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Jesus Histórico – um estudo relativo *

Por Jefferson



Recebemos e-mail do nosso amigo e aluno do Curso Cristianismo e Espiritismo, Adolfo Simon, com a seguinte indagação aqui transcrita:

Caros Douglas e Jefferson.

Desculpem-me por fugir do texto primoroso sobre mitos, mas não sei exatamente onde “conversar” com voces sobre o tema Jesus Histórico, que é realmente muito interessante e o tempo da aula acaba ficando exíguo para satisfazer a ânsia dos alunos em perguntar ou comentar o que foi apreendido a partir dos textos e da aula. Nesse sentido, estou fazendo este post, na esperança de que um de vocês tenha tempo para comentar e corrigir eventuais distorções da minha compreensão a respeito do assunto.

Entendi, a partir do texto do Roberto Pompeu de Toledo, na Veja de 1992, das suas respostas às perguntas que estavam no blog e da entrevista com o professor Gabriele Cornelli, que talvez nunca possamos remontar de maneira completa o “Jesus real” e que o Jesus que emerge das pesquisas históricas – o “Jesus histórico”, a partir da análise não contaminada pelo sectarismo religioso dos evangelhos canônicos, dos manuscritos do Mar Morto e de outras pesquisas arqueológicas, ambientando adequadamente a sua figura à época, local e circunstâncias em que Ele viveu, esclarece muito melhor o que Jesus não pode ter sido, desmontando um pouco do imaginário de cada um, mas também com discordâncias entre os historiadores, demonstrando que as conclusões que conduzem à hipótese de quem era Jesus – o Jesus Histórico, se apoiam ainda muito em achados fragmentados, que levam a inferências em sequência e, como consequência inevitável, conclusões diferentes nos detalhes, como é o caso da educação e das condições socioeconômicas da família de José, do tempo de pregação, do convívio ou não com determinada seita e outros que a minha ignorância não permitiu captar.

Não faz sentido, no momento, comentar a respeito da transformação de Jesus em Cristo e Deus (a terceira das “personalidades de Jesus”, fora o Jesus individual), mas seu exemplo e seu Evangelho, a “Boa Notícia” que nos deixou, moldou o pensamento ocidental a partir dessa transformação, apesar das deformações que a institucionalização causou, a partir do século IV DC. Estou errado nesta conclusão?

O problema que surge é de credibilidade. Será que tudo o que foi comentado dos Evangelhos, com suas falhas históricas, sua autoria contestável e a época real de suas redações comprometem o conteúdo como um todo? Acredito (opinião pessoal) que se separarmos adequadamente o anúncio da figura de Jesus Cristo – a publicidade que permitiu sua penetração no mundo romano, dos ensinamentos morais e do estabelecimento definitivo do conceito de vida no mundo espiritual, o problema se resolve.
Não foi mais ou menos isso que Kardec fez, ao elaborar o Evangelho Segundo o Espiritismo?
Um abraço,
Adolfo Simon

 

Com a sua autorização, reproduzimos aqui a nossa resposta.
 
Oi Adolfo, feliz Páscoa para você e os seus!
 
Obrigado pela postagem e vou tentar responder dentro daquilo que estudei.
 
A pesquisa sobre Jesus histórico é uma pesquisa em andamento. Ainda não está concluída. Assim, temos muitas coisas ainda a serem resolvidas, principalmente quanto a detalhes, pois as linhas gerais estão pacificadas. 
 
O ícone da “terceira busca” – John Dominic Crossan – afirma algo que deve ser motivo de reflexão para nós:
 
“É impossível evitar a desconfiança de que a pesquisa do Jesus histórico é um campo em que se pode fazer teologia e chamá-la de história, ou então fazer autobiografia e chamá-la de biografia, sem correr grandes riscos.” (CROSSAN, 1994, p. 27).
Feita esta observação, sigamos.
 
Existem discordâncias entre pesquisadores sobre o objeto de estudo em questão, mas isso ocorre em relação a vários outros personagens históricos, inclusive personagens muito bem documentados e mais recentes, como Napoleão Bonaparte, Hitler e Getúlio Vargas.
 
No caso de uma figura central de uma das maiores religiões do planeta, com recursos parcos de documentação, não há como afastar o caráter ideológico, consciente ou inconsciente, dessas pesquisas. Ninguém será isento em área nenhuma do conhecimento, muito menos quando o assunto é Jesus Cristo. Um historiador ateu, outro cristão, outro espírita, outro judeu, etc., terão visões de Jesus mais ou menos contaminadas por suas crenças. São seres humanos e a sua ciência será fruto de sua humanidade.
 
