Arquivo da categoria: Primeiro Testamento

Reúne postagens sobre temas relacionados ao conteúdo do Primeiro Testamento, ou Antigo Testamento

Quem escreveu o pentateuco? O Caráter fragmentário dos textos bíblicos

QUEM ESCREVEU O PENTATEUCO? O CARÁTER FRAGMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
Iara Cecília Monteiro de Barros Almeida Paiva

Artigo científico apresentado à Universidade Cândido Mendes – UCAM como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Ciências da Religião
RESUMO
Este artigo tem por finalidade demonstrar por um minucioso exame do Pentateuco bíblico, utilizando métodos científicos, que a autoria dos livros atribuída a Moisés, conforme a tradição judaico-cristã, é equivocada. Os relatos fragmentados e muitas vezes incoerentes entre si apontam para uma autoria plural e diversificada. Há ainda o objetivo de verificar se é possível identificar os prováveis autores do texto. Neste caso, a proposta é dar exemplos de alguns trechos significativos atribuídos pela crítica literária bíblica, às tradições Javista, Eloísta, Deuteronomista e Sacerdotal, conforme proposta na hipótese documentária. A investigação verifica a possibilidade de haver glosas posteriores que modificaram ainda mais os textos das quatro tradições do Pentateuco. A metodologia utilizada no presente artigo é a revisão bibliográfica de produções literárias de renomados autores especialistas, ilustrada por exemplos de fragmentos discordantes do Pentateuco selecionados por mim, especialmente para este artigo.
Palavras-chave: Bíblia, Pentateuco, Javista, Eloísta, Deuteronomista, Sacerdotal.
Introdução
Este trabalho tem por finalidade principal demonstrar que há diferentes estratos de textos sobrepostos nos cinco primeiros livros da Bíblia e que isso indica a existência de autores diversos, que escreveram em épocas diferentes e com intenções variadas. Os autores bíblicos, quando se propuseram a documentar por escrito as leis de Deus, a história do povo e dos seus patriarcas, não estavam fazendo uma narrativa histórica, conforme os padrões atuais, mas escrevendo uma histórica religiosa que ajudou o povo judeu a construir sua identidade como nação. Durante muitos séculos, a tradição judaico-cristã atribuiu a autoria do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, a Moisés. A partir do final do século XVIII, a análise textual da Bíblia demonstrou que a autoria estava equivocada e que, na realidade, há vários autores, de variadas épocas envolvidos na redação do Pentateuco, conforme demonstram as várias narrativas duplicadas presentes nele. No século XIX, conforme afirma Armstrong (2008), os estudiosos da Crítica Superior, principalmente por influência de Julius Wellhausen, chegaram à conclusão de que há pelo menos quatro estratos diferentes de autores no Pentateuco, teoria que será denominada neste trabalho como hipótese documentária. Cada estrato do texto foi chamado de tradição, por ser fruto de mais de um autor com características e propósitos semelhantes provenientes de uma mesma cultura e região. Apesar de ter recebido inúmeras críticas, a hipótese documentária é amplamente utilizada pelos estudiosos bíblicos nas suas publicações sobre o assunto e nos comentários dos textos das Escrituras, como no caso da Bíblia de Jerusalém (2012) e da Bíblia de Tradução Ecumênica (2002) e pode ser demonstrada, em parte, com a utilização de extratos de trechos do próprio texto do Pentateuco. Este trabalho, ao trazer exemplos práticos de duplicatas e divergências textuais, visa facilitar a compreensão de que o Pentateuco não é uma narrativa linear, que há relatos mitológicos permeando os fatos históricos, que a tradição da autoria por Moisés é equivocada e que, apesar dos problemas encontrados, o Pentateuco não deixa de ser uma fonte fundamental para conhecer a cultura e a crença do povo hebreu, que originou o judaísmo e o cristianismo, religiões que fazem parte da base de grande parte da nossa cultura brasileira.
Desenvolvimento
O Pentateuco é a coleção dos cinco primeiros livros das Bíblias hebraica e cristã composta pelos livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.  O primeiro livro é o Gênesis, que conta a história das origens da humanidade, dos patriarcas Abraão, Isaac, Jacó e José, terminando com a divisão das doze tribos de Israel que estão na origem do povo judeu. O Êxodo narra o período em que os hebreus foram escravizados no Egito e como Moisés os libertou pela interseção de Iahweh, o Deus de Israel, abrindo o Mar Vermelho, conduzindo-os pelo deserto e entregando os mandamentos divinos inscritos nas Tábuas da Lei. O Levítico interrompe a narrativa para apresentar leis referentes principalmente ao sacerdócio, ritos e festas religiosas. O livro dos Números, continua a narrativa do deserto com o recenseamento do povo, o tempo passado no deserto e a partilha antecipada de Canaã. O Deuteronômio contém os últimos discursos de Moisés introduzindo novas leis e escolhendo Josué como seu sucessor.
Conforme explicado na Introdução ao Pentateuco da Bíblia de Jerusalém (BÍBLIA, 2012, p. 22), tradições antigas acreditavam que Moisés teria sido o redator do Pentateuco, ao menos parte dele. Esta ideia permanecia ainda na época imediatamente posterior a Jesus, conforme relatado na Epístola aos Romanos capítulo 10, versículo 5: “Moisés, com efeito, escreveu a respeito da justiça que provém da Lei: é cumprindo-a que o homem vive por ela” (BÍBLIA, 2012, p. 1983). Atualmente, ainda há quem acredite que Moisés foi o redator dos cinco primeiros livros da Bíblia, no entanto, muitos exegetas e a maioria dos historiadores concordam que os que pensam assim estão enganados.  Em primeiro lugar, encontramos no último capítulo do Deuteronômio o relato da morte de Moisés que não poderia ter sido escrito pelo próprio, por motivos óbvios. Há informações nos textos do Pentateuco que não condizem com a época em que ele viveu, como a consagração de casas e campos arados que são realidades posteriores à época em que os hebreus teriam vivido no deserto habitando tendas, demonstrando que os textos foram escritos muitos anos após a época de Moisés. Há, ainda, muitos indícios de que não houve um único autor para a totalidade do Pentateuco como demonstram os dois relatos independentes da criação que estão nos capítulos 1 e 2 do Gênesis (BÍBLIA, 2012, p. 33, 35). Outro exemplo interessante de ser analisado é o evento conhecido como êxodo, o tema principal dos quatro últimos livros do Pentateuco. O êxodo bíblico, ou seja, a saída do povo hebreu da escravidão do Egito em busca da Terra Prometida por Deus, Canaã, teria ocorrido por volta do ano 1250 a.C. (BÍBLIA, 2012, p. 2171) segundo a cronologia bíblica. No entanto, há muitas evidências de que o êxodo não é um episódio histórico e, portanto, não poderia ter sido documentado por Moisés ou qualquer outro personagem daquela época. Segundo Armstrong:
