devem ser alvo de análise. Enquanto alguns dizem ter somente a capacidade de reproduzir textualmente as mensagens dos espíritos, outros teriam a habilidade de transmiti-las por meio da própria voz ou da pintura, por exemplo, e esses casos seriam levados em consideração em outras pesquisas. Caso os próximos procedimentos apenas confirmem os dados relatados, esse experimento pode ajudar a escancarar as portas para um viés da ciência voltado para o estudo daquilo que tem uma base extramaterial, que possivelmente jamais seria alvo de estudo dentro da ciência materialista. Como frisa Caixeta, o objetivo da pesquisa da qual ele fez parte nunca foi provar a existência (ou a não existência) de Deus, mas sim estudar um fenômeno abundante em culturas de todo o mundo e que tem relevância especialmente em terras brasileiras. Mas, como parte de uma vertente da ciência voltada para o religioso e para o espiritual, o estudo pode ajudar a romper com paradigmas e a estabelecer definitivamente uma tendência voltada para a pesquisa do sobrenatural e do imaterial.
Caixeta defende que a ciência não se baseie em preconceitos e que os cientistas, em especial os da área médica, não fechem os olhos para novas possibilidades. “Segundo a Organização Mundial da Saúde, nós somos seres físico-psíquico-sócio-espirituais. Então nós temos uma vertente física, um viés psicológico, um lado social e uma dimensão espiritual. Portanto, nós não podemos deixar de contemplar isso”, diz. “Isso é especialmente caro para as ciências médicas porque em Medicina nós nos deparamos com situações em que o médico precisa ter um conhecimento maior nessa área para não se deixar enganar por determinados diagnósticos e também para tratar melhor seu paciente dentro do seu âmbito cultural.”Segundo Caixeta, apesar do preconceito ainda entranhado no meio, a ciência hoje segue a tendência de dar cada vez mais relevância ao lado espiritual do ser humano. Essa tendência, diz, é irreversível. “Nós não podemos negar um fenômeno que existe, que está a olhos vistos, que qualquer cientista honesto tem de reconhecer: que nós somos seres espirituais. Isso significa que nós temos aberturas a manifestações, fenômenos e entendimentos que estão além do nosso corpo”, afirma. “Passamos por um momento em que se torna necessário aproximar o método científico dos fenômenos religiosos e espirituais, de toda essa antropologia da religião e da conexão do homem com Deus.” .

FONTE: Jornal Opção Edição 1952 de 2 a 8 de dezembro de 2012 Fé e Ciência http://www.jornalopcao.com.br/posts/reportagens/pesquisa-sobre-psicografia-pode-ajudar-a-desvendar-mediunidade

Agradecimentos ao colega Adolfo Simon, que nos enviou a reportagem do Jornal Opção em DEZ/12, e aproveitamos para pedir desculpas pela demora em publicá-la.
* publicado originalmente em 22/02/2013 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/

Mitos não são mentiras mas…  serão verdade? *

Por Douglas.

Fonte: http://www.jetdicas.com/img/fotos/caixa%20de%20pandora%204.jpg

  Antes de tudo quero começar falando a vocês, caros leitor e leitora, um pouco a respeito da linha do horizonte. A linha do horizonte é aquela onde se encontram, para o seu olhar, o céu e a terra quando você olha muito distante. Ou o céu e o mar quando você está na beira da praia ou navegando. Mas o que isso tem a haver com o nosso assunto? É que essa bela imagem, a do horizonte, é utilizada por um grupo de cientistas sociais de várias disciplinas para definir uma coisa chamada por eles de Horizontes Culturais. E essa definição é muito importante no contexto de nosso pequeno artigo para esse blog. Um Horizonte Cultural ou Civilizacional é o conjunto de valores, significados, conceitos, idéias e sonhos experienciados por uma civilização em todos os aspectos socio-culturais possíveis de se identificar nela, junto com seu desenvolvimento tecnológico, econômico e político. É, evocando-se a imagem, até onde as pessoas que vivem em uma civilização conseguem enxergar dentro do mundo em que vivem, respondendo assim às necessidades de tempo e lugar de suas experiências. O filósofo Ken Wilber, um dos maiores pensadores do século XX, utiliza uma outra palavra para se referir aos Horizontes Culturais. Ele utiliza o termo cosmovisão, que é a palavra que passaremos a usar à partir daqui. Sintetizando os estudos de diversos pesquisadores em seu livro Uma Breve História do Universo – de Buda a Freud, ele descreve cinco cosmovisões básicas e claramente distintas na história humana, a saber:

  •  a arcaica, de desenvolvimento tecnológico/econômico forrageiro e organização social tribal;
  •  a mágica, de desenvolvimento tecnológico/econômico horticultor e organização social tribal e de aldeias;
  •    a mítica, de desenvolvimento tecnológico/econômico agrário e organização social em Estados primitivos;
  •  a racional, de desenvolvimento tecnológico/econômico industrial e organização social em nações-Estados;
  •   e a existencial, de desenvolvimento tecnológico/econômicoinformacional e organização social planetária.

É importante que eu lhes diga nesse momento que à medida que uma sucede a outra, com seus períodos de transição, a cosmovisão seguinte transcende a anterior, NUNCA anulando o que vem antes, mas transcendendo a primeira, indo além  ressignificando e incorporando os elementos da que lhe antecede. E o que isso tem a haver com nossas considerações sobre mitos, mitologia e o seu valor presente em nossas sociedades? É que ao assimilar os elementos constitutivos dos Horizontes Culturais precedentes, nossa cosmovisão existencial tem de lidar com o conteúdo que veio antes e, repito, dar novos significados e valores a esse conteúdo. Isso é muito importante! E assim o é porque não somos seres isolados de nosso passado ancestral. Assim como carregamos as marcas de nossos estágios evolutivos passados na esfera física, com sua perspectiva mineral, vegetal e animal, carregamos igualmente as forças psíquicas e espirituais que nos precedem, para que possamos evoluir, transcendendo. Sendo assim, conhecer estas perspectivas em seus aspectos básicos e gerais nos ajudará a discernir e compreender a razão de os mitos e das mitologias serem tão importantes até hoje, sobretudo quando tratamos do tema religião, quando não raro o que se trabalha em nossos corações e mentes nesse assunto é feito de conteúdos e invólucros mentais que assimilamos, quase sempre de modo inconsciente, de acordo como doutor Carl Jung como verdades inquestionáveis, no pior e mais negativo sentido que é dado ao termo dogma. Vamos então dar uma rápida olhada no que é que o filósofo Ken Wilber nos traz sobre o horizonte mítico-agrário. Em resumo apertado, podemos verificar que nessa cosmovisão surgida entre 4.000 a 2.000 anos A.E.C., substitui-se a enxada pelo arado, muito pesado e difícil de manusear, provocando um esforço que, uma vez executado, permitia uma produção de alimentos muito maior do que a fase anterior, a mágico-horticultora.