Mesmo assim, com todos os avanços metodológicos e técnicos, o cerco em torno de um conhecimento ideológico tem se fechado cada vez mais. Cada tese, cada artigo é muito avaliado e discutido entre pares do meio acadêmico. As reputações de teóricos estão cada vez mais estão em xeque. As discordâncias ficaram menos marcantes e se atêm cada vez mais aos detalhes nem sempre relevantes.
 
Portanto, existem hipóteses muito robustas nas linhas gerais, como Jesus ter nascido em Nazaré, ser de família campesina pobre, de ter vivido em um mundo de mentalidade apocalíptica, etc. Casado ou solteiro, letrado ou analfabeto, mono ou poliglota, isso são detalhes que não tem a importância de afastá-lo do mundo conturbado e profundamente religioso em que vivia.
 
Portanto, muito temos a compreender Jesus de Nazaré através dos estudos de Jesus histórico. Para nós espíritas, o desafio é grande, pois temos médiuns e mentores – a quem reverenciamos – que estão com muitas de suas informações refutadas por esses estudos. Um espírito pode contradizer um pesquisador, sem problemas. Agora, e quando o espírito é desacreditado por um achado arqueológico? Também nisso os estudos sobre Jesus histórico nos prestam um grande favor, pois a nossa premissa é de que a verdadeira fé é aquela que pode enfrentar a razão em todas as épocas . 
 
Quando à credibilidade dos evangelhos, vale à pena ler a referência que faço no texto enviado ontem (Aula 06- Jesus, o início) sobre a “New Quest” com Käsemann, que reproduzo abaixo: 
 
“Sem dúvida, os textos canônicos do Segundo Testamento são querigmáticos, mas não se pode simplesmente negar a existência de um teor histórico nas narrativas, e sim mudar abordagem metodológica. Para Käsemann, a fé pascal faz parte de uma tradição querigmática que também inclui aspectos do Jesus encarnado.” (p. 5)
 
Em outras palavras, temos uma tela branca de fatos históricos pintadas pelas cores fortes do anúncio (kerigma) de Cristo ressuscitado. As cores estão sobre uma tela real, a busca por Jesus histórico é ver a tela apesar da pintura vibrante.
 
A parte moral dos evangelhos é muito importante, mas não devemos subestimar o poder da verdade histórica, ainda que envolta em discussões infindáveis. Lembremos que o antissemitismo e tudo que ele resultou, o ódio aos homossexuais, a categorização inferior da mulher, etc.,  foi resultado da falta da crítica histórica dos textos canônicos.
 
Assim, o aspecto moral continua irresistível e tem atrevessado os séculos, mas o bisturi do método crítico-histórico se faz necessário para estirparmos os tumores que justificam as injustiças em nome de Cristo.
 
Espero ter contribuído.
 
Amigo Douglas, caso queira complementar ou divergir em algo, fique à vontade.
 
Um abraço – Jefferson
 
Como o assunto é de interesse de todos que frequentam o curso, pedimos a autorização do Adolfo para publicar os seus comentários e a resposta respectiva.
 

 

CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico: a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Tradução de André Cardoso. Rio de Janeiro : Imago E., 1994.

 

 

* publicado originalmente em 01/04/2013 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/

Jesus Histórico em Perguntas e Respostas *

Por Jefferson


O que significa a expressão “Jesus histórico”?

Jesus histórico, que tem a imagem construída com base nos estudos feitos da Palestina do século I. É totalmente hipotético. Personagem construído na visão de como uma pessoa daquela época, influenciada dessa ou daquela forma, vivendo nesse ou naquele cenário, viveria. Não se confunde com o indivíduo Jesus de Nazaré, que se vivesse hoje, teria identidade e CPF, que somente sabemos que foi batizado por João Batista, pregou na Galiléia e foi crucificado em Jerusalém. Também não se confunde com o Cristo, o Jesus da fé, a segunda pessoa da Trindade cristã.

Jesus histórico é o Jesus historicamente possível de se estudar.

Jesus existiu?

Sim, os evangelhos e as cartas paulinas atestam a existência de Jesus de Nazaré e não podem ser desprezados como documentos baseados em fatos reais, ainda que exista uma forte carga teológica neles. Além disso, fontes pagãs posteriores, como Flávio Josefo, Tácito e Plínio, o Moço, atestam a sua existência e do início do movimento cristão.

Quando Jesus nasceu?