“[…]arqueólogos israelenses que vêm escavando a região desde 1967 não encontraram evidência alguma que corrobore essa história: não há sinal de invasão estrangeira ou destruição em massa, e nada que indique uma mudança em grande escala da população. O consenso entre os estudiosos é que a narrativa do Êxodo não é histórica. Há muitas teorias. O Egito dominara as cidades-estado cananeias desde o século XIX a.C., e havia se retirado no fim do século XIII, pouco antes que as primeiras povoações aparecessem na região montanhosa até então inabitável. Ouvimos falar pela primeira vez num povo chamado “Israel” nessa região por volta de 1200 a.C. Alguns estudiosos afirmam que os israelitas eram refugiados das cidades-estado em declínio nas planícies costeiras. Talvez tenham se juntado a eles outras tribos vindas do sul, que levavam consigo seu deus Jeová, que parece ter tido origem nas regiões em torno do Sinai, ao sul. Os que haviam vivido sob o domínio egípcio “”nas cidades cananeias talvez tenham tido a impressão de que haviam sido libertados do Egito – mas em seu próprio país.” (ARMSTRONG, 2008, p.21)
O arqueólogo israelense, Finkelstein, acrescenta:
“No fundo, houve um movimento de pessoas dentro e fora do Egito no final da Idade do Bronze e da Idade do Ferro, e uma memória foi desenvolvida sobre um possível evento antigo, e depois essa memória ganhou importância e foi transmitida oralmente por várias gerações até que finalmente se tornou a história do Êxodo por escrito. Não estou dizendo que não há qualquer germe histórico nela. Você nunca vai me ver dizer isso. Mas eu não vejo isso como totalmente histórico também”. (FINKELSTEIN, 2010)
O caráter mitológico de algumas partes do Pentateuco já é admitido até mesmo pelo Papa Francisco, que, durante um discurso na Pontifícia Academia de Ciências em outubro de 2014, afirmou que “o Big Bang não contradiz a intervenção criadora, mas a exige” e acrescentou que “a evolução da natureza não é incompatível com a noção de criação, pois exige a criação de seres que evoluem”. O papa criticou ainda aqueles que leem o livro do Gênesis, que relata a origem do mundo, e pensam que Deus agiu como um mago. “Não é assim” (PAPA FRANCISCO, 2014). Desta forma, não há como sustentar a hipótese de Moisés ter relatado por escrito no Pentateuco os episódios exatamente como ocorreram, já que o texto bíblico não corresponde à realidade dos fatos. Armstrong (2008) nos conta que Baruch Spinoza (1632-77) foi um dos primeiros no estudo das origens históricas e dos gêneros literários da Bíblia, concordando que Moisés não poderia ter escrito todo o Pentateuco e afirmando que o texto era obra de diversos autores, sendo o pioneiro do método histórico-crítico que ficaria conhecido como Crítica Superior da Bíblia. No final do século XVIII, Jean Astruc (1684 – 1766) e Johann GottfriedEichorn (1752 – 1827)  afirmaram que havia dois documentos no Gênesis: o Javista e o Eloísta, que denominavam seus deuses respectivamente de Javé (Iahweh) e Elohim. No século XIX, já se sabia que havia quatro fontes independentes no Penteteuco e em 1805, De Wette afirmou que o Deuteronômio era provavelmente o livro encontrado no Templo de Jerusalém, durante a reforma do Rei Josias (622 a.C.). Karl Graf (1815-69) afirmou que o documento mais recente era o correspondente à tradição Sacerdotal. Julius Wellhausen (1844-1918) consolidou a hipótese documentária de quatro fontes: Javista (J), Eloísta (E), Deuteronomista (D) e Sacerdotal (P), mas também afirmou que há estratos oriundos de acréscimos posteriores.
Conforme a pesquisa avançava, consolidou-se a versão de que há ao menos quatro tradições intrincadas no Pentateuco (JEDP), no entanto, verificou-se que era bastante difícil separar, exatamente, cada camada dos estratos das diferentes tradições. Mesmo assim, com base no conhecimento de cada tradição e suas características principais, alguns exemplos mais representativos podem ser elencados. A tradição Javista (J), proveniente do Reino de Judá, ao sul, apresenta um Deus (Iahweh) antropomórfico, conforme encontramos nos relatos do segundo capítulo  do Gênesis, onde Deus passeia pelo Jardim do Éden. Em outras partes ele fecha a Arca de Noé (BÍBLIA, 2012, p. 44) e enterra Moisés (BÍBLIA, 2012, p. 305). A tradição Eloísta (E), proveniente do Reino de Israel, ao norte, denomina Deus como Elohim. Esta divindade já é mais transcendente e não convive diretamente com os humanos, enviando anjos como seus mensageiros e representantes. Um exemplo é encontrado no capítulo 23 do Êxodo, no qual Deus envia um anjo, que representa seu nome, para conduzir o povo até Canaã. Acredita-se que as narrativas javistas e eloístas tenham sido reunidas após a destruição do Reino de Israel pelos Assírios (734 a.C.), provocando a migração dos povos do norte para Judá, ao sul, que levaram com eles as suas tradições específicas. A tradição Deuteronomista (D) foi iniciada pela descoberta de um texto atribuído à Moisés, durante a reforma do Templo de Jerusalém, no século VII a.C. realizada pelo Rei Josias. O texto provavelmente foi produzido naquela época para satisfazer os desejos de reforma do culto, conforme nos explica Armstrong (2008, p.27). “A Lei era tão nova, que quando Josias a ouviu, rasgou suas vestes em desespero e buscou colocá-la imediatamente em prática” (BÍBLIA, 2012, p. 539).