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Mas nisso tem-se um preço duro a se pagar: a mulher deixa de ser um membro produtivo da comunidade, se tornando o membro exclusivamente reprodutivo. Isso se dá porque uma mulher grávida pode cavucar a terra com uma vara ou uma enxada para semear, mas se ela manuseia o arado, os índices de aborto começam a subir assustadoramente, o que rapidamente foi percebido por ambos os sexos. Sendo assim, os homens param de ser caçadores e coletores em tempo integral e as mulheres tem de se recolher ao lar e à criação dos filhos. Tal fato é deveras significativo em vários aspectos. Primeiro, é aí que surge a estrutura do patriarcado, em substituição à divinização do feminino. Os homens aram a terra e fazem as guerras, logo, começam a dar as ordens na organização socio-política. Prova disso é que as deusas adoradas por todos desde então passam a ser substituídas por deuses como o elemento provedor espiritual do agregamento comunal. Conforme Wilber, em todo o planeta Terra mais de 90% das sociedades agrárias nesse momento adora deuses masculinos no lugar de suas contrapartes femininas. O mitólogo Joseph Campbell, no volume 2 de sua obra As Máscaras de Deus descreve que, então, as deusas adoradas passaram a ser vistas como as consortes, as esposas dos deuses masculinos, submissas e sujeitas a esses tal qual as mulheres estavam sujeitas nesse Horizonte Civilizacional aos homens, provedores e defensores de todos da comunidade. Porém há mais a ser dito. Com a abundância produtiva de alimentos crescendo, muitos homens – sempre homens – começaram a se especializar em outras atividades, tais como o comércio, a guerra, a contemplação, etc, permitindo com isso o surgimento de uma sofisticação não encontrada no período anterior. De fato, a moeda de troca, o comércio, a metalurgia, as guerras, as matemáticas e o culto religioso elaborado surgem nesse momento na história humana, com toda a gama de complexidade que a interação desses elementos acarreta. Um exemplo disso é a percepção de que ao invés de uma Grande Deusa ou Grande Mãe a tudo reger na biosfera terrestre, haveriam forças outras distintas, sobretudo masculinas, a ocupar um espaço sagrado próprio e a serem levadas em consideração pelos humanos. Começam assim a nascer os deuses diversos, que interagem entre si e com os seres humanos, imiscuindo-se em seus assuntos e influenciando-os para a melhor ou para a pior – e geralmente o encontro com uma divindade era para a pior para a parte mais fraca, nós – tão bem organizados em uma hierarquia celeste – do grego hyeros e arché: poder sagrado – quanto o eram os Estados primitivos. O aspecto da contemplação é particularmente importante para nossos estudos. O Homem passa a ser nesse período, de modo mais profundo e abrangente que no estágio evolutivo anterior, um contemplativo, um teorético. Começa a fazer teoria, palavra que vem do grego theyon oraos, isto é, vejo, contemplo o divino, conforme explicação da doutora Karen Armstrong em sua obra Uma História de Deus. Ora, o Homem desse período era um observador atento daquilo que acontecia ao seu redor e dentro de si, uma vez que, geralmente analfabeto, tinha de prestar atenção ao que acontecia dentro e fora de si como uma questão de sobrevivência, fato que o Homem contemporâneo tem dificuldade para vivenciar em uma sociedade de consumo fácil e de espetáculos onde matar o tempo em lazer é o que significa bem-estar para muitos. Mas o ser humano do Horizonte Agrário-mítico não podia se permitir ser assim. E quando ele se torna um teorético, um contemplativo, ele enxerga que dada a multiplicidade de forças ao seu redor e dentro de si, forças essas que não raro poderiam com muita facilidade lhe tirar a paz, o sossego, a saúde e mesmo a vida, ele precisa posicioná-las em seu devido lugar em relação a si. E esse lugar é acima de si mesmo, como força, como poder, como um deus com quem ele teria de interagir do mesmo jeito que o fazia com os outros homens: dialogando com eles, para tentar um entendimento; negociando com eles, para tentar um concerto de vontades; se submetendo em absoluto a eles, para aplacar a sua ira ou, em casos raros e extremados, guerreando contra eles com a ajuda de um ou mais deuses superiores, para que o status quo ante de harmonia pudesse ser restabelecido. E mais: o ser humano, por ser humano, precisa dar sentido às coisas que ele vivencia e ao que ele é para ser pleno, para estar satisfeito com a vida e seguir em frente. Sua natureza é dinâmica uma vez que ele interage com a natureza ao seu redor, com sua natureza íntima e entre si. Ao enxergar a multiplicidade de deuses, sua harmoniosa concatenação no arranjo de tudo o que existe – chamado por exemplo pelos gregos de kósmos, ordem – e as possibilidades que advém desse conhecimento em sua vantagem, o Homem passou também a se dedicar a explicar, com sua acurada observação das coisas e sua contemplação, a origem do mundo, dos deuses, do Homem e de todo o cosmo. Com isso nascem o mito e a mitologia. Efetivamente, a palavra mythos em grego significa: conto, estória, narrativa. Mas não estamos falando aqui de uma narrativa qualquer. Os contos dos irmãos Grimm também são contos, mas não são mitos. Ninguém fala do mito da gata borralheira, do mito da chapeuzinho vermelho, etc. Sendo assim, o que distingue os mitos de estórias populares? É que o mito é uma narrativa sagrada e explicativa da origem de algo: o cosmo, os deuses, o Homem, uma planta, uma estrela ou constelação e por aí vai. Essa narrativa sagrada geralmente – mas não exclusivamente – estará acompanhada de um ou mais significados simbólicos, perceptíveis ou não pelo ouvinte do mito. Para melhor nos fazermos entender, passo a citar o mitólogo e estudioso de religiões comparadas Mircea Eliade em sua obra Mito e Realidade: “A definição que a mim, pessoalmente, me parece a menos imperfeita, por ser a mais ampla, é a seguinte: o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. O mito fala apenas do que realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente. Os personagens dos mitos são os Entes Sobrenaturais. Eles são conhecidos sobretudo pelo que fizeram no tempo prestigioso dos “primórdios”. Os mitos revelam, portanto, sua atividade criadora e desvendam a sacralidade (ou simplesmente a “sobrenaturalidade”) de suas obras. Em suma, os mitos descrevem as diversas, e algumas vezes dramáticas, irrupções do sagrado (ou do “sobrenatural”) no Mundo. É essa irrupção do sagrado que realmente fundamenta o Mundo e o converte no que é hoje. E mais: é em razão dos Entes Sobrenaturais que o homem é o que é hoje, um ser mortal, sexuado e cultural”. Simplificando então: o mito é uma narrativa de origem de algo que se dá em razão de uma manifestação do sagrado ou do sobrenatural na ordem das coisas, explicando assim sua origem e dando sentido para a existência desse algo. Aqui cabe algo importante a se dizer: os mitos não têm a intenção ou mesmo pretensão de ser um estudo objetivo, científico do universo e do Homem. Efetivamente, para o ser humano artesão de mitos, o universo não é uma coisa a ser estudada, medida, dissecada, decomposta, recomposta e reproduzida. O universo para o artesão de mitos não é um objeto, mas sim uma realidade vívida na qual se está inserido. E mais importante ainda: o universo é uma realidade na qual o Homem deve encontrar o seu lugar para que nunca ele se perca nos exageros para mais ou para menos, no descomedimento definido pelo termo grego hybris. Essa é a posição dos filósofos e mitólogos Jean-Pierre Vernant e Luc Ferry, nas obras A Sabedoria dos Mitos Gregos e O Universo, Os Deuses, Os Homens. Se o ser humano escutar os mitos e daí prestar atenção ao mundo dentro de si e ao seu redor, ele vai ver que, à parte a dor causada por calamidades naturais, os problemas humanos praticamente todos são os problemas de hybris/descomedimento, de descontrole, quando tenta ser menos do que é – um animal – ou mais do que é – um deus. Sendo assim, escutar os mitos era se conectar com uma sabedoria prática de vida que mostrava ao Homem seu lugar no mundo, lhe expunha a origem das coisas e dava sentido à sua existência, tudo à partir dos mitos. Os grandes momentos da vida: nascimento, crescimento, casamento, reprodução, trabalho, lutas, doenças e morte, enfim, tudo estava concatenado em uma rede de significados e valores. Agora você pode se perguntar: se os mitos são tão importantes assim, por que é que não os utilizamos mais? A abordagem da Filosofia e das Ciências não fazem o mesmo que os mitos, mas desta vez dizendo tudo às claras, sem linguagem simbólica, sem significados ocultos, sem apelos imaginativos e imagéticos? Não é tudo mais fácil agora? Precisamos ainda dos mitos na era existencial-informacional-planetária? Bem, vamos por partes. Lembra que eu lhe disse no início desse artigo que uma cosmovisão transcende a outra e que transcender não é eliminar o anterior porém, ao contrário, incorporá-la e ir além? Pois é. A cosmovisão ou Horizonte Civilizacional existencial-informacional-planetário não existe ignorando as conquistas humanas, sejam elas materiais ou espirituais do passado mas, muito pelo contrário, se valendo dela em outros contextos, dando-lhes outros significados e, acima de tudo, evidenciando seu real valor. Isto ocorre inclusive no que diz respeito à mitologia. Agora outra coisa: quem foi que disse que não usamos mais os mitos? Certamente nunca fui eu! Não só continuamos a usar os mitos antigos como inclusive criamos mitos novos! No que diz respeito a esses últimos, posso lhe indicar de preferência a leitura do volume 4 da série já citada, As Máscaras de Deus, do mitólogo Joseph Campbell. Trata-se de um estudo pormenorizado de como a mitologia ainda é importantíssima nos dias de hoje justamente porque continua a ser produzida pelo Homem, em circunstâncias bem variadas por sinal. Vamos a alguns exemplos: Adolph Hitler, o líder da Alemanha Nazista, resgatou do passado germânico de seu povo o mito dos Hiperbóreos, uma civilização que teria vivido há muito tempo no planeta na área que hoje é o círculo polar Ártico e que seria, no seu entendimento, os reais antepassados dos povos germânicos. O mito diz que eram a raça branca alegadamente pura e superior, inclusive possuindo poderes sobrenaturais em razão de sua pretensa pureza. Hitler e o staff místico da liderança nazista entendiam que, se conseguissem restaurar a pureza racial, cultural e política dos povos germânicos, que os Hiperbóreos retornariam na figura de seu povo e, recuperando seus poderes, seriam invencíveis. É assim que descrevem essa faceta mística de Hitler os pesquisadores J. H. Brennan em Reich Oculto e Paul Roland em Os Nazistas e o Ocultismo.