Uma coisa é certa: ele não nasceu no dia 25 de dezembro. E a razão é simples. Esta data coincide com o solstício de inverno do Hemisfério Norte, quando uma série de festas pagãs, muito anteriores ao nascimento de Cristo, já aconteciam em homenagem a divindades ligadas ao Sol e a outros astros. Ao que tudo indica, o dia foi adotado pelos católicos primitivos na esperança de cristianizar uma festa pagã.

Além disso, Jesus nasceu antes de Cristo 6 ou 4 anos. A contagem cristã baseou-se nos cálculos do monge Dionísio, o Pequeno, que calculou o nascimento com base na duração dos reinados da Antiguidade, errando por 6 anos.

Jesus nasceu em Belém ou Nazaré?

Ignora-se por que seus pais, Maria e José, que moravam em Nazaré, estariam em Belém no momento do parto. A explicação tradicional, encontrada no evangelho de Lucas, de que teriam retornado à cidade natal de José para um censo, esbarra na falta de registros de alguma grande convocação desse tipo nesses anos. Os romanos, que dominavam a região, faziam censos em seu império para recolher tributos – e a lógica sugere que eles registravam seus contribuintes nos locais em que trabalhavam e residiam.

Mateus opta pela residência de José e Maria em Belém e, após o seu retorno do Egito, foram morar em Nazaré a fim de não serem perseguidos pelos descendentes de Herodes, o Grande.

Ao que tudo indica, Lucas e Mateus teriam escolhido Belém como cidade natal de Jesus para que suas versões da vida de Cristo se alinhassem a uma profecia do Antigo Testamento, segundo a qual o Messias nasceria na Cidade do Rei Judeu, ou seja, a Cidade de Davi, que é Belém.

Nazaré era um vilarejo de trabalhadores rurais numa encosta de serra com, no máximo 1000 habitantes (outros estudiosos acreditam que não havia mais de 400 pessoas por lá). Segundo os arqueólogos, essa é a cidade onde Jesus nasceu. Nazaré é tão obscura que, fora dos evangelhos, não existe menção a ela na literatura da época, o que fez com que muitos autores questionassem a sua existência.

A gravidez extraordinária de Maria é um fato ou um mito?

O que se quer mostrar, evidentemente, é que o nascimento de Jesus ocorre a partir de uma intervenção direta de Deus. É uma idéia que aparece com freqüência no pensamento antigo. Não só heróis mitológicos, mas também grandes personagens históricos têm seu nascimento associado a uma divindade. Os faraós do Egito eram considerados filhos de Amon-Ra, o deus Sol. E a mãe de Alexandre, o Grande (356 a.C.-323 a.C.), estava convencida e convenceu o filho de que ele era descendente de Zeus, o deus supremo da mitologia grega.

Por que os evangelhos quase não falam do pai de Jesus?

Os evangelhos também falam pouco da Maria, mãe de Jesus. Ela aparece quando destaca algo que Jesus protagoniza. O mesmo acontece com José. No início da vida pública de Jesus, José não aparece por não ser importante ou por já estar falecido naquela época.

Quem e quantos foram os Reis Magos?

Se realmente existiram, os Reis Magos não eram reis e provavelmente não seguiram estrela nenhuma. O único registro dessas figuras nos evangelhos canônicos, ou oficiais, está em Mateus, que fala dos magos do Oriente e de uma estrela seguida por eles. Mas a menção não diz quantos eram os visitantes nem se eram, de fato, reis. “Como esses magos trouxeram três presentes, supõe-se que eram três reis”. Convencionou-se chamar os visitantes de Melchior, rei da Pérsia, Gaspar, rei da Índia, e Baltazar, rei da Arábia. Também ficou estabelecido que eles teriam trazido incenso, ouro e mirra como presentes ao recém-nascido.

O que era a estrela de Belém?

Não se sabe ao certo, e existe uma forte desconfiança de que essa história veio como uma contestação ao título dado aos imperadores romanos de filhos de deus. Para os cristãos, havia somente um filho de Deus e este era Jesus Cristo. No início do reinado de Otávio, uma estrela brilhante foi vista nos céus de Roma. Segundo Suetônio, seria um cometa ou uma estrela cadente. Otávio, de forma inteligente, afirmou se tratar de Júlio César, seu tio assassinado no senado romano, que estava sendo conduzido aos céus para se juntar aos deuses. Dessa forma, Otávio Augusto estaria de forma legitima no poder, por ser herdeiro político de um deus. Utilizando dessa imagem, mandou cunhar moedas onde havia uma estrela e a inscrição Gaius Iulius Caesar Octavianus Augustus Divi filius (“Gaio Julio César Otávio Augusto, filho de deus).