Um exemplo desta tradição é o código de leis encontrado no capítulo 12 do Deuteronômio. A tradição Sacerdotal (P) foi composta durante e logo após o exílio dos judeus na Babilônia, provocado pela invasão e destruição de Jerusalém por Nabucodonosor (597 a.C.). Um exemplo de texto sacerdotal é o relato da criação que teria sido realizado por Deus, em seis dias, encontrado no primeiro capítulo do Gênesis. Os livros Levítico e Números são outros exemplos. Há muitos outros textos de autoria sacerdotal mesclados com textos mais antigos de tradições javista e eloísta, formando uma “colcha de retalhos” principalmente nos livros Gênesis e Êxodo. Após a conclusão do texto do Pentateuco, com a combinação das quatro tradições, outras inserções foram acrescentadas posteriormente. Encontramos no
livro de Neemias o relato do sacerdote Esdras (398 a.C.), enviado do Rei Persa, lendo e explicando a Lei ao povo que chorava copiosamente por não estar cumprindo as prescrições, demonstrando que o que Esdras leu era provavelmente desconhecido do senso comum e deve ter sido incorporado posteriormente ao Pentateuco (BÍBLIA, 2012, p. 649). Além deste exemplo, encontramos outras evidências de acréscimos posteriores.  Um provável adendo é demonstrado pela discrepância que encontramos no relato javista da adoração do Bezerro de Ouro pelo povo, enquanto Moisés recebia as Leis na montanha, contido no capítulo 32 do Êxodo. Moisés suplicou para que Deus não punisse o povo, no que foi atendido. Entretanto, apenas alguns versículos à frente, Moisés ordenou a execução de três mil homens que haviam sido infieis a Deus por adorarem o ídolo de ouro. Este último trecho pode ter sido uma interpolação posterior realizada por um escriba que, indignado, achou que aqueles que idolatraram outros deuses deviam ser punidos, pensamento típico do monoteísmo estrito que tornou-se comum apenas vários anos após o retorno do exílio, quando as quatro tradições já estavam consolidadas. Podemos demonstrar vários exemplos da fragmentação do texto bíblico, oriundos das muitas camadas, dos diversos autores do Pentateuco. Os dez mandamentos, conhecidos como Decálogo, base das leis judaicas e cristãs, não faziam parte do texto original no local onde hoje se encontram. O texto imediatamente anterior diz: “Desceu pois Moisés até o povo e disse…” (Ex 19: 25) e permanece sem conclusão, pois, logo em seguida começa o trecho do Decálogo que diz que o próprio Deus o pronunciou (BÍBLIA, 2012, p. 130). Aliás, não há concordância em relação à quem pronunciou a Lei. Foi o próprio  Iahweh que pronunciou o Decálogo como no capítulo 20 do Êxodo, ou foi Moisés conforme o capítulo 24?  Quem escreveu a Lei e onde? Foi Moisés que escreveu no Livro da Aliança, como no capítulo  24, versículos 4 a 7 do Êxodo? Ou foi o próprio Iahweh que escreveu nas Tábuas do Testemunho, como no capítulo 31, versículo 18 do Êxodo?  Quem poderia subir o Monte Sinai para conversar com Deus e receber suas instruções? No Êxodo capítulo 19, versículo 24, apenas Moisés e Aarão eram permitidos. No capítulo 24, versículo 9, encontramos o seguinte relato: “E Moisés, Aarão, Nadab, Abiú e os setenta anciãos de Israel subiram. Eles viram o Deus de Israel” (BÍBLIA, 2012, p.137). A contradição é evidente com o relato do capítulo 20 em que nem Moisés poderia ver a face de Deus, porque isso provocaria a morte de qualquer ser humano (BÍBLIA, 2012, p. 151). Até mesmo o shabat, que “é a principal contribuição original da cultura judaica para a civilização humana” (SORJ, 2009, p. 27, tradução nossa), tem variações quanto ao motivo pelo qual deve ser um dia de repouso e consagração à Deus. Na tradição mais antiga, Javista, expressa em Êxodo capítulo 23, versículo 12, o motivo do shabat, é o descanso dos animais,  das crianças e dos estrangeiros. Segundo Armstrong:
No Deuteronômio, o Shabat surge para proporcionar um dia de folga a todos, até mesmo aos escravos, e para fazer os israelitas lembrarem o Êxodo. Em P, adquire um novo significado: torna-se um ato de imitação de Deus e uma comemoração da criação do mundo. Ao observar o repouso do Shabat, os judeus participavam de um ritual que, na origem, só deus observara: era uma tentativa simbólica de viver a vida divina (ARMSTRONG, 2012, p. 88).
Além dos exemplos dos diversos estratos que por vezes se contradizem, há também outros que demonstram que o texto não foi escrito em um contexto de um povo nômade passando por décadas no deserto. Encontramos no Código da Aliança, em Êxodo capítulo 20, prescrições quanto ao rebanho, plantações e escravos hebreus. Um povo que acabou de escapar da escravidão faria leis regulamentando escravos entre seu próprio povo? Se eles eram nômades em um ambiente desértico teriam prescrições quanto à colheita? E o que dizer da lei que prevê punição para um ladrão surpreendido arrombando um muro para roubar gado em uma sociedade em que todos habitavam tendas? (BÍBLIA, 2012, p. 133). É evidente que o texto reflete uma realidade de um povo estabelecido em Canaã a um tempo suficiente para construir muros de pedra, ter grandes plantações e diversos animais, demonstrando uma redação tardia do relato. Moisés, segundo a narrativa do Deuteronômio, não entrou na Terra Prometida, Canaã, morrendo em sua fronteira. Não faz sentido atribuir a ele este texto. Há ainda muitos outros exemplos que servem para ilustrar o quão fragmentário, divergente e mitológico é o Pentateuco bíblico, basta examinar minuciosamente e com isenção seus diversos textos.
Conclusão
Os diversos estratos do texto do Pentateuco, apresentando muitas vezes ideias divergentes e impossíveis de serem conciliadas, quando submetidos a um exame acurado, não permitem que afirmemos a hipótese de Moisés como único autor. O trecho em que o Deuteronômio relata a própria morte de seu protagonista e temas encontrados ao longo do texto que não condizem com a realidade de nômades no deserto comprovam que a autoria do Pentateuco atribuída a Moisés não se sustenta quando se utilizam métodos científicos.  Os relatos que compõem o Pentateuco foram transmitidos oralmente por muitos anos, permeando fatos históricos com mitos de formação do povo judeu. A tradição escrita foi iniciada, provavelmente, apenas a partir do século VIII a.C. (ARMSTRONG, 2008) e a partir de então vários autores, em épocas diferentes, contribuíram para dar a forma atual que o Pentateuco apresenta. Isso sem contar com as possíveis diferenças atribuídas às diversas traduções pelas quais o texto passou durante milênios. A hipótese documentária, que atribui a redação do Pentateuco não a um autor, mas a vários autores denominados tradições Javista, Eloísta, Deuteronomista e Sacerdotal, possui evidências consideráveis, conforme aqui exemplificados. Ainda assim, é muito difícil determinar quando se inicia uma tradição e termina a outra. Há que se considerar que interpolações tardias ou pertencentes a outras tradições certamente ocorreram. O fato de estar demonstrado que o Pentateuco não pode ser considerado historicamente preciso, de que há trechos baseados em mitos e personagens que provavelmente nem existiram é importante para o conhecimento daqueles que consultam a Bíblia em busca do que realmente ocorreu na história do povo hebreu. Não podemos aceitar, cientificamente, que a Bíblia é expressão de verdades incontestáveis. Outrossim, ela é uma das fontes mais importantes para conhecer a religião judaica e cristã e para compreender a cultura que permeia a nossa sociedade.  O caráter sagrado do Pentateuco permanece, até hoje, para muitas pessoas e deve ser respeitado e valorizado. Mas para nós, que pretendemos estudar as Escrituras pelo viés científico, é importante lembrarmos que a Bíblia é um livro de história religiosa  e assim deve ser utilizado e compreendido por especialistas em Ciências da Religião.