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Outro exemplo é a mitologia socialista criada em torno das premissas do filósofo e cientista político alemão Karl Marx. Em resumo apertado, pode-se dizer que a base de seu pensamento é: não há Deus, não há deuses, não há mundo espiritual, numênico, mas apenas o mundo material, fenomênico. A história é a interação dialética de duas forças muito materiais: a classe social dos que mandam e detém o poder e a classe social dos que obedecem e são explorados. Uma vez arregimentada a classe dos explorados para tomar o poder e derrubar os exploradores, pode-se criar uma nova era de paz, segurança e prosperidade em torno do ideal do igualitarismo. E isso estaria prestes a acontecer pois a estrutura econômico-financeira hoje em vigor com sua super estrutura sócio-política, a do Capitalismo e do Liberalismo político estaria tão debilitada que é uma questão de tempo até que ela chegue à ruína e tudo possa mudar. Voltando ao ponto anterior a esses dois exemplos, resta a pergunta: será que ainda continuamos a usar mitos antigos atualmente? A resposta não pode ser menos objetiva: sim! E de modo poderosíssimo. O maior exemplo disso se encontra no contexto das grandes religiões que continuam vivas em nosso planeta, tais como o Cristianismo, o Islamismo, o Judaísmo, as diversas vertentes do Hinduísmo, o Budismo e por aí vai. Em todas elas e em muitas outras o mito é parte constituinte e estrutural da religião, sendo mesmo sua essência. E é aqui que nossa verve espírita começa a se apresentar de modo mais explícito. Tomemos por estudo os dois casos que mais se aproximam culturalmente da Doutrina Espírita, por lhe antecederem e fornecerem subsídios de significados e valores, a saber, o Judaísmo e o Cristianismo. As Escrituras Sagradas Hebraico-Aramaicas, do Judaísmo e as Escrituras Gregas Cristãs, do cristianismo, enfeixadas no exemplar de nossas Bíblias Sagradas como antigo e Novo Testamento são um conjunto de escritos de autores e épocas diferentes que reúnem uma vasta gama de tipos de literatura: poemas, hinos religiosos, meditações filosóficas, textos de história sagrada, profecias e… mitos! Mitos, alguém pode questionar? Sim, mitos! Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Certamente tal visão não é corroborada pela quase totalidade dos cristãos católicos e protestantes uma vez que, conforme nos explica Mircea Eliade no já citado Mito e Realidade, tanto judeus quanto cristãos já bem no início do estabelecimento de seu cânon de textos sagrados, consideravam seus escritos sacros como história simples, literal e direta e os textos sagrados dos outros povos como sendo mitológicos. E aqui, já divulgavam o termo mitológico como sinônimo de estórias inventadas pela imaginação, tal qual o termo é conhecido hoje, em contraposição aos alegados fatos inquestionáveis de suas Bíblias Sagradas. Todavia, a análise de seu material sacro indica muito claramente hoje que, do ponto de vista da historiografia, da Antropologia Arqueológica, da Sociologia aplicada ao passado dos povos do Levante e da região mediterrânea, dos estudos de Mitologias Comparadas, de Religiões Comparadas e de Simbologia, estamos sim lidando não com fatos históricos porém sim com mitos, belos e poderosos mitos, usados por essas duas grandes religiões, a judaica e a cristã com o mesmo sentido dos povos antigos: dar sentido à vida, mostrar ao Homem o seu lugar no universo, explicar a origem de tudo e para onde se dirige a humanidade. São, na imagem de Jesus de Nazaré em  Mateus 9:14-17Marcos 2:18-22 e Lucas 5:33-39, vinho novo em um odre velho e, se não forem respeitados e considerados como os bons mitos que são, romperão os odres dogmáticos nos quais foram colocados. Mas considerar um mito como um fato histórico não é o maior, digamos, descomedimento ou hybris literário por parte dessas religiões. O problema maior se situa no fato de doutrinas, conceitos e valores serem ensinados para os seres humanos como verdades imutáveis em razão da leitura equivocada dos textos sacros mitológicos como história, criando-se assim uma situação de desconforto entre muitos dos fiéis em diversos aspectos de sua vida pois, não querendo abandonar o aconchego espiritual de seus grupos religiosos, ao mesmo tempo não podem aceitar a literalidade das Escrituras Sagradas frente ao avanço das pesquisas científicas e filosóficas que dissecam as religiões e os fatos aos quais elas se referem, dando uma visão muito mais precisa e exata das coisas. E o problema fica maior quando muitos desses fiéis não encontram um pouso seguro e sadio para seus espíritos e resvalam para as tristes conseqüências de uma vida atéia, materialista e, o pior de tudo, hedonista. Tudo em parte porque os mitos não são respeitados e estudados como tais, perdendo assim sua poderosa carga simbólica e seu dinamismo imaginativo em nossas consciências, dando-nos também a força para seguirmos em nosso crescimento como seres humanos.   Diante disso tudo, a Doutrina dos Espíritos mais do que nunca nos apresenta, já desde o século XIX, quando o materialismo e o ateísmo começavam a assumir dimensões preocupantes, uma visão diferente, ampla e transcendental das sagradas escrituras míticas judaico-cristãs. Por exemplo, referindo-se ao mito judaico da criação à luz das ciências de sua época e da Doutrina dos Espíritos, o mestre Allan Kardec comenta, no item 59 de O Livro dos Espíritos (tradução de Evandro Noleto Bezerra) que: “Dever-se-á por isso concluir que a Bíblia é um erro? Não; mas que os homens se equivocaram ao interpretá-la”. Novamente, na questão de número 480 do mesmo livro, perguntados os Espíritos de Luz sobre uma passagem do Evangelho, irão muito além da pergunta ao responder que: “Uma coisa pode ser verdadeira ou falsa conforme o sentido que se der às palavras. As maiores verdades podem parecer absurdas quando se olha apenas a forma e quando se toma a alegoria pela realidade. Compreendei bem isto e guardai-o, pois é de aplicação geral”. Igualmente, tratando da resposta à pergunta 521 sobre o papel dos Espíritos Superiores no estímulo e proteção ao progresso das Artes, o Codificador irá comentar, em um tópico altamente pertinente aos estudos de mitologia, o que se segue: “Os Antigos haviam feito desses espíritos divindades especiais. As musas não eram senão a personificação alegórica dos Espíritos protetores das ciências e das artes, como os deuses Lares e Penates simbolizavam os Espíritos protetores das famílias. Entre os modernos, as Artes, as diferentes indústrias, as cidades, os países também têm os seus patronos ou protetores, que nada mais são do que Espíritos superiores, embora sob outros nomes”. Para tornar mais explícita ainda as explicações espíritas pertinentes aos fenômenos mitológicos, Kardec questiona na pergunta 537: “A mitologia dos Antigos se fundava inteiramente sobre as idéias espíritas, com a única diferença de que consideravam os Espíritos como divindades. Representavam esses deuses ou esses Espíritos com atribuições espirituais. Assim, uns eram encarregados dos ventos, outros do raio, outros de presidir à vegetação etc. Essa crença é destituída de fundamentos?“Tão pouco destituída de fundamentos que ainda está muito aquém da verdade”. Finalmente, o tema é pontuado de modo claro e definitivo na pergunta de número 668, com a resposta dos Espíritos de Luz e o comentário abalizado do Codificador: “Por se terem produzido em todos os tempos e serem conhecidos desde as primeiras idades do mundo, os fenômenos espíritas não terão contribuído para a difusão da crença na pluralidade dos deuses? “Sem dúvida. Como os homens chamavam deus tudo o que era sobre-humano, para eles os Espíritos pareciam deuses. É por isso que quando um homem se distinguia dos demais, por suas ações, pelo seu gênio ou por um poder oculto que o povo não compreendia, faziam dele um deus e lhe rendiam culto após a morte”. Allan Kardec comenta na mesma questão:  “Entre os antigos, a palavra deus tinha uma acepção muito ampla. Não significava, como hoje, uma personificação do Senhor da Natureza. Era uma qualificação genérica, que se dava a todo ser colocado acima das condições da Humanidade. Ora, tendo as manifestações espíritas lhes revelado a existência de seres incorpóreos que agiam como forças da Natureza, eles os chamaram deuses, como nós os chamamos Espíritos. Simples questão de palavras, com a diferença de que, em sua ignorância, mantida intencionalmente por aqueles que nisso interesse, eles construíram templos e altares muito lucrativos, ao passo que hoje os consideramos como simples criaturas como nós, mais ou menos perfeitas e despojadas de seus envoltórios terrenos. Se estudarmos atentamente os diversos atributos das divindades pagãs, reconheceremos sem dificuldade todos os atributos dos nossos Espíritos, em todos os graus da escala espírita, seus estado físico nos mundos superiores, todas as propriedades do perispírito e o papel que desempenham nas coisas da Terra. “Vindo iluminar o mundo com a sua luz divina, o Cristianismo não podia destruir uma coisa que está na Natureza, mas fez que a adoração se voltasse para aquele a quem é devida. Quanto aos Espíritos, a lembrança deles se perpetuou sob diversos nomes, conforme os povos, e suas manifestações, que jamais deixaram de produzir-se, foram interpretadas de maneiras diferentes e muitas vezes exploradas sob o domínio do mistério. Enquanto a religião via nessas manifestações fenômenos miraculosos, os incrédulos os consideravam embustes. Hoje, graças a estudos mais sérios, feitos em plena luz, o Espiritismo, liberto das idéias supersticiosas que o obscureceram durante séculos, nos revela um dos maiores e mais sublimes princípios da Natureza”. Eis aqui uma dimensão muito diferente e bem mais abrangente dos mitos e da mitologia para o Homem do Horizonte Cultural existencial-informacional-planetário! Uma dimensão expandida, onde os estudos mitológicos podem conviver de modo muito apropriado com as pesquisas das Ciências, com as sínteses racionais e elucubrações das modernas Filosofias e, não menos importante, com a tão necessária ressignificação das Religiões frente às necessidades deste tempo, em todo o planeta Terra. Tal visão, começada a ser apresentada à Humanidade em o Livro dos Espíritos, segue sendo mais explicada em notáveis obras da Doutrina Espírita, tais como O Problema do ser, do destino e da Dor, do maior filósofo do Espiritismo depois de Kardec, o inolvidável Léon Denis; também com as obras À Caminho da Luz e O consolador, de Emmanuel, e Evolução em Dois Mundos, de André Luiz, todos psicografados pelo insigne médium espírita Chico Xavier. Tudo isso para nos mostrar como os mitos são verdade sim, mas verdade em seu contexto imaginativo, criativo, contemplador, poético, sagrado, contado e cantado, como o eram pelos antigos aedos gregos, além dos aedos de muitos outros povos e civilizações. Muito teríamos a explorar sobre o maravilhoso mundo mitológico, inclusive nos estudos da psique humana começados pelo doutor Sigmund Freud, continuados e expandidos tremendamente pelo doutor Carl Gustav Jung e seus discípulos, além de tantos outros pensadores. Mas por enquanto paramos aqui, e nos despedimos de vocês querido leitor e querida leitora, com uma citação de um discípulo do doutor Jung, o já mencionado Joseph Campbell, na obra O Poder do Mito, uma série de entrevistas transcritas em livro pelo jornalista Bill Moyers: “CAMPBELL: Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar, dentro de nós mesmos. MOYERS: Mitos são pistas?CAMPBELL: Mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana.MOYERS: Aquilo que somos capazes de conhecer e experimentar interiormente?CAMPBELL: Sim”.   * publicado originalmente em 07/03/2013 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/

DE JESUS A CRISTO, A JESUS DE NOVO (ou, POR QUE SER ESPÍRITA É TAMBÉM SEGUIR A JESUS)*

Por Douglas

“Então Jesus e os seus discípulos partiram para as aldeias de Cesareia de Filipe; e, no caminho, perguntou-lhes: quem dizem os homens que sou eu? E responderam: João Batista, outros: Elias; mas outros: algum dos profetas. Então, lhes perguntou: mas vós, quem dizeis que eu sou? Respondendo, Pedro lhe disse: tu és o Cristo. Advertiu-os Jesus de que a ninguém dissessem tal coisa a seu respeito.”

Marcos 8:27-30; Mateus 16:13-20; Lucas 9:18-21                          Almeida Revista e Atualizada.

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Findo um ano do Curso de “Cristianismo e Espiritismo” na Comunhão Espírita de Brasília, provavelmente a primeira coisa que um aluno ou aluna raciocinaria ao ler essas palavras seria: “será que Jesus disse isso mesmo”? Bem, a citação acima faz parte dos três Evangelhos Sinóticos e corresponde a uma tradição muito antiga… Ademais, sua leitura em um contexto que não o do Cristianismo pode ensejar considerações sóbrias: por que advertir a não espalhar isso? Qual a percepção de Jesus de Nazaré quanto ao que ele fazia e seu propósito de vida?

São indagações que historicamente podem gerar respostas das mais variadas, todas elas tão somente hipotéticas. Certeza, certeza mesmo, o pesquisador sério não atribuirá a nenhuma delas, ainda que se incline sinceramente para alguma. Mas estamos falando de um pesquisador acadêmico da área das assim chamadas ciências humanas, que possui limitações quanto aos seus instrumentos de pesquisa, limitações essas que foram surgindo com o justo interesse de se colocar balizas de segurança quanto à pesquisa séria que produz resultados seguros e passíveis de verificação e modificação, quando necessário.

Mas e o pesquisador espírita? Como deve proceder quando surgem estes desafios? Depois de um ano de curso, a esperança dos professores do CriEs – Cristianismo e Espiritismo – é de que a máxima do professor Allan Kardec em a Gênese capítulo 1 item 55 valha mais do que nunca: seguiremos junto com as ciências e os Espíritos, mas se esses disserem algo sobre um fenômeno estudado por estas ciências que elas entendam de  maneira diferente, ficaremos com as ciências, até prova em contrário por parte delas mesmas.

Alguém pode nos perguntar: isso vale para as ciências humanas, para a História, a Antropologia e a Arqueologia, por exemplo? Sim. O sim é simples e prescinde de acréscimos. Vamos agora tentar raciocinar em cima disso. Por que o professor Kardec insiste nesse ponto deste modo? Por que as ciências humanas, falhas, limitadas, em constante mutação diriam a palavra final, se há Espíritos a quem reputamos muito saber e que se encontram na dimensão privilegiada de observação, podendo mesmo nos adiantar o que será descoberto em segurança?