Para os que acreditam que a história é verdadeira, existem hipóteses, mas nenhuma que possa se sobrepor as outras. Ela pode ter sido um cometa, uma supernova ou o alinhamento celeste de planetas, ou até mesmo um óvni. Como não se sabe ao certo o ano, mês e dia que Jesus nasceu, tudo fica no terreno das especulações.

Qual o idioma que Jesus falava?

O aramaico era a língua corrente na Palestina do século I e era a única que podemos afirmar, com certeza, que Jesus falava. O hebraico, língua morta na época de Jesus, usada apenas nos escritos sagrados do Judaísmo, e o grego, utilizado eventualmente no comércio daquela região, podem ter sido de seu conhecimento, mas é muito pouco provável que os dominava, uma vez que não existia uma preocupação de formação intelectual de crianças e jovens daquele tempo como existe hoje.

Jesus teve irmãos?

Para garantir o sustento, as famílias precisavam ter um número razoável de filhos que ajudassem no duro trabalho no campo. “É pouco provável que Jesus tenha sido filho único”, diz o historiador Gabriele Cornelli. “Assim como um menino de roça que vive em comunidades pobres no interior, ele deve ter crescido cercado de irmãos.” Mesmo pesquisadores católicos como o padre John P. Meier, autor dos quatro volumes da série Um Judeu Marginal, sobre o Jesus histórico, dizem que é praticamente insustentável o argumento de que, no Novo Testamento, “irmão” poderia significar “primo”. “A palavra grega adelphos, usada para designar irmão, deve ter sido usada no sentido literal”, diz Meier.

Os irmãos existiram e eram seis – quatro homens e duas mulheres –, identificados no Evangelho de Mateus (Mt 13, 55-56). No evangelho apócrifo de José fala-se que o pai de Jesus era viúvo quando se casou com Maria e que teria filhos do primeiro casamento. O rechaço da igreja à possibilidade da existência de irmãos de Jesus se explica. Se a teoria fosse verdadeira, iria contra um dos dogmas marianos segundo o qual a mãe de Jesus teria dado à luz virgem e assim permanecido até a assunção de seu corpo aos céus.

Jesus estudou?

Para Wagner Figueiredo, colunista do site Mistérios Antigos e autor de “Trilogia dos Guardiões – O Êxodo”, Jesus teve formação intelectual mais rica do que se supõe a partir dos evangelhos. “Era comum, na Antiguidade, que os mais ricos custeassem os estudos dos prodígios apresentados ao conselho do templo”, diz. “Podemos chamá-lo de um caipira antenado, que tinha sensibilidade suficiente tanto para dialogar com o povo quanto com a elite intelectual de sua época”, resume Paulo Augusto Nogueira, professor de teologia da Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo.

O pesquisador John Dominic Crossan acredita que Jesus, como 95% dos seus conterrâneos do século I era analfabeto. “Somente uma ínfima parcela da população que trabalhava para os governantes sabia ler e escrever”, diz Richard Horsley. “Não acredito que ele fizesse parte dessa parcela.” Então, como explicar o trecho do evangelho que o retrata lendo numa sinagoga? “A palavra ler no evangelho pode significar recitar”, diz Horsley. “O fato de Jesus não saber ler nem escrever não significa que ele não conhecesse os textos e as tradições judaicas.”

Qual profissão seguiu?

Nos evangelhos, José é apresentado como “tekton”, uma espécie de artesão que faria as vezes de um mestre de obras. Ele teria, portanto, as habilidades de um carpinteiro, mas não apenas. Jesus e José seriam uma espécie de faz-tudo. Faziam a fundação de uma casa, erguiam paredes como pedreiros e construíam portas como carpinteiros. É sabido também que tinham ovelhas e uma pequena plantação. Portanto, teriam algumas noções de pastoreio e agricultura.

Como era Jesus fisicamente?

A imagem de Cristo que se consagrou foi a de um tipo bem europeu: alto, branco, de olhos azuis, cabelos longos ondulados e barba. Mas são grandes as chances de que essa representação esteja errada. “É praticamente certo que ele não foi um homem alto, a julgar pelos objetos, como camas e portas, deixados por seus contemporâneos”, revela a socióloga e biblista Ana Flora Anderson.