REFERÊNCIAS
ARMSTRONG, Karen. A Bíblia, uma biografia. Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.
__________________. Uma história de Deus. Quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo. Tradução Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. Nova edição, revista e ampliada. 8 impressão. São Paulo: Editora Paulus, 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia tradução ecumênica. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. Tradução Tuca Magalhães. São Paulo: A Girafa Editora, 2003.
FINKELSTEIN, Israel. The devil is not so black as he is paintead. Biblical Archaelogy Review, v. 36, n. 3, may/june 2010. Tradução disponível em: http://numinosumteologia.blogspot.com.br/2010/04/entrevista-com-israelfinkelstein.html. Acesso em: 25/03/2017.
Papa Francisco diz que Big Bang e teoria da evolução não contradizem a lei cristã. Disponível em: http://g1.globo.com/ciencia-e-aude/noticia/2014/10/papa-diz-que-bigbang-e-teoria-da-evolucao-nao-contradizem-lei-crista.html. Acesso em: 25/03/2017.
SORJ, Bernardo. Judaísmo para todos. Buenos Aires, Argentina: Siglo XXI Editora Iberoamericana, 2009.

Satanás no Antigo Testamento

Iara Paiva

A história do povo hebreu é permeada de guerras e conflitos, seculares e religiosos. Na busca de se estabelecer como nação e povo escolhido por Deus, a religiosidade, presente em todos os aspectos do cotidiano dos hebreus, influenciou a maneira como foram retratados seus inimigos, sendo estes vinculados a figuras mitológicas representativas do mal.

Alguns dos profetas, alegando inspiração divina, utilizaram figuras da mitologia cananeia como símbolo dos inimigos de Israel como em Isaías 27:1: “Naquele dia, punirá Iahweh, com sua espada dura, grande e forte, Leviatã, serpente escorregadia, Leviatã, serpente tortuosa, matará o monstro que habita no mar”. Se o inimigo era temível, Iahweh era implacável.

A partir do século IV aEC, imagens mitológicas começaram a ser associadas aos inimigos internos de Israel, porém, a figura não era mais monstruosa e sim um membro importante da corte divina conhecido por Satanás.

Na Bíblia Hebraica, Satanás não é o líder dos demônios, personificação do mal como o conhecemos na atualidade. Em sua estreia nas escrituras ele não é inimigo de Deus, tampouco maligno em sua essência.

No livro de Jó, Satanás é um ser angélico, membro da corte celeste, servo de Deus. A palavra grega, angelos, que originou o vocábulo anjo e que foi traduzida do termo hebraico malak, tem o significado de mensageiro. Anjos eram também conhecidos como filhos de Deus. Por sua vez, o termo hebraico satanás, significa adversário e não era inicialmente um personagem específico. Sua conduta era de um ser sobrenatural enviado por Deus para obstruir a atividade humana. O termo grego diabolos, que originaria o termo diabo, significa apenas “ alguém que atira algo no caminho”. Esse personagem era enviado, assim como o anjo da morte, em missões que muitas vezes não eram agradáveis aos humanos, porém necessárias.

A história de Balaão, no livro dos Números, é um exemplo interessante da atuação satânica para mudar os planos humanos visando uma ordem divina. Balaão desobedeceu às ordens de Iahweh, que enviou um anjo com uma espada para lhe barrar a passagem. A jumenta de Balaão, vendo o anjo, desviou do caminho. Para obrigá-la a permanecer no caminho ele espancou a jumenta, que continuou tentando desviar do anjo. A cena da punição do animal se repetiu três vezes. Por fim, a jumenta falou reclamando do tratamento recebido (animais falantes são parte da tradição javista, como a serpente do Éden) e o Anjo de Iahweh se revelou explicando que se a jumenta não tivesse desviado do caminho, ele já teria sido morto. Balaão concordou em obedecer aos desígnios divinos a partir deste incidente. A ação do mensageiro teve um caráter disciplinante. (Números 22: 22-35)

1

No livro de Jó, escrito por volta de 550 aEC, satanás não teve um caráter protetor, chegando o Senhor a admitir que satanás o incitou a ir contra Jó. No capítulo primeiro, o autor narra uma reunião da corte celestial. Os filhos de Deus (anjos) apresentam-se a Iahweh, inclusive Satã, que havia chegado de uma volta pela Terra. Iahweh perguntou se ele viu seu servo Jó, que seria o mais íntegro e reto temente a Deus. Satã replicou que Jó só era temente a Deus porque fora abençoado com muitas posses e que se perdesse tudo o que possuía blasfemaria contra Deus. Iahweh permitiu, então, que Satã tirasse tudo de Jó, mas que não lhe fizesse mal diretamente. Por meio da intervenção satânica, Jó perdeu seu rebanho, seus filhos e todos os seus bens, mas ainda assim continuou fiel. Satã pediu permissão para endurecer a prova lhe enviando uma moléstia de pele. Jó suportou o sofrimento e Deus lhe restituiu o dobro do que tinha e nova descendência. Este final insinua o início de uma tendência que se fortaleceria com a literatura escatológica, de que, apesar da ação satânica, ao final Deus sempre vence.