Primeira razão: porque aos Espíritos que já avançaram na caminhada da evolução das vidas, não é dado o direito de tirar o esforço continuado e o aprendizado pessoal e intransferível que cabe a todos nós e a eles, na mesma proporção. Cada um deve se auto-conhecer, se entender, se amar e se melhorar por si só. Podemos ser auxiliados – e efetivamente o somos mais do que imaginamos! –, podemos ser encorajados, motivados reanimados, mas nunca, jamais, poderão fazer por nós o que é nossa obrigação fazer por nós mesmos, assim como isso não foi feito por eles. Poderão eles mesmos reencarnarem e laborarem lado a lado conosco, nos ensinando e, continuando seu perpétuo aprendizado, nos ajudando a nos adiantar, mas não podem nos facilitar o caminho evolutivo que não seja pelo exemplo vivo, andando como gênios da humanidade ao nosso lado, e também pelo consolo sempre certo de onde estão, na pátria espiritual.

Segundo: porque as ciências não são revelações prontas, acabadas, na mesma proporção que o ser humano não é algo pronto, acabado. Crescendo e melhorando o ser humano em saber e nos afetos, mais ele poderá e, portanto, maior e melhor nossas ciências serão. Parafraseando com muito carinho uma frase religiosa cristã pela qual temos entranhado respeito: ‘eis o mistério da fé raciocinada e progressiva – toda vez que melhorarmos através da razão e dos afetos, mais e mais saberemos e poderemos no caminho das ciências, máxime a ciência espírita’. Até porque, “a ciência lhe foi dada para seu adiantamento em todas as coisas…” – Livro dos Espíritos, resposta parcial à pergunta 19.

Terceiro porque entendemos mais do que nunca com o professor Allan Kardec que uma vez livre da vestimenta física, os Espíritos não entram na posse do conhecimento de todos os mistérios. E em sendo assim, quando interagimos com Eles, devemos SEMPRE lembrar que estamos lidando com seres humanos como nós que tem limitações a serem vencidas, assim como nós mesmos. E que eles tem a permissão de seus Maiores para interagir conosco para que JUNTOS aprendamos, pesquisemos, estudemos, como eles o fazem com aqueles que se encontram muito à frente deles.

E, uma vez que o modo de intercâmbio de informações se dá por uma faculdade comum a eles e a nós, desencarnados e encarnados – a medianimidade –, faculdade essa que se encontra em processo de aperfeiçoamento como todos nós estamos, é natural que mais do que nunca saibamos distinguir quem é quem nesse diálogo do lado de lá, com o máximo de cuidado. O professor Allan Kardec declara que esse conhecimento “… É, de certo modo, a chave da ciência espírita, pois só ele pode explicar as anomalias que as comunicações apresentam, esclarecendo-nos sobre as desigualdades intelectuais e morais dos Espíritos” – O livro dos Espíritos, comentário parcial de Kardec à pergunta 100.

Essa prudência toda descrita nos três itens acima não foi tão bem vista assim por todos os contemporâneos espiritistas do professor que codifica a Doutrina em seu tempo. Alguns o viram como um tanto quanto centralizador, outros lamentavelmente como alguém que se recusava a aceitar as revelações impactantes que surgiam, com uma evasão impensável em um homem de saber como ele.

Entendemos que isso é um equívoco e que, ao contrário, todas as vezes que os espíritas seguiam as diretrizes exaradas pelo querido mestre lyonês, todas elas aprovadas pelos Espíritos que se notabilizaram em anos de contato com o grupo ao qual ele fazia parte e que foram testadas inúmeras vezes nestes mais de 150 anos de Doutrina Espírita Codificada, os resultados práticos foram e continuam sendo agradavelmente surpreendentes.

Um dos tópicos mais polêmicos e que ensejou duros desafios para o movimento espírita francês e brasileiro foi o referente a Jesus de Nazaré. Se hoje o rabi da Galiléia fizesse sua pergunta “quem dizem os homens que sou eu?” para os que se dizem espíritas, a resposta dentro do movimento seria claramente multifacetada:

– Deus, para os espíritas que não estudam nunca as obras sérias da Doutrina;

– Um agênere que nunca encarnou em corpos físicos, para os fiéis roustainistas;

– Um médium amorável e vegetariano do Cristo Cósmico Planetário, para os ramatisistas;

– Um espírito perfeito que encarna em um corpo híbrido de material genético alienígena e terrestre, responderiam os miramezistas;

– Um emissário de “o Sistema”, espírito que caiu no equivocado universo físico como todos nós, mas que, após a crucificação, purificou-se de vez e retornou do seu erro para lá e, de lá, tenta nos guiar para que consigamos o mesmo, como querem nos fazer crer os ubaldistas;

E por aí vai. Depois de um ano de estudos em conjunto, vamos rever por fim algumas definições pontuais pertinentes a este tópico que se encontram na codificação do hexateuco kardequiano, as seis obras principais apresentadas pelo estimado professor quando encarnado no século XIX. Antes disso, alguém poderia dizer: mas não estaríamos então incorrendo em um outro “ismo”, nesse caso, o “kardecismo”? Por que os “Kardecistas” tem que estar certos e não Roustaing, Ramatis, Miramez, Ubaldi etc?

Antes de tudo, lembremos que Allan Kardec não tem que estar certo. O princípio que se aplica aos Espíritos desencarnados comunicantes é o mesmo a ser aplicado frente a qualquer encarnado, incluindo o estimado professor. Por isso, a fé que o motivava e que nos motiva é a fé raciocinada e progressista. Ademais, a revelação espírita, a terceira revelação, é uma revelação DOS ESPÍRITOS e não de um homem ou de um Espírito só, encarnado ou desencarnado.

Todavia, o que todos os defensores das linhas de pensamento espiritualista acima mencionados têm em comum com o espírita que se pauta na codificação é a de que, afora as diferenças e discordâncias, muito mais se tem a concordar uns com os outros EM Kardec do que sem Kardec. Expliquemo-nos: ainda que com diferenças de pensamento, todos ainda optam por ter Kardec como a referência didática comum e segura para os primeiros passos no desenvolvimento da fé raciocinada. Por isso insistem em se denominar espíritas, termo cunhado pelo professor de Lyon.  

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O convite que fazemos então nesse momento é: voltemos às raízes do movimento e das manifestações dos Espíritos conforme os passos didáticos do codificador e, com base nisso, vamos comparar com o que a ciência tem trazido. E façamos isso agora no contexto da temática da pessoa de Jesus de Nazaré. O que em termos iniciais e pedagógicos os Espíritos nos revelaram sobre ele? Vejamos:

1)     O Livro dos Espíritos, pergunta 625: Jesus é apresentado como o mais perfeito guia e modelo da perfeição moral a ser aspirada na Terra. Igualmente, como o Espírito mais puro que por aqui apareceu encarnado.

2)    Em o Livro dos Médiuns, no capítulo XXXI, item IX, na observação de Kardec, poderá ser lido que o codificador se refere a Jesus de Nazaré como o “Espírito puro por excelência”.

3)    No Evangelho Segundo o Espiritismo, em sua famosa introdução, o professor se refere já no primeiro parágrafo aos cinco tópicos pertinentes ao tema “Jesus Cristo” pelos quais se podem tratar esse nome: a) os atos comuns de sua vida b) os milagres c) as predições d) as palavras que serviram para estabelecer os dogmas da Igreja e) o ensinamento moral. Em seguida, pontua que a parte moral –  também chamada de código divino – é a única inatacável, inclusive tendo-se em vista o posicionamento de ateus e materialistas que, discordando de um ou vários aspectos dela, não podem deixar de admirá-la.

4)    Ainda no Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo 1 item 4, Allan Kardec se refere à natureza excepcional de seu Espírito (i.e. de Jesus) e de sua missão divina, especificando que além de um código moral Jesus ensinou aos seres humanos que a verdadeira vida está no reino dos céus e lhes aponta o caminho para chegar lá.

5)    Em O Céu e o Inferno, no capítulo 10 item 18, Jesus é chamado de “o messias divino enviado aos homens para ensinar-lhes a verdade e mostrar-lhes o caminho da salvação”. Lembrando a todos que a palavra messias vem do hebraico mashíach, ungido. E lembrando igualmente que no antigo Israel, quando alguém possuía um comissionamento sagrado, essa pessoa era ungida com um óleo perfumado especial, fosse para ser rei, fosse para ser sacerdote, fosse para ser um profeta.

6)    Em A Gênese, a exposição final de Kardec sobre temas espíritas trazida à luz antes de sua morte, Jesus de Nazaré é descrito do seguinte modo no capítulo xv item 2:

“Sem nada prejulgar sobre a natureza do Cristo, cujo exame não entra no quadro desta obra, e não o considerando, por hipótese, senão como um Espírito superior, não podemos deixar de reconhecê-lo como sendo um dos Espíritos de ordem mais elevada e, por suas virtudes, colocado muitíssimo acima da Humanidade terrestre. Pelos imensos resultados que produziu, a sua encarnação neste mundo forçosamente há de ter sido uma dessas missões que a Divindade somente confia a seus mensageiros diretos, para cumprimento de seus desígnios.  Mesmo sem supor que ele fosse o próprio Deus, mas um enviado de Deus para transmitir sua palavra aos homens, seria mais do que um profeta, porquanto seria um Messias divino.

“Como homem, tinha a organização dos seres carnais, mas como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual, do que da vida corpórea, de cujas fraquezas não era passível. A superioridade de Jesus com relação aos homens não resultava das qualidades particulares do seu corpo, mas das do seu Espírito, que dominava a matéria de modo absoluto, e da do seu perispírito, haurido da parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres. (Cap. XIV, item 9.) Sua alma não devia achar-se presa ao corpo senão pelos laços estritamente indispensáveis. Constantemente desprendida, ela decerto lhe dava dupla vista, não só permanente, como de excepcional penetração e muito superior à que comumente possuem os homens comuns. O mesmo havia de dar-se nele com relação a todos os fenômenos que dependem dos fluidos perispiríticos ou psíquicos. A qualidade desses fluidos lhe conferia imensa força magnética, secundada pelo desejo incessante de fazer o bem.

“Agiria como médium nas curas que operava? Poder-se-á considerá-lo poderoso médium curador? Não, visto que o médium é um intermediário, um instrumento de que se servem os Espíritos desencarnados. Ora, o Cristo não precisava de assistência, pois que era Ele quem assistia os outros. Agia por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal, como, em certos casos, o podem fazer os encarnados, na medida de suas forças. Que Espírito, aliás, ousaria insuflar-lhe seus próprios pensamentos e encarregá-lo de o transmitir? Se porventura ele recebia algum influxo estranho, esse só de Deus lhe poderia vir. Segundo definição dada por um Espírito, ele era médium de Deus”.

Agora paremos para considerar esses pontos frente aos argumentos espiritualistas apresentados antes. Salvo o excerto preciosíssimo de A Gênese, que contradiz frontalmente as premissas roustainistas, pode-se francamente questionar as ilações morais do ensino de Jesus de Nazaré conforme expostas por Allan Kardec? Certamente que não. E com todas elas são concordes todos os grupos que apresentaram, junto ao movimento espírita, seus conceitos diferenciados da codificação quanto a tudo o mais que se referia à vida do rabi da Galiléia.