A julgar pelos registros históricos que contam um pouco da vida na região em que Jesus nasceu e foi criado, o Messias deve ter sido um homem baixo, de pele morena e cabelos escuros e encaracolados (vide a reconstituição feita pelo médico especialista em reconstrução facial inglês Richard Neave, da Universidade de Manchester). Por ser um trabalhador braçal, tinha uma estrutura física bem desenvolvida.

Jesus foi tentado pelo demônio no deserto?

Que Jesus foi tentado no deserto, não há dúvida. O episódio é relatado por três evangelistas, Mateus, Marcos e Lucas, e citado pelo quarto, João. Líderes religiosos como Buda e Maomé também passaram por experiências de jejum, oração e tentação. O que se questiona é a natureza do demônio que se apresenta a ele. Seria ele o demônio feito homem ou apenas uma síntese simbólica das tentações às quais todos os seres humanos estão sujeitos? Para o padre Vicente André de Oliveira, mariólogo da Academia Marial de Tietê, no interior de São Paulo, a tentação do demônio é simbólica. “O deserto e o demônio são maneiras de ilustrar o encontro de Jesus com suas limitações como homem”, diz Oliveira.

Na Gênesis, de Allan Kardec, temos «Jesus não foi arrebatado. Ele apenas quis fazer que os homens compreendessem que a Humanidade se acha sujeita a falir e que deve estar sempre em guarda contra as más inspirações a que, pela sua natureza fraca, é

impelida a ceder. A tentação de Jesus é, pois, uma figura e fora preciso ser cego para tomá-la ao pé da letra. (Cap. XV Item 53.)

Jesus era um judeu milagreiro?

Judeus taumaturgos eram figuras muito comuns no tempo de Jesus: homens que circulavam pela Galiléia fazendo milagres como uma espécie de mágico. “Jesus pedia segredo dos milagres que fazia, não cobrava por eles e evitou fazer curas diante de quem tinha meios de recompensá-lo”, explica Rodrigo Pereira da Silva, professor de teologia do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp-EC). Segundo ele, os taumaturgos jamais agiriam dessa maneira. “Eles eram profissionais da cura. Jesus, não.” Outra diferença importante entre Jesus e os taumaturgos era que o Messias apresentava Deus de maneira acessível aos fiéis. Diferentemente dos taumaturgos, que valorizavam uma espécie de canal exclusivo que teriam com o divino para operar seus milagres, Jesus tentava ensinar as pessoas a cultivar o contato com Deus. E, assim, receber suas graças sem intermediários.

Jesus manteve um relacionamento amoroso com Maria Madalena?

Segundo o evangelho apócrifo de Filipe, Jesus e Maria Madalena teriam uma relação amorosa. Nele estaria escrito que Jesus beijava Maria Madalena na boca – afirmação contestada por uma corrente de tradutores. Ela, por sua vez, o compreendia melhor do que qualquer discípulo, o que gerava ciúmes entre os apóstolos. Mas trata-se de obra tardia escrita em uma época de conflitos entre a disputa de poder entre os que somente aceitavam a liderança masculina na igreja daqueles grupos que defendiam a liberdade de culto, principalmente pelos carismáticos. Não existe nenhuma indicação de valor que possa embasar um relacionamento amoroso ou carnal entre Jesus e Maria de Magdala.

A própria Maria Madalena, aliás, já foi erroneamente confundida com a “pecadora”, mencionada por Lucas, que teria lavado, enxugado com os cabelos, beijado e perfumado os pés de Jesus na casa de um fariseu. Não há evidência de que sejam a mesma pessoa. O que se diz de Maria Madalena em diversas passagens é que dela Jesus expulsou “sete demônios”, que estava presente entre as mulheres que acompanharam Jesus ao monte Calvário, onde foi executado, e que Jesus lhe apareceu e falou depois da ressurreição.

O que Jesus pregava?

Jesus anunciava uma nova ordem social, o Reino de Deus. Nessa nova ordem, os valores morais estariam acima das questões sociais e econômicas. Um reino de amor e justiça, onde os bons serão recompensados e os maus punidos.

A sua pregação é feita por analogias, por linguagem figurada conhecida como parábola, e por máximas morais, como as bem-aventuranças do chamado sermão do monte.

Fez muito sucesso por alcançar pessoas exploradas, abatidas, endividadas e muitas vezes doentes. Não poupava críticas àqueles que exploravam os irmãos de raça em nome do lucro, muitas vezes utilizando a religião como pretexto.

Quanto tempo durou a vida pública de Jesus?