2

Por volta da época em que foi escrito o Livro de Jó, o autor do Livro 1 Crônicas utilizaria novamente a figura de Satanás, desta vez para justificar um ato indesejado ordenado pelo Rei Davi. Ao ordenar o recenseamento para instituir o sistema tributário, Joab, seu principal comandante tentou convencê-lo de que a medida seria impopular, “causa de pecado a Israel”. Davi, porém, foi irredutível e o senso foi realizado. Para condenar o ato sem tampouco comprometer o Rei, o cronista atribuiu o feito à influência de Satanás: “Satã levantou-se contra Israel e induziu Davi a fazer o recenseamento de Israel”. (1 Crônicas 21: 1)

Interessante que o mesmo fato é narrado em 2 Samuel 24: 1, porém a responsabilidade por incitar o rei é atribuída à ira de Iahweh sobre Israel. Podemos ver que prejudicar os humanos não era prerrogativa apenas de Satã e as ações de Deus e de Satanás eram por vezes tão semelhantes que se confundiam entre si.

Apesar de ter sido influenciado, segundo 2 Samuel pelo próprio Iahweh, Davi se arrependeu e pediu perdão a Iahweh que, por intermédio do profeta Gad, propôs que o rei escolhesse a penitência entre três opções: sete ou três anos de fome (os relatos são diferentes em 2 Samuel e 1Crônicas), três meses de derrota fugindo do adversário na guerra ou três dias de peste. Davi escolheu a última e setenta mil homens de Israel morreram pela espada do anjo divino. Satã provocou um recenseamento, Iahweh ordenou o extermínio de setenta mil.

Aos poucos foi se firmando a ideia de que Satanás não era apenas um agente divino, mas um adversário de Iahweh e de Israel, conforme demonstra a narrativa do profeta Zacarias 3: 1-2: “Ele me fez ver Josué, sumo sacerdote, que estava de pé diante do Anjo de Iahweh, e Satã, que estava de pé à sua direita para acusá-lo. O Anjo de Iahweh disse a Satã. “Que Iahweh te reprima Satã, reprima-te Iahweh, que elegeu Jerusalém”.

A narrativa de Zacarias tem como contexto os conflitos gerados entre os que retornaram da Babilônia após o término do exílio (538 a EC) e aqueles que permaneceram em Jerusalém. O profeta tomou o partido dos que retornavam e associou Satanás aos habitantes identificados como inimigos que, tendo permanecido na cidade, não aceitavam Josué como sumo sacerdote.

A nova perspectiva de Satanás, que passa de um servo de Deus a seu opositor, deve-se em grande parte à influência do zoroastrismo, religião persa com a qual os judeus tiveram contato durante o período de exílio na Babilônia. Zoroastro acreditava que a guerra na Terra refletia a guerra no céu. Sua doutrina dualista colocava em oposição os deuses Ahura Mazda, representante do bem, e Ahriman, do mal. Ao retornar para Jerusalém, os exilados adaptaram ao monoteísmo judaico a ideia dos deuses Ahura Mazda e Ahriman associando-os respectivamente a Iahweh e Satã. Durante o longo período em que permaneceram exilados, a sensação de terem sido abandonados por Deus provocou questionamentos sobre os motivos das desgraças que recaíram sobre o povo eleito. A ideia de uma potência celeste em oposição a Iahweh atuando na Terra fazia todo sentido para explicar a situação pela qual estavam passando.

Para espanto de muitos, a menção a Satanás no Antigo Testamento é rara. A figura maligna e poderosa que conhecemos hoje como Diabo ganhará importância nos escritos apócrifos judaicos, que surgiram após as dissidências entre os judeus depois da revolta de Judas Macabeu em 167 aEC, e principalmente na literatura cristã. A luta entre o bem e o mal tomará proporções cósmicas na literatura apocalíptica que será abordada em texto posterior.

Bibliografia:

Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada, 8ª reimpressão, São Paulo: Editora Paulus, 2012.

BOWKER, John (org). O livro de ouro das religiões. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

PAGELS, Elaine. As origens de satanás; tradução Ruy Jungman, 2ªedição, Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.