Ora, se a explanação do professor de Lyon é boa para este ponto, não deveria ao menos ser vista com olhos respeitosos nos outros? Os que se diferenciaram o fizeram sempre pisando inicialmente no terreno seguro das considerações daquele a quem Camille Flammarion chamou de “a prudência personificada”. Mas existe algo a mais nesse comenos.

Quando confrontamos o Jesus Histórico com o Jesus de Nazaré enxergado por Kardec e descrito pelos Espíritos que dialogaram com ele, a genialidade Kardequiana se torna mais patente ainda! De tudo que se escreveu em mais de cem anos de pesquisa históricas sobre o mais famoso judeu da história da humanidade, a parte que salta aos olhos permanecendo incólume é sua moral superior ao tempo em que viveu. Moral tão elevada que fez e faz com que líderes de praticamente todas as grandes religiões, inclusive o Judaísmo, vejam nesse ser humano extraordinário que por aqui passou um irmão amigo dos ideais mais elevados.

Efetivamente, ao compulsar as obras de pesquisadores notadamente agnósticos ou mesmo ateus, tais como John Dominic Crossan, Geza Vermes, Bart Ehrman, Karen Armstrong, Marcus Borg, David Flusser e dezenas de outros, considerados gigantes dessas pesquisas pelas décadas e mais décadas de estudos que efetivaram sobre esse tópico, permanece a intuição genial de Allan Kardec, nascida de sua experiência nos anos de estudos no Instituto de seu mestre Henri Pestalozzi, confirmada pelos Espíritos reveladores da assim chamada terceira revelação e que reverbera notavelmente no imo de nossos corações.

E mais. Diferentemente da complexa estrutura teológica dos cristianismos, sejam eles católico-protestantes, gnósticos ou mesmo judaicizantes, cuja gênese constitutiva é rastreável facilmente no processo histórico de cerca de dois mil anos, com o emaranhado de interesses sinceros ou não que estiveram por trás de seu surgimento, o Espiritismo em sua apresentação de Jesus como Espírito que age nesse planeta sob ordem divina destoa de todos eles.

De fato, o Espiritismo não é uma reedição do catolicismo-protestantismo, e nem do judaísmo cristão dos primeiros séculos da Era Comum, bem como não o é de nenhuma das formas de gnosticismos redescobertos no século passado, tão fascinantes aos olhos de muitos. Nem mesmo é uma colcha de retalhos de todos eles. A Doutrina dos Espíritos tem consistência própria em seus postulados, que se na essência se liga à Filosofia Perene de todos os séculos, como o enxergou o filósofo espírita Léon Denis, é ao mesmo tempo um corpo de informações sólido que se exprime em termos particulares, novos, explicando antigos e novos fatos que se repetem por todas as eras dentro de uma genealogia do saber cultural que começa no Judaísmo, passa pelos ensinos de Jesus e a comunidade Jesuana que com ele conviveu e se corporifica como uma síntese do saber no século XIX.

E assim o faz porque se antes a humanidade dissociou a ciência, a filosofia e a religião, agora ela está apta para reintegrá-los, respeitando suas áreas de produção de conhecimento como áreas integráveis e coordenáveis, mas não mais fundindo elas como se fossem uma coisa só.

Por fim, suas premissas básicas simplesmente estão fora da alçada da pesquisa acadêmica tradicional enquanto esta não reconhecer o objeto de estudo dessa doutrina: o mundo espiritual e suas manifestações. Igualmente enquanto não reconhecer que este objeto de estudo demanda instrumental analítico de pesquisas e testes próprios, como qualquer disciplina nova do saber o requer. Também enquanto não reconhecer as conseqüências racionais e os significados filosóficos em todos os campos da vida humana dessa disciplina de estudo e pesquisa. E, mais importante ainda, enquanto não lhe reconhecer seus justos valores, de cunho espiritual, capazes de nortear a humanidade a novos páramos. Sendo assim, estão essas premissas fora de sua investigação, não podendo ser refutadas ou endossadas.

E quais são essas premissas básicas? É o professor Kardec quem as expõe de modo didático, conforme pode ser lido nos 29 postulados espíritas básicos descritos pelo mestre de Lyon na “Profissão de Fé Espírita Raciocinada”, encontrada na parte primeira de suas “Obras Póstumas”. Agora, o mais fascinante de tudo é: dificilmente, assim o entendemos, os roustainistas, ramatisistas ou ubaldistas se poriam contra eles. Se o leitor ou a leitora tiver alguma dúvida, cheque-os e veja por si mesmo(a).

Ficam assim essas reflexões conclusivas de um curso em constante aperfeiçoamento, mas cujo corpo de professores, depois da desconstrução de muitas estruturas teológicas herdadas dessa e de outras vidas, emergiram do torvelinho com a reafirmação de sua fé espírita raciocinada como inteiramente compatível com a mensagem da boa nova do Reino do Pai, conforme apregoada pelo rabi de Nazaré.

3

Como ele encarnado, podemos dizer: “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:34-40; Marcos 12:28-31; Lucas 10:25-28). Como ele, agora na pátria espiritual, podemos dizer: “espíritas, amai-vos, eis o primeiro mandamento. Instruí-vos, eis o segundo” (Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VI item 5, quarto parágrafo). Mas perdura a pergunta de Jesus ao coração de cada um de vocês, para que respondam e ele em sua sinceridade: “mas vós, quem dizeis que eu sou?”

NOTAS:

1: http://forums.catholic.com/showthread.php?t=261339&page=10 2: http://espiritualidadee.blogspot.com.br/2009/05/o-suicidio-de-allan-kardec.html 3: http://catholicphilosophyblog.com/2014/01/02/will-the-real-catholic-church-please-stand-up/

* publicado originalmente em 27/01/2014 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/

Condenados por Deus: Um Problema Teológico (Parte III – final) *

Ressurreição de Cristo – Carl Bloch

  por Jefferson

Esta é a terceira e última parte do artigo “Condenados por Deus: um problema teológico”. Para os que estão acessando o artigo pela primeira vez, sugerimos a leitura das duas partes precedentes, publicadas nos dias 22/02 e 27/03/12.

Alguns Conceitos Básicos

Este blog é espírita, portanto, muito natural que os assuntos apresentados aqui sejam escritos e lidos sob esta óptica. Já deixamos claro, nas duas partes anteriores deste artigo, que os dogmas do pecado original e da salvação pela cruz, independente de se acreditar ou não no Espiritismo, não fazem nenhum sentido, pois a sua base somente se sustenta se a história de Adão e Eva fosse verdadeira, o que os fatos apresentados pela Ciência já demonstraram não ser o caso. Contudo, se somente derrubássemos o edifício da fé cristã e não oferecêssemos alternativa, como fazem os defensores do Ateísmo, nada de digno faríamos. Se a visão espírita diverge da visão apresentada pela teologia cristã, é necessário que ofereça uma alternativa racional para o desequilíbrio humano e para o sofrimento que sempre ronda a nossa espécie, sem que para isso haja a necessidade de recorrer à “natureza pecadora” e ao “castigo divino” com os quais não concorda. Para tanto, qual a explicação espírita para essas questões? Para responder a essa pergunta, precisamos partir de um conhecimento comum daquilo que o Espiritismo professa, principalmente para quem não tem intimidade nenhuma com a literatura espírita:

1)      O Espiritismo acredita em Deus? Sim, tanto que o início dos estudos espíritas, explanados no livro-base do Espiritismo, “O Livro dos Espíritos” de Allan Kardec, destina o seu primeiro capítulo somente para tratar Dele. Na questão número quatro, daquele livro, temos: “4. Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus? “Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.”

2)      Como é Deus na visão espírita? É um Deus que se revela muito mais pela Sua criação do que pelos livros e pelos templos. Na questão nona, do livro já citado, temos a seguinte explicação: “9. Em que é que, na causa primária, se revela uma inteligência suprema e superior a todas as inteligências? “Tendes um provérbio que diz: Pela obra se reconhece o autor. Pois bem! Vede a obra e procurai o autor. O orgulho é que gera a incredulidade. O homem orgulhoso nada admite acima de si. Por isso é que ele se denomina a si mesmo de espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!” Mais adiante, a questão de número treze trata dos atributos de Deus: 13. Quando dizemos que Deus é eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom, temos idéia completa de Seus atributos? “Do vosso ponto de vista, sim, porque credes abranger tudo. Sabei, porém, que há coisas que estão acima da inteligência do homem mais inteligente, as quais a vossa linguagem, restrita às vossas idéias e sensações, não tem meios de exprimir. A razão, com efeito, vos diz que Deus deve possuir em grau supremo essas perfeições, porquanto, se uma Lhe faltasse, ou não fosse infinita, já Ele não seria superior a tudo, não seria, por conseguinte, Deus. Para estar acima de todas as coisas, Deus tem que se achar isento de qualquer vicissitude e de qualquer das imperfeições que a imaginação possa conceber.” Portanto, Deus, para a Doutrina Espírita, é a causa primária de tudo e a inteligência suprema do universo, possuindo todas as Suas qualidades (justiça, amor, sabedoria, etc.) em grau infinito, sem possuir nenhuma partícula de nossas limitações, nenhum átomo de nossos defeitos.