Baseado no Evangelho de João, que faz menção a três Páscoas celebradas por Jesus e seus discípulos, os estudiosos entendem que a sua vida pública durou três anos. Outros autores acreditam que durou algo entre um ano, um ano e meio. Não mais do que isso.

Por que Jesus foi condenado?

Segundo o que se conclui dos evangelhos, Jesus provocou a elite judaica da Palestina, o que gerou temor da classe dirigente de Jerusalém, que tinham muito a perder em termos de poder e fortuna com uma revolução popular.

Jesus provocou ao entrar como o mashiak (messias, ungido) judeu anunciado pelos profetas e, principalmente, ao atacar o sistema de exploração econômica instalado no templo de Jerusalém.

Os romanos executariam Jesus sem pestanejar, como fizeram com centenas de outros rebeldes da Palestina. Ao entregarem Jesus para Pôncio Pilatos, o destino de Jesus estava selado.

Com que idade Jesus morreu?

O ano certo, portanto, dificilmente será conhecido, mas sabe-se, com uma margem mínima de dúvida, que foi entre os anos 29 d.C. e 37 d.C., época em que Pilatos foi prefeito da Judéia. Assumindo que Jesus nasceu entre 6 d.C. e 4 d.C., ele teria morrido com a idade mínima de 33 e máxima de 43 anos.

Como era a crucificação?

No mundo greco-romano, não havia desonra maior do que a morte sem sepultura. Um corpo exposto ao tempo, aos olhares de estranhos, às feras e às aves era um insulto público, e significava também a destruição da identidade – um fim sem epitáfio e portanto sem posteridade, uma preocupação suprema da Antiguidade. Por isso, para acrescentar injúria à tortura, os romanos crucificavam os escravos desobedientes e os presos políticos. Mesmo após o condenado expirar, os soldados continuavam a montar guarda: baixar um morto da cruz era um privilégio que exigia súplica, influência ou propina, ou todas as três coisas. Não é de estranhar que, dentre os milhares de pessoas que se calcula terem sido crucificadas nos arredores de Jerusalém durante o domínio romano, um único esqueleto tenha sido encontrado – o de um judeu de seus 20 anos de idade chamado Yehohanan, filho de Hagkol, como consta da inscrição em seu ossuário.

A análise da ossada de Yehohanan, localizada em 1968, revela que suas mãos não foram pregadas à cruz: provavelmente, seus braços foram amarrados à trave, enquanto seus pés foram dispostos lateralmente à viga e atravessados por trás, na altura do calcanhar, por um pino de ferro. Como o pino entortou, não foi possível despregar o pé direito de Yehohanan, e sua família teve de enterrá-lo com um pedaço da cruz preso ao osso. Na suposição de o jovem judeu preservado no ossuário servir de modelo para a morte de Jesus Cristo – e ele é o único de que se dispõe –, ele levanta duas questões relevantes. A primeira é que é, sim, possível que Jesus tenha ganho uma sepultura, apesar de não ser esse o costume. A outra é que, se as mãos e os pés de Jesus não foram perfurados por cravos, as chagas com que ele é descrito nos Evangelhos e habitualmente representado não correspondem aos seus ferimentos reais. Essas são meras suposições, claro, e é quase certo que nunca será possível prová-las ou desprová-las.

Jesus ressuscitou?

Esta é uma questão de fé, e não de História, pois esta não tem como provar se Jesus ressuscitou de carne e osso, se ressuscitou com um corpo celeste, na terminologia do apóstolo Paulo de Tarso, se apareceu aos seus seguidores com um ser “sobrenatural” ou se foi tirado da cruz e abandonado pelos romanos numa cova rasa tapada com cal e areia, como afirma um dos maiores especialistas do tema John Dominic Crossan. Por ser um artigo de fé, está fora análise acadêmica.

Fazendo uma análise dos escritos mais antigos do Novo Testamento, parece que existe uma crença de Jesus aparecido, em Paulo; um Jesus desaparecido no túmulo, em Marcos; um Jesus ressuscitado diferente de quando vivo, em Mateus e Lucas, e um Jesus que come peixes no Evangelho de João, o mais tardio.

O fato é que a crença na ressurreição foi a grande mensagem do Cristianismo Primitivo que, 3 séculos após o nascimento de Pregador da Galiléia, conquistou o Império dos Césares.

Quem escreveu os evangelhos? E quando?