A Travessia do Mar Vermelho por Ron Wyatt *

Por Jefferson

Existe uma apresentação em power point que é muito difundida na internet, contendo fotos que provariam o êxodo hebreu descrito na Bíblia como fato histórico. São vários slides com fotos da praia de Nuweiba, no Golgo de Ácaba, fotos de rodas de charretes utilizadas pela cavalaria egípcia e ossadas humanas submersas no Mar Vermelho, etc. As referidas “descobertas” são fruto de um trabalho “investigativo” do Sr. Ron Wyatt, enfermeiro anestesista, arqueólogo amador, já falecido (1999), que afirmou ter descoberto a arca de Noé, provas do Êxodo e a arca da aliança (segundo ele, debaixo da cruz onde Cristo foi martirizado). O Sr. Wyatt era obcecado em obter provas arqueológicas dos eventos bíblicos. Suas “descobertas” foram profundamente criticadas no meio científico. Atualmente, o seu trabalho é divulgado pelo Sr. Randall Osborn, evangélico e carpinteiro em acabamentos, que veio a Brasília em 2010 para divulgar as ditas “descobertas”. A apresentação de slides se encerra com o dizer: “É difícil dizer mas a tendência predominante da mídia anti-Deus é não retratar estes fatos verdadeiros na luz da fé. Preferem ser céticos e duvidar da veracidade de tais provas arqueológicas e a historicidade das narrações bíblicas, um dos livros de história mais acurados do mundo.” Em uma época de profundo avanço científico e de rigor acadêmico, muito natural que a história mais importante da Bíblia Hebraica recebesse a tentativa de legitimidade nas universidades e academias. Contudo, pesquisadores não se contentam com boa-vontade e fé, mas com fatos comprovados. Não basta gritar “Deus disse…”; os cientistas querem saber onde Ele escreveu e se o documento tem firma reconhecida. Em entrevista à Revista Adventista (mar/2009), o especialista em Arqueologia Bíblica Dr. Rodrigo Silva, com o título “O Êxodo Que Não Existiu”,  analisou as tais evidências de Wyatt. Eis aqui alguns trechos da matéria: “Por mais de uma vez tive [diz Rodrigo] a oportunidade de visitar, com a equipe arqueológica da Universidade Andrews, os locais a que Wyatt faz referência. Coletamos dados, fizemos análises, entrevistas, etc. e, depois de tudo isso, posso afirmar, sem temor de erro, que essas descobertas são completamente falsas.” “[Wyatt] sustentava que o Golfo de Áqaba, perto de Nuweiba, seria o local da travessia dos hebreus. Ali, num trabalho arqueológico submarino, Wyatt disse ter encontrado ossos humanos e rodas das carruagens de faraó cobertas de corais…” Quanto as fotos das rodas do fundo do oceano, assim o Dr, Rodrigo afirma: “O que Wyatt não contou”, diz Rodrigo, “é que os egípcios tinham dois tipos de carruagem: uma para a guerra, com aro sêxtuplo (…) e uma para passeios ocasionais, a quádrupla, que ele disse ter encontrado. Se a dita roda fotografada por Wyatt fosse mesmo autêntica, teríamos de perguntar por que faraó teria usado carruagens de passeio para perseguir o povo hebreu e deixado em casa as carruagens de guerra?” Segundo a revista:  “As peças fotografadas por Wyatt provavelmente provieram de navios cargueiros que afundaram na região entre 1869 e 1981. A cidade de Hurghada, no norte do Mar Morto, chega a abrigar um sítio turístico para mergulhadores que desejam ver destroços de navios naufragados ali.” E Rodrigo conclui: “Não acreditemos apressadamente em tudo o que se diz na internet, nem propaguemos o boato através de e-mails do tipo FWD. A descoberta de uma fraude pode colocar em descrétido a verdadeira mensagem que devemos comunicar”. Fonte: http://www.criacionismo.com.br/2009/03/boataria-internetica.html

Para subsidiar o presente artigo, transcrevemos matéria publicada no sítio eletrônico Portal G1, da Globo.com:

“Moisés pode não ter existido, sugere pesquisa arqueológica Escavações e inscrições mostram que povo de Israel se originou dentro da Palestina. História sobre libertação do Egito teria influência de interesses políticos posteriores. Reinaldo José Lopes