3)      Como o Espiritismo entende a Bíblia? Podemos tomar por base as palavras de Allan Kardec, que organizou e publicou o ensino dos Espíritos, como uma opinião da maioria dos espíritas: “A Bíblia, evidentemente, encerra fatos que a razão, desenvolvida pela Ciência, não poderia hoje aceitar e outros que parecem estranhos e derivam de costumes que já não são os nossos. Mas, a par disso, haveria parcialidade em se não reconhecer que ela guarda grandes e belas coisas. A alegoria ocupa ali considerável espaço, ocultando sob o seu véu sublimes verdades, que se patenteiam, desde que se desça ao âmago do pensamento, pois que logo desaparece o absurdo.” (Allan Kardec, “A Gênese”, capítulo IV, item 6)

4)      Como a Doutrina Espírita interpreta a narrativa de Adão e Eva? Segundo os Espíritos que participaram da criação do “Livro dos Espíritos”, temos a seguinte explicação: 50. A espécie humana começou por um único homem? “Não; aquele a quem chamais Adão não foi o primeiro, nem o único a povoar a Terra.” Segundo entendimento de Allan Kardec, o que tem sido confirmado por diversas escritas mediúnicas, Adão representa um conjunto de espíritos exilados dos seus planetas de origem, vez que teimavam em permanecer retardatários ao progresso geral de suas sociedades. Foram trazidos ao nosso planeta e aqui reencarnaram em expiação, para progredirem e fazer às tribos que aqui estavam, bem mais atrasadas do que eles em termos morais e intelectuais, progredissem também. “De acordo com o ensino dos Espíritos, foi uma dessas grandes imigrações, ou, se quiserem, uma dessas colônias de Espíritos, vinda de outra esfera, que deu origem à raça simbolizada na pessoa de Adão e, por essa razão mesma, chamada raça adâmica. Quando ela aqui chegou, a Terra já estava povoada desde tempos imemoriais, como a América, quando aí chegaram os europeus. “Mais adiantada do que as que a tinham precedido neste planeta, a raça adâmica é, com efeito, a mais inteligente, a que impele ao progresso todas as outras. A Gênese no-la mostra, desde os seus primórdios, industriosa, apta às artes e às ciências, sem haver passado aqui pela infância espiritual, o que não se dá com as raças primitivas, mas concorda com a opinião de que ela se compunha de Espíritos que já tinham progredido bastante. Tudo prova que a raça adâmica não é antiga na Terra e nada se opõe a que seja considerada como habitando este globo desde apenas alguns milhares de anos, o que não estaria em contradição nem com os fatos geológicos, nem com as observações antropológicas, antes tenderia a confirmá-las.” (Allan Kardec, “A Gênese”, capítulo XI, item 34)

5)      Quem é Jesus para o Espiritismo? Uma pessoa sem igual, mas não um deus encarnado, porque Deus é único, como é muito claro toda a Antiga Aliança conhecida como Bíblia Hebraica. Jesus era judeu e como fiel observador da Torá, nunca reinvidicou para si a condição de divindade. A dita Santíssima Trindade nunca foi revelação evangélica genuína, mas uma construção teológica, idéia de gosto das comunidades cristãs de origem helenista, que não tinham a mesma identidade cultural das primeiras comunidades judaicas, como a de Jerusalém. Para ganharmos tempo, citaremos apenas duas passagens evangélicas que deixam bem claro o que afirmamos: “Aproxima-se então um mancebo e lhe diz: ‘Bom Mestre, que bem devo fazer para alcançar a vida eterna?’ Jesus lhe respondeu: ‘Por que me chamas bom? Não há senão somente Deus que é bom. Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos.”(Mateus, 19:16 e 17; Marcos, 10:17 e 18; Lucas, 18:18 e 19.) “Assim falou Jesus, e, erguendo os olhos ao céu, disse: ‘Pai, chegou a hora: glorifica teu Filho, para que teu Filho te glorifique, e que, pelo poder que lhe deste sobre toda carne, ele dê a vida eterna a todos os que lhe deste! Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo.” (João 17, 1-3; grifos nossos) 6)      Se Jesus não é Deus, então, quem ele é? Segundo ensinam os Espíritos, Jesus é o modelo dado por Deus à humanidade e pertence ao grupo dos Espíritos Puros, ou seja, aqueles espíritos que nada mais tem a expiar, que possuem as virtudes humanas em seu grau máximo sem serem portadores de nenhum dos vícios de nossa natureza. “625. Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?” “Jesus.” (Allan Kardec – Livro dos Espíritos)