Não sabemos. Antes do 2º século essas narrativas não ostentavam os nomes de seus autores. A autoria de cada livro foi dada por tradição e de forma tardia. Da mesma forma, existe uma quase unanimidade entre os pesquisadores de que os evangelhos não começaram a serem escritos antes do ano 70, após a destruição de Jerusalém pelos romanos. Os evangelhos surgiram como uma necessidade de preservar a memória da primeira geração de cristãos e de apaziguar diversas crises que essas primeiras comunidades cristãs estavam vivenciando. Provavelmente cada evangelho teve uma redação primitiva que foi sofrendo alterações até a sua redação final.

Os textos seguem o gênero literário conhecido por midrash. Basicamente, o midrash é um forma de contar a história da vida de alguém usando como pano de fundo a biografia de outras personalidades históricas. Mateus e Lucas colocam Jesus em Belém, por exemplo, para associá-lo ao rei Davi do Antigo Testamento – que, segundo a tradição, teria nascido lá.

 

Fontes:

– A busca pelo Jesus da História, artigo de Isabela Boscov, Ed. Abril, Revista Veja, Edição 1884, 15/dez/04.

– Esse Homem Chamado Jesus, artigo de José Tadeu Arantes, Ed. Abril, Revista Superinteressante, Edição 4, jan/88.

– A Face Humana de Jesus, artigo de João Loes, Ed. Três, Revista Isto É, Edição 2094, 23/dez/09.

– As Faces de Jesus, artigo de Isabela Boscov, Ed. Abril,Revista Veja, Edição 1783, 25/dez/02.

– Jesus da História, artigo de José Pompeu de Toledo, Ed. Abril, Revista Veja, Edição 1257 . 23/12/92.

– Quem foi Jesus?, artigo de Rodrigo Cavalcante, Ed. Abril, Revista Superinteressante, Edição 183, dez/2002.

– A Verdadeira História do Natal, artigo de Thiago Minami e Alexandre Versignassi, Editora Abril, Revista Superinteressante, Edição 233, dez/2006.

[1] Os textos foram, em sua maior parte, retirados das revistas citadas nas fontes desse artigo, sendo alguns textuais. Não existe a preocupação com os rigores acadêmicos, tratando-se de simples “copia e cola” de diversas reportagens sobre Jesus Histórico, amplamente divulgadas pela imprensa pátria. Em alguns casos, enriquecemos a resposta com o conhecimento adquirido em nossos estudos, procurando evitar abordagens com viés teológico por parte de determinados autores. Os textos, não obstante não pertencerem aos ciclos acadêmicos, estão em concordância com o que pesquisadores renomados, como J. Dominic Crossan, J. P. Meier, Barth Ehrman, Geza Vermes e outros, tem tratado o tema.

 

* publicado originalmente em 02/04/2012 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

A quarta hipótese *

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Por Douglas

 

Vem do famoso escritor, filósofo e literato C.S Lewis a máxima cristã de que somente três hipóteses explicariam Jesus ao mundo:

A)    Jesus era um mentiroso;

B)    Jesus era um louco megalomaníaco;

C)    Jesus era Deus.

Curioso e precioso este jeito de raciocinar. O bom irlandês, um dos mais famosos convertidos ao Cristianismo do século XX, julgou sintetizar nessas três premissas todas as possibilidades interpretativas que rondavam a figura de Jesus de Nazaré, conclamando seus ouvintes e leitores a um compromisso de razoabilidade.

C.S. Lewis

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 Senão, vejamos: poderia um mentiroso, um impostor, um embusteiro ter colocado na mente e no coração de seus discípulos, muitos deles não o tendo conhecido pessoalmente, alguns deles homens letrados e versáteis de seu tempo, a força para enfrentar as duras perseguições que eles teriam de lidar por esposar suas peculiares crenças, dando voluntariamente sua vida para defender a fé nesse mesmo Mestre da Galiléia? É de bom senso que não, afinal, todas as tentativas nesse sentido por pessoas com esse perfil enganador cedo ou tarde eram desmascaradas, ainda que pela força da História pesquisada. E mesmo essa reconhece em Jesus o quesito seriedade e compromisso com sua própria fé propagada.