Do G1, em São Paulo

Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP), resume a situação: “O Moisés da Bíblia é claramente ‘construído’. Pode até ter existido um Moisés lá no passado que inspirou o dos textos, mas nada sabemos dele com segurança. Nas minhas aulas de história de Israel, começo com geografia e passo para as origens de Israel em Canaã [antigo nome da Palestina], não trato mais de patriarcas e nem do Êxodo”. Data-Limite Os pesquisadores dispõem há muitos anos do que parece ser a data-limite para o fim do Êxodo. Trata-se de uma estela (uma espécie de coluna de pedra) erigida pelo faraó Merneptah pouco antes do ano 1200 a.C. A chamada estela de Merneptah registra uma série de supostas vitórias do soberano egípcio sobre territórios vizinhos, entre eles os de Canaã. E o povo de Moisés é mencionado laconicamente: “Israel está destruído, sua semente não existe mais”. Não se diz quem liderava Israel nem que regiões eram abrangidas por seu território. Trata-se da mais antiga menção aos ancestrais dos judeus fora da Bíblia. Por algum tempo, arqueólogos e historiadores acharam que haviam identificado evidências em favor dos elementos básicos dessa trama. É que, por volta do ano 1700 a.C., a região da foz do Nilo foi dominada pelos chamados hicsos, uma dinastia de soberanos originários de Canaã e de etnia semita, tal como os israelitas. (O nome “Jacó”, muito comum na época, está até registrado entre nobres hicsos.) Pouco mais de um século mais tarde, os egípcios expulsaram a dinastia estrangeira de suas terras. Isso mataria dois coelhos com uma cajadada só. Explicaria a ascensão meteórica de José na burocracia egípcia, graças à proximidade étnica com os hicsos, e também por que seus descendentes foram escravizados — eles teriam sido associados à ocupação estrangeira no Egito. Os textos egípcios também não falam em nenhum momento da fuga liderada por Moisés, se é que ela ocorreu. “Isso é um problema grave. O argumento de que os egípcios não registravam derrotas é falso: a saída de um pequeno grupo nem era um revés, e eles relatavam derrotas sim, mesmo quando diziam que tinha sido um empate”, afirma Airton José da Silva. Apiru = hebreus? Para Milton Schwantes, professor da  Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, outro problema com a ligação entre os israelitas e os hicsos é dar ao Êxodo uma dimensão muito mais grandiosa do que seria razoável esperar do evento. “É uma cena de pequeno porte — estamos falando de grupos minoritários, de 150 pessoas fugindo pelo deserto. Em vez do exército egípcio inteiro perseguindo essa meia dúzia de pobres e sendo engolido pelo mar, o que houve foram uns três cavalos afundando na lama”, brinca Schwantes. Ele é menos pessimista em relação aos possíveis elementos de verdade histórica na narrativa do Êxodo. Os israelitas são freqüentemente chamados de “hebreus” nesse livro da Bíblia, uma mistura de nomenclaturas que deixou os estudiosos com a pulga atrás da orelha. Documentos do Oriente Médio datados (grosso modo) entre 2000 a.C. e 1200 a.C., porém, falam doshabiru ou apiru — grupos que parecem ter vivido às margens da sociedade, atuando como trabalhadores migrantes, escravos, mercenários ou guerrilheiros. “Ou seja, os hebreus talvez não fossem um grupo étnico, mas uma categoria social, de pessoas que muitas vezes eram forçadas a participar de grandes construções no Egito, sem receber o necessário para o seu sustento”, afirma Schwantes. Ele também vê sinais de memórias históricas antigas nos nomes de algumas cidades egípcias mencionadas na narrativa do Êxodo — lugares que foram ocupados por um período relativamente curto de tempo, por volta de 1200 a.C. “O próprio nome de Moisés é um nome egípcio que os israelitas não entenderam”, diz Schwantes. Parece ser a terminação “-mses” presente em nomes de faraós como Ramsés e quer dizer “nascido de” algum deus — no caso de Ramsés, “nascido do deus Rá”. No caso do líder dos israelitas, falta a parte do nome referente ao deus. Mar: Vermelho ou de Caniços? O momento mais famoso da saída dos israelitas do Egito é o confronto entre Moisés e o exército egípcio no Mar Vermelho, quando, por ordem de Deus, o profeta abre as águas para seu povo passar e as fecha para engolir os homens do faraó. No entanto, é possível que a história original tenha se referido não a águas oceânicas, mas a um pântano. Explica-se: o sentido original do hebraico Yam Suph, normalmente traduzido como “Mar Vermelho”, parece ser “Mar de Caniços”, ou seja, uma área cheia dessas plantas típicas de regiões lacustres. Assim, nas versões originais da lenda, afirmam estudiosos do texto bíblico, os “carros e cavaleiros” do Egito teriam ficado presos na lama de um grande pântano, enquanto os fugitivos conseguiam escapar. Conforme a tradição oral sobre o evento se expandia, os acontecimentos milagrosos envolvendo a abertura de um mar de verdade foram sendo adicionados à história. O dado mais importante sobre a dimensão real do Êxodo, no entanto, talvez venha da Palestina. Israel Finkelstein, arqueólogo da Universidade de Tel-Aviv, em Israel, conta que uma série de novos assentamentos associados às antigas cidades israelitas aparecem na Palestina por volta da mesma época em que a estela de Merneptah foi erigida. Acontece que a cultura material — o tipo de construções, utensílios de cerâmica etc. — desses “israelitas” é idêntica à que já existia em Canaã antes de esses assentamentos surgirem. Tudo indica, portanto, que eles seriam colonos nativos da região, e não vindos de fora. Para Finkelstein, isso significa que a história do Êxodo foi redigida bem mais tarde, por volta do século 7 a.C. O confronto com o Egito teria sido usado como forma de marcar a independência dos israelitas em relação aos vizinhos, que estavam tentando restabelecer seu domínio na Palestina. A figura de Moisés, talvez um herói quase mítico já nessa época, teria sido incorporada a essa versão da origem da nação.”

Fonte: Portal G1 do sítio Globo.com http://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL418821-9982,00.html

Portanto, na falta de evidências confiáveis, e de subsídios secundários que corroborem o relato bíblico, o espírita sério deve ser contido em seu entusiasmo bíblico, evitando de replicar e-mails que, depois, se mostram sem credibilidade. Nunca nos esqueçamos desta máxima espírita: “Fé inabalável só  o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.” ( Allan Kardec – Ev. Segdo. o Espiritismo – Cap. XIX, item 7).

 

* publicado originalmente em 10/02/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br