7)      Se Jesus é guia e modelo, se a Bíblia tem verdades sublimes sob o véu da alegoria, para que serve a Doutrina Espírita? A humanidade está em constante processo de transformação, sempre com novas demandas e questionamentos. Mais amadurecida, a sociedade atual necessita de respostas que as suas antecessoras nem pensaram em formular. Longe do ambiente agropastoril e patriarcal do Oriente Médio, necessita de esclarecimentos e provas mais apropriadas para o tempo presente. Vejamos o que nos diz o Livro dos Espíritos: 627. Uma vez que Jesus ensinou as verdadeiras leis de Deus, qual a utilidade do ensino que os Espíritos dão? Terão que nos ensinar mais alguma coisa? “Jesus empregava amiúde, na sua linguagem, alegorias e parábolas, porque falava de conformidade com os tempos e os lugares. Faz-se mister agora que a verdade se torne inteligível para todo mundo. Muito necessário é que aquelas leis sejam explicadas e desenvolvidas, tão poucos são os que as compreendem e ainda menos os que as praticam. A nossa missão consiste em abrir os olhos e os ouvidos a todos, confundindo os orgulhosos e desmascarando os hipócritas: os que vestem a capa da virtude e da religião, a fim de ocultarem suas torpezas. O ensino dos Espíritos tem que ser claro e sem equívocos, para que ninguém possa pretextar ignorância e para que todos o possam julgar e apreciar com a razão. Estamos incumbidos de preparar o reino do bem que Jesus anunciou. Daí a necessidade de que a ninguém seja possível interpretar a lei de Deus ao sabor de suas paixões, nem falsear o sentido de uma lei toda de amor e de caridade.” Partindo desses conceitos básicos, fica claro que o Espiritismo não tem por pretensão de desqualificar ou revogar os ensinos bíblicos, muito menos as palavras de Jesus e o seu significado inquestionável para a humanidade. O Espiritismo tem por missão provar, através do ensino daqueles que já viveram como nós e que continuam a existir depois da morte, que o caminho ensinado por Jesus é o único a nos trazer felicidade. São os seus testemunhos do além-túmulo, de felicidade ou de infelicidade, que nos indicam o caminho a seguir ou a evitar, para que tenhamos uma vida de bem-aventuranças espirituais a partir desta vida mesmo. São os Espíritos, enviados pelo Altíssimo, que nos mostram os aspectos práticos de sermos virtuosos, da razão de nossos sofrimentos e da necessidade que temos de sermos pessoas mais integras, justas, caridosas, piedosas e compreensivas para com os nossos semelhantes, enfim, seguirmos os passos de Jesus, para que possamos ter a verdadeira felicidade, que é a da consciência iluminada, o verdadeiro templo de Deus. Com o Espiritismo, que nada mais é do que o desdobramento da mensagem evangélica, a consciência se ilumina, o coração se aquece e a alma se ilumina. Deus não é Beduíno O Barão de Montesquieu certa vez disse “Se os triângulos tivessem um Deus, ele teria três lados”. O Deus da Bíblia Hebraica é um pastor poderoso, porque era cultuado por povos que tem origem nômade. A “terra santa” é um pedaço de terra que possui abundância de pedras, desertos e montanhas, e carência de terras produtivas, mas é santa porque é a sua terra, e não dos outros. Encontraremos na Bíblia muitas menções ao cedro do Líbano, ao camelo e ao leão, mas não terá uma linha sobre uma jabuticabeira, uma jibóia ou lobo-guará, pelo simples fato de que não eram do conhecimento dos povos do Oriente. Quem escreveu a Bíblia, escreveu para o seu povo, embebido de sua cultura e de seus costumes, e o Deus narrado por ele também ficará limitado pelo seu horizonte. Portanto, as características do Deus da Antiga Aliança serão as mesmas do povo que o cultua. “Um deus terrível das selvas, um deus árabe, um deus que atravessava as montanhas, percorria os desertos, repousava em barracas, suntuosamente coloridas. Um deus que protege seu povo, à noite quando este se recolhe para dormir, um deus que o leva à batalha, que castiga os seus inimigos sem dó, um deus que muda de idéia como o vento, que é rápido na vingança e não recua ante uma mentira quando esta lhe convém. No entanto, é um deus que não comete injustiças, que é generoso para com estranhos, bondoso para com os órfãos e misericordioso para com os pobres. Em poucas palavras, um deus que possui todas as virtudes e defeitos do beduíno árabe.” (Thomas, Henry – A História da Raça Humana Através da Biografia – 10 ed., Rio de Janeiro: Globo, 1979, p.40 e 41). O mundo mudou, a humanidade evoluiu, Deus já não cabe mais nesse modelo. Como vimos mais acima, “Pela obra se reconhece o autor. Pois bem! Vede a obra e procurai o autor.”, dizem os Espíritos. Feita a proposta, vamos estudar a obra para conseguirmos dimensionar o autor. Vamos dar um rápido passar de olhos na criação para tentarmos entender a dimensão de seu Autor. Além da Imaginação Toda a histórica bíblica se passa na região que abrange a bacia latina do Mediterrâneo, o Oriente Médio e as terras que seriam os atuais Irã e Iraque. A sua crença na divindade era restrita ao seu conhecimento, às suas experiências, da mesma forma que os deuses ameríndios e polinésios não se assemelharam ao Deus de Israel, porque Israel desconhecia esses continentes. O mundo é muito maior do que Canaã. O mundo também não se sustenta sob colunas, não existe uma abóboda onde são firmadas as estrelas, não existem águas sobre essa abóboda e não existem abismos sob as colunas. O planeta não é plano e não é o centro do universo. Portanto, se quisermos entender Deus, temos que olhar para o livro da natureza, e não para a Bíblia. Pelas Sagradas Escrituras se pode entender muito de como o povo hebreu entendia Deus, mas não se pode entendê-Lo, pois Ele é muito maior. Israel, comparada ao Brasil, Estados Unidos, China e Índia, em termos geográficos, é uma pedaço de terra inexpressivo, e a sua população, com todo respeito que merece a sua cultura e as suas tradições milenares, mesmo hoje, é uma parcela ínfima quando comparada com o somatório de todas as civilizações e culturas que existiram e existem em nosso planeta. Deus é muito maior para ser representado por um único povo. O nosso próprio planeta, quando comparado com outros tantos, é uma pequena semente flutuante no espaço cósmico, e o nosso sol, que nos parece tão grande e imponente, é uma pequena chama de um fósforo aceso ao lado de Arturo, e esta estrela não passa de pálida fonte de luz se comparada com VY Cão Maior. E estamos falando de estrelas, que são pontinhos diminutos no condomínio de galáxias chamado Universo. “Pela obra se reconhece o autor.”, bem nos lembram os Espíritos. Pois bem, neste Universo devassado por nossos telescópios mais poderosos, do qual ainda sabemos muito pouco, é o verdadeiro livro das virtudes de Deus. Deus não pode ser um beduíno do deserto, não pode se comportar com as nossas fraquezas e mesquinharias, pois a sua obra espalhada pelo Cosmos nos atestam a sua infinita sabedoria e poder; uma natureza muito maior do que as nossas especulações infantis. O que representa uma pequena nota dissonante nessa sinfonia incalculável de sóis, supernovas, buracos negros e galáxias? O Arquiteto Supremo, o Criador Incriado é passível de se ofender conosco a ponto de amaldiçoar toda a raça humana? A sua ira é tão terrível que somente o sangue no altar, ou a crucificação de um justo é capaz de serená-lo? Elevemos o olhar para muito além do nosso horizonte. Deus é maior! Seguindo a máxima de que uma imagem vale mais do que mil palavras, vamos admirar o livro da criação divina cujas páginas os antigos hebreus não podiam ler e aproveitar para refletirmos em qual livro Deus deixou escritos os seus atributos.     A Soteriologia Espírita Fizemos, abaixo, um resumo da explicação dada pelos Espíritos sobre a nossa origem, a causa de nossas aflições e o destino que nos aguarda. Algumas frases são transcrições literais do Mestre Lionês. Todas as afirmações abaixo podem ser consultadas nas obras de Allan Kardec, particularmente no item VI de “O Livro dos Espíritos” e no livreto “O Que é o Espiritismo”. Deus tem a sua perfeição proporcional à sua obra, que se caracteriza pela imensidão ilimitada no tempo e no espaço. Mas se Deus é perfeito, porque nós somos miseráveis em nossas virtudes, pródigos em nossas desgraças, escravos de nossos prazeres e vítimas de nossas dores? Se Deus é justo, porque tantas diferenças visíveis desde o berço sem que a nossa vontade possa afastar o golpe do destino? Deus é tão grande que não nos enxerga e não ouve os nossos apelos? Qual a razão da vida que nem sempre é resultado de nossos melhores esforços? Os questionamentos não são novos, mas em uma época da busca pela razão, somos muito mais exigentes nas respostas. Adão e Eva, serpente, paraíso, maldição, pecado, Satanás, ira divina, nada disso mais satisfaz a quem procura uma resposta além dos muros do dogma. Para esses o Espiritismo tem muito a dizer. O Espiritismo não se impõe a quem quer que seja; quer ser aceito livremente e por efeito de convicção. Expõe suas doutrinas e acolhe os que voluntariamente o procuram. Não cuida de afastar pessoa alguma das suas convicções religiosas; não se dirige aos que possuem uma fé e a quem essa fé basta; dirige-se aos que, insatisfeitos com o que se lhes dá, pedem alguma coisa melhor. O Espiritismo, que nada mais é do que a Doutrina formada do ensino concordante dos Espíritos, postula que Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom, e que criou o Universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, visíveis e invisíveis. Os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo, e os seres imateriais, o mundo invisível ou espírita, isto é, dos Espíritos. Todos somos criados simples e ignorantes, adquirindo inteligência, gostos e tendências de acordo com as escolhas feitas, conforme vamos evoluindo e passando por diversas experiências. Os Espíritos revestem temporariamente um invólucro material perecível, cuja destruição pela morte lhes restitui a liberdade. Deixando o corpo, a alma volve ao mundo dos Espíritos, donde saíra, para passar por nova existência material, após um lapso de tempo mais ou menos longo, durante o qual permanece em estado de Espírito errante, ou seja, sem morada fixa. Existem Espíritos de todas as espécies de inteligência e moralidade, da mesma forma que percebemos essas diferenças nas pessoas que habitam o nosso mundo. Contudo, os Espíritos não ocupam perpetuamente a mesma categoria. Todos se melhoram passando pelos diferentes graus da hierarquia espírita. Esta melhora se efetua por meio da encarnação, que é imposta a uns como expiação, a outros como missão. A vida material é uma prova que lhes cumpre sofrer repetidamente, ou seja, por várias reencarnações, até que hajam atingido a absoluta perfeição moral. As diferentes existências corpóreas do Espírito são sempre progressivas e nunca regressivas; mas, a rapidez do seu progresso depende dos esforços que faça para chegar à perfeição. As qualidades da alma são as do Espírito que está encarnado em nós; assim, o homem de bem é a encarnação de um bom Espírito, o homem perverso a de um Espírito impuro. O Espírito encarnado se acha sob a influência da matéria; o homem que vence esta influência, pela elevação e depuração de sua alma, se aproxima dos bons Espíritos. Aquele que se deixa dominar pelas más paixões, e põe todas as suas alegrias na satisfação dos apetites grosseiros, se aproxima dos Espíritos impuros, dando preponderância à sua natureza animal. Quem transgride a Lei de Deus são corrigidos através de novas existências, de forma a recomeçar o trabalho que negligenciaram, que nada mais é do que ser uma pessoa correta e caridosa, disposta a praticar ao bem e não se revoltar com as dificuldades que fazem parte da vida. Não existem faltas irremissíveis, que a expiação não possa apagar. Meio de consegui-lo encontra o homem nas diferentes existências que lhe permitem avançar, conforme os seus desejos e esforços, na senda do progresso, para a perfeição, que é o seu destino final. Portanto, o destino do homem está em suas mãos, sendo de sua responsabilidade os resultados que colhe na vida. Se não encontra causa de seus sofrimentos nesta vida, deverá suspeitar que a origem remonta a vidas anteriores. Assim, não existe injustiça, mas redenção em cada prova da vida. Mesmo a criança recém saída do útero materno, que nada fez nessa vida para vir com essa ou aquela deformidade, nascer nesse ou naquele ambiente, como Espírito imortal, viajante de muitas existências corporais, colhe hoje o que plantou no passado, e semeia hoje os frutos saborosos ou amargos do amanhã. Segundo o axioma “todo efeito tem uma causa”, as misérias da vida são efeitos que hão de ter uma causa e, desde que se admita um Deus justo, essa causa também há de ser justa. Ora, ao efeito precedendo sempre a causa, se esta não se encontra na vida atual, há de ser anterior a essa vida, isto é, há de estar numa existência precedente. Sem privilégios, sem maldições, sem injustiças, sem salvação pelo sacrifício de terceiros. Todos fomos criados com as mesmas possibilidades, todos escolhemos os nossos caminhos, todos somos responsáveis pelos nossos atos, todas temos as oportunidades inumeráveis de resgate, aprendizado e evolução. Sendo soberanamente justo, Deus tem de distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça. Mas, a encarnação para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório. E uma tarefa que Deus lhes impõe, quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo essa tarefa transpõem rapidamente e menos penosamente os primeiros graus da iniciação e mais cedo gozam do fruto de seus labores. Os que, ao contrário, usam mal da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua marcha e, talseja a obstinação que demonstrem, podem prolongar indefinidamente a necessidade da reencarnação e é quando se torna um castigo. Deus, através dos seus enviados e das pessoas com quem convivemos, nos ensina o bem e nos estimula ao progresso, cabendo a nós o mérito da vitória ou a responsabilidade do fracasso momentâneo. Nenhum dos seus filhos se perde, porque todos tem a eternidade como trunfo para a vitória. No nosso atual estágio evolutivo, não nos lembramos das vidas anteriores, porque essa lembrança mais atrapalharia do que nos auxiliaria em nossa tarefa. Como é comum reencarnarmos em grupos com quem temos uma história comum, o conhecimento público de nossas faltas seria motivo de vergonha e remorso; em outro sentido, os títulos de nobreza, os cargos de importância, os feitos grandiosos do passado nos eclipsariam a possibilidade de corrigir defeitos, modificar tendências, ter o benefício do anonimato para podermos desenvolver novos trabalhos sem desvios. Nascemos sem a memória do passado, que voltará em sua plenitude quando retornarmos ao nosso estado de Espíritos errantes, mas com a nossa personalidade, inteligência e índole incólumes, instrumentos necessários a nossa identidade enquanto indivíduos e ferramentas necessárias ao nosso progresso. Para nos melhorarmos, outorgou-nos Deus, precisamente, o de que necessitamos e nos basta: a voz da consciência e as tendências instintivas. Priva-nos do que nos seria prejudicial. Ao nascer, traz o homem consigo o que adquiriu, nasce qual se fez; em cada existência, tem um novo ponto de partida. Pouco lhe importa saber o que foi antes: se se vê punido, é que praticou o mal. Suas atuais tendências más indicam o que lhe resta a corrigir em si próprio e é nisso que deve concentrar-se toda a sua atenção, porquanto, daquilo de que se haja corrigido completamente, nenhum traço mais conservará. As boas resoluções que tomou são a voz da consciência, advertindo-o do que é bem e do que é mal e dando-lhe forças para resistir às tentações. Eis a soterologia espírita, que enaltece Deus em sua justiça e amor, que dignifica o homem enquanto ser dotado de livre-arbítrio e responsabilidade, e que nos dá a esperança de sempre continuarmos no caminho do bem, para que possamos, no menor espaço de tempo possível, estarmos face a face com o nosso Pai Celeste.   ,

* publicado originalmente em 18/01/2013 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

MPF-MG vai à Justiça pelo tombamento do patrimônio de Chico Xavier *

RISCO DE DESCARACTERIZAÇÃO

MPF-MG vai à Justiça pelo tombamento do patrimônio de Chico Xavier

Da Redação – 08/02/2012 – 10h16

O MPF-MG (Ministério Público Federal em Minas Gerais) ajuizou ação civil pública  na 1ª Vara Federal de Uberaba para obrigar a União, o estado de Minas Gerais e o município de Uberaba a realizarem o inventário e tombamento dos bens móveis e imóveis deixados pelo médium Chico Xavier.

 

Segundo a ação, apesar de reconhecer o expressivo valor histórico e cultural desse patrimônio brasileiro, o governo nada fez para conservá-los. “Mas, pelo contrário, permaneceram omissos e inertes, o que obrigou o MPF a pedir a intervenção judicial para conferir proteção constitucional aos bens”, diz ação.

O objetivo  do MPF é o de impedir a evasão, destruição e descaracterização do patrimônio deixado por Chico Xavier. O médium é considerado um dos maiores fenômenos religiosos de todos os tempos, e um dos mais importantes personagens brasileiros do século XX.

Chico Xavier nasceu em Pedro Leopoldo/MG, em 1910. Mudou-se em 1959 para Uberaba, no Triângulo Mineiro, onde viveu até a sua morte em 2002. Ele deixou mais de 400 livros psicografados. Estudiosos dizem que, dos 10 melhores livros espíritas do século XX, sete são da lavra do médium brasileiro, que doou os direitos autorais de todas as suas obras para organizações espíritas e instituições de caridade. Estima-se que foram vendidos mais de 50 milhões de livros em português, com traduções em várias línguas.

Sua devoção à caridade e ao próximo renderam-lhe a indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 1981, disputando a indicação com o Papa João Paulo II e o Escritório do Alto Comissariado da ONU para refugiados.

Valor material e imaterial

Para o MPF, é “inegável a importância de Chico Xavier para a cultura nacional, regional e municipal” e “chega a ser absurdo o fato de que todos os bens deixados pelo médium estejam completamente desprotegidos, sem qualquer medida de conservação, controle ou catalogação”, com grande parte deles exposta ao público de forma inapropriada.

A ação relata que, somente após intensa provocação do MPF, o imóvel, que é alvo de peregrinação por adeptos da doutrina espírita de todo o mundo, foi cadastrado como museu pelo Ibram (Instituto Brasileiro de Museus). Tal medida, no entanto, não levou a qualquer medida protetiva mais eficaz dos bens expostos à visitação pública.

“A casa de Chico Xavier é um museu particular, onde se encontram expostos livros, esculturas, imagens sacras, mobiliário, fotografias, roupas, documentos e inúmeros outros bens”, lembra a procuradora da República Raquel Silvestre.  “O problema é que essa exposição requer medidas técnicas especiais como identificação, catalogação, ambientação, ou seja, requer um projeto museográfico, o que nunca foi feito”.

Visita técnica feita por especialistas do IBRAM detectou que os bens não possuem qualquer tipo de instrumento de registro, controle e segurança. À exceção dos livros psicografados pelo médium, que apresentam etiquetas, não há nenhuma identificação dos demais itens expostos.

Para a procuradora, “fica evidente que esses bens de inestimável valor histórico e cultural não estão recebendo as medidas protetivas necessárias à sua conservação. Afinal, não se sabe ao certo nem o que de fato existe. Não há nenhuma forma de controle e, evidentemente, nessa situação, os bens podem facilmente se extraviar e deteriorar”.

O próprio imóvel que abriga o museu, a casa situada na Rua Dom Pedro I, 145, no Bairro Parque das Américas, onde Chico Xavier morou por mais de 30 anos, está passando por modificações de forma pouco técnica e respeitosa à cultura nacional.

“É evidente que a manutenção das características originais da edificação faz parte da própria história que se objetiva preservar. O visitante que procura a Casa de Chico Xavier quer encontrá-la em seu estado original, para conhecer o local onde o médium viveu. No entanto, estão sendo realizadas alterações estruturais no imóvel, sem qualquer auxílio de técnicas de preservação da identidade histórica e cultural do ambiente”, afirma a procuradora.

Ela explica que o tombamento é uma medida administrativa que impõe restrições aos bens particulares e públicos, com o intuito de preservá-los. Essas restrições consistem, por exemplo, na obrigatoriedade de conservação e de preservação das características originais. Mas não há qualquer ingerência na titularidade dos bens. “Ou seja, o atual proprietário dos bens deixados por Chico Xavier, Eurípedes Higino dos Reis, não tem com que se preocupar. O tombamento nada mais fará do que auxiliá-lo no controle e conservação dos bens, podendo trazer orientações técnicas e procedimentos adequados. Ele não perderá a propriedade de nenhum bem”, diz.
Número da ação: 0007942-75.2011.4.01.3802.

Fonte: site “Última Instância”

http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/54892/mpf-mg+vai+a+justica+pelo+tombamento+do+patrimonio+de+chico+xavier.shtml

 

* publicado originalmente em 08/02/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

O ESPIRITISMO É CRISTÃO?


por Jefferson
Quando se pergunta se o Espiritismo é cristão para um certo número de pessoas, existe uma grande possibilidade de se receber respostas divergentes. Um católico ou um evangélico (protestante) não terá dúvida de afirmar que não,   o Espiritismo não é cristão, e elencará uma série de fundamentos para tal.  Por outro lado, a mesma questão analisada por um espírita receberá uma resposta afirmativa – sim, o Espiritismo é cristão – e haverá, também, uma explicação bem embasada para a sua opinião. Portanto, a questão longe está de ter uma resposta conclusiva.
Se a pergunta fosse feita a mim, eu pediria para o interlocutor ser mais específico: cristão por qual critério? A depender do critério que se use para se definir o que é ser cristão, teremos uma resposta que inclui ou que exclui o Espiritismo do Cristianismo.
Para um religioso cristão, a exigência a ser cumprida, via de regra, será a aceitação incondicional do denominado Credo Niceno-Constantinopolitano que, como o nome já diz, foi definido no Concílio de Nicéia (325 d.C.) e ampliado no Concílio de Constantinopla (381 d.C.). Os concílios surgiram pela necessidade de unificar, entre os bispos cristãos, a doutrina a ser preservada pelas igrejas, aquela reconhecida como fiel à tradição apostólica e evangélica, e, por outro lado, quais as doutrinas que deviam ser combatidas por serem  distorções. Isso porque havia um embate sem-fim entre os religiosos sobre o entendimento do Cristianismo, principalmente sobre a natureza de Jesus Cristo, surgindo seitas com idéias muito particulares sobre quem teria sido o Mestre de Nazaré e como os fiéis deveriam vivenciar a mensagem dele.
Dessa forma, os bispos reunidos em grandes assembléias (conciliuns) definiram em que os fiéis deveriam acreditar, daí o nome “credo”, ou seja, “eu creio”. Era uma forma de declarar a sua fidelidade à Igreja (não confundir com a Igreja Católica Apostólica Romana).
Assim, ficou definido como cristão quem declarava a sua fé nos pontos capitais abaixo:
Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso,
Criador do céu e da terra,
de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo,
Filho Unigênito de Deus,
gerado do Pai antes de todos os séculos
Deus de Deus, Luz da luz,
verdadeiro Deus de verdadeiro Deus,
gerado, não feito,
da mesma substância do Pai.
Por Ele todas as coisas foram feitas.
E, por nós, homens,
e para a nossa salvação,
desceu dos céus:
Se encarnou pelo Espírito Santo,
no seio da Virgem Maria,
e se fez homem.
Também por nós foi crucificado
sob Pôncio Pilatos;
padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou dos mortos ao terceiro dia,
conforme as Escrituras;
E subiu aos céus,
onde está assentado à direita de Deus Pai.
Donde há de vir, em glória,
para julgar os vivos e os mortos;
e o Seu reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo,
Senhor e fonte de vida,
que procede do Pai (e do Filho);
e com o Pai e o Filho
é adorado e glorificado:
Ele falou pelos profetas.
Creio na Igreja
Una, Santa, Católica e Apostólica.
Confesso um só batismo para remissão dos pecados.
Espero a ressurreição dos mortos;
E a vida do mundo vindouro.
Amém.
(Fonte: Wikipedia)
* Católica significa “universal”, abrange todas as igrejas (romana, ortodoxa, etc.), não somente a Igreja Católica Apostólica Romana.
Estes foram os artigos de fé que definiram o que é ser cristão. Posteriormente, a Igreja Católica (Romana) reescreveu o Credo Niceno-Constantinopolitano em uma fórmula mais simples, chamada de “Símbolo dos Apóstolos”, pois, segundo a lenda, os seguidores diretos de Jesus teriam se reunido para definir os fundamentos da fé cristã, conforme exposto abaixo:
Símbolo dos ApóstolosCreio em Deus,
Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra;
e em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor,
que foi concebido pelo poder do Espírito Santo;
nasceu da Virgem Maria;
padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado;
desceu à mansão dos mortos;
ressuscitou ao terceiro dia;
subiu aos Céus,
onde está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,
de onde há-de vir a julgar os vivos e os mortos.Creio no Espírito Santo.
na santa Igreja Católica;
na comunhão dos Santos;
na remissão dos pecados;
na ressurreição da carne;
na vida eterna. Amen.
(Fonte: http://www.paroquias.org/oracoes/?o=7)

Assim, para os ortodoxos da fé, quem não reza por essa fórmula, não é cristão em comunhão com a Igreja, podendo ser um herege, um apóstata ou um cismático. Qual a diferença? O Código de Direito Canônico elucida:

O Código do Direito Canônico — legislação oficial da Igreja Católica — considera hereges os indivíduos batizados que negam de modo pertinaz verdades que a igreja ensina como reveladas por Deus. Define ainda como cismático o cristão que recusa a submissão à hierarquia eclesiástica e, direta ou indiretamente, ao papa. Qualifica, enfim, como apóstata aquele que renega totalmente sua fé.. (Fonte: Enciclopédia Barsa)

Portanto, se o critério para definir alguém como cristão for o Credo, os espíritas serão colocados do lado de fora do Cristianismo. Isso porque o denominado “Símbolo dos Apóstolos” não representa para os espíritas a doutrina deixada por Jesus.

Mas, então, por que os espíritas afirmam que o Espiritismo é cristão?

A base cristã que se abraça ao Espiritismo está nos Evangelhos, que representam a tradição daquilo que Jesus teria dito e feito em sua vida (lembrando: os evangelhos, no formato que conhecemos, começaram a ter a sua configuração final trinta ou quarenta anos após a morte de Jesus).

Esqueçamos um pouco o que os bispos definiram como ser cristão. A pergunta que devemos fazer é: qual o critério de Jesus para considerar alguém como seu seguidor? Afinal, seguidor de Cristo é cristão, certo? Vejamos o que nós encontramos na Boa Nova (em grego, evangelion):

Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estão à direita: – Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim. Perguntar-lhe-ão os justos: – Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar? Responderá o Rei: – Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: – Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes. Também estes lhe perguntarão: – Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos? E ele responderá: – Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer. E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna. (Mt 25, 31-46  – Bíblia Católica v.2.0).

Outra passagem é evangélica é mais intrigante e desafiadora

Em seguida, dirigiu-se a todos: Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me. (Lc 9, 23 – Bíblia Católica v.2.0).

Na primeria passagem, Jesus define como “benditos do meu Pai” todos aqueles que foram caridosos para o seu semelhante, sem exigir nenhum outro critério (batismo, confissão de fé, etc.). No segunda passagem, a de Lucas, adverte para os que pretendem ser os seus seguidores: negue a si mesmo (a prioridade está no Reino de Deus), tome a sua cruz (aceite a sua cota de rejeição do mundo por optar pelo Evangelho) e siga-o (siga o seu exemplo).

Como vemos, o critério de Jesus é muito mais abrangente do que o das igrejas. Qualquer pessoa que ame ao seu próximo, qualquer pessoa que lhe siga os passos com prioridade, que sacrifique o seu egoísmo, orgulho e vaidade para que a paz se faça, este é o verdadeiro seguidor do Rabi da Galiléia. Aliás, não só seguidor, mas familiar de Cristo:

Jesus falava ainda à multidão, quando veio sua mãe e seus irmãos e esperavam do lado de fora a ocasião de lhe falar. Disse-lhe alguém: Tua mãe e teus irmãos estão aí fora, e querem falar-te. Jesus respondeu-lhe: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, apontando com a mão para os seus discípulos, acrescentou: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe. (Mt 12, 46-50)

Algum concílio ecumênico teve o poder de revogar isto? Qual bispo, patriarca ou papa possui legitimidade para limitar onde Jesus ampliou?

Portanto, se o critério para se considerar alguém cristão for as palavras do próprio Cristo, o que nos parece mais acertado, os espíritas são tão membros da comunidade cristã como qualquer outro que atenda às suas exigências, independente de dogmas de fé criados pelos homens mais de trezentos anos após a sua morte.

Em resumo: para Jesus, não precisa nem acreditar em Cristo para ser cristão; ele quer é que os seus ensinamentos sejam vivenciados. O seu critério é único: fazer a vontade do Abba (“papai” em aramaico), que nada mais é do que a prática da lei do amor.