Que dizer então da hipótese megalomaníaca? Esse jovem hebreu acreditava ser ele mesmo um com seu Pai Celestial, portanto, ele mesmo Deus, mas no fim não passava de um rapaz exaltado – mas de bom coração – que acabou crendo em suas próprias imagens mentais distorcidas. É essa, de certo modo, a posição do pesquisador francês do final do século XIX, Ernest Renan em seu livro “A vida de Jesus”: um bom homem com algumas boas idéias no lugar errado e com a disposição psicológica errada. Ora, o Cristianismo tradicionalmente irá afirmar, não sem um sorriso de misericórdia, que o raciocínio do parágrafo acima desabona isso. Se ele era louco, era de uma loucura mais sábia do que a dos homens, uma santa loucura que, ao inspirá-los, mostrava muito mais sua marca divina do que mórbida. Uma loucura dotada de uma moral irreprochável e já apresentada por grandes filósofos gregos, tais como Sócrates, Platão e Aristóteles. Contudo, uma moral que, muito mais do que psicologicamente refinada, ia ao âmago dos sofrimentos humanos para lhe apresentar um bálsamo que dificilmente os filósofos de antanho conseguiriam igualar. Logo, a hipótese não se sustenta.

Só restaria então uma alternativa: Jesus de Nazaré é aquilo que ele alegadamente afirmou o ser: Deus, filho de Deus, o Pai e ele mesmo um só com seu Pai Celestial. Pois apenas Deus encarnado conseguiria personificar a síntese excelente de qualidades que Jesus o fez. Vencido por essa razoabilidade rigorosa e tão simples, Lewis se quedaria emocionado ao estudo e meditação do Evangelho desse mesmo Jesus, se tornando um dos mais respeitáveis divulgadores do mesmo em um continente arrasado por duas Guerras Mundiais e por um ambiente acadêmico de profundo ceticismo para com estas questões.

Imaginam nossos irmãos católicos e protestantes que a questão aí estaria encerrada. Supõem que a inexpugnabilidade do argumento de Lewis, constantemente ressuscitada por pregadores de diferente jaez, seja ela mesmo inatacável e ponto final. Contudo, não se pode concordar com essa visão posto que ela mesma traz os limites interpretativos que mostram por quê não se pode endossá-la. Vejamos como:

Usualmente o que não se consegue perceber é que por traz desse raciocínio circular se esconde uma premissa básica: Podemos saber com segurança o que Jesus pensava e dizia, pesquisando o confiável exemplar dos Evangelhos em nossas Bíblias. Ali estão as palavras de Jesus, fielmente passadas para todos por uma ininterrupta cadeia de copistas e tradutores que, com mínimas e insignificantes diferenças, irão permitir que todos os que queiram, no século XXI, saber o que esse Jesus dizia assim o façam.

E ali nesses Evangelhos, especialmente no Evangelho segundo João, há uma série de afirmações de Jesus que corroboram ser ele Deus, filho de Deus Pai, um só com Deus, Filho Primogênito e Unigênito, isto é, o Primeiro e o Único.

Sendo assim, certos de que essas coisas tenham sido ditas por Ele, basta que nos posicionemos quanto a uma das três hipóteses de Lewis e então teremos um resultado seguro: a confirmação da divindade do Rabi da Galiléia. Mas, será mesmo?

Daí é que vem nossa quarta e fundamental hipótese: Jesus nunca disse que era Deus. Isso é um choque para muitos, uma vez que, acostumados com uma atmosfera cultural onde a divindade de Jesus sempre era repetida e reafirmada como fato dado e inquestionável, a afirmação contrária parece então uma tolice ingênua.

Ousamos portanto repetir: Jesus nunca disse que era Deus. E mais ainda: A Bíblia, livro que merece todo o nosso carinho, respeito, consideração e pesquisa, não é um livro infalível, um guia absoluto sem erros sobre as palavras, os ensinos e os pensamentos de Jesus. Não, não o é.

Vamos então colocar nosso pensamento de outra maneira: uma vez que o respeitável livro conhecido como Bíblia Sagrada não é um guia sem erros do que Jesus disse e foi, colocando na boca de Jesus coisas que ele não afirmou, pode-se concluir que não, ele jamais afirmou ser Deus.

Mas alguém poderia com muita justeza perguntar: Que provas se têm disso? Falar é fácil. Prove!

Pois muito bem, quem apresenta essas provas não somos nós, mas um conjunto muito grande de pesquisadores de História do Cristianismo Primitivo, de sociólogos, antropólogos e mesmo teólogos que, se desdobrando sobre os mais antigos manuscritos disponíveis do Novo Testamento, comparando informações lingüísticas, de época, de geografia, de costumes, de dados informativos arqueológicos e literários, de doutrinas teológicas presentes na época, nos mostram, com um grau muito grande de precisão, o que não se pode afirmar sobre a época e, em contrapartida, o que se pode afirmar.

Um pequeno artigo informativo como esse não pode apresentar esses detalhes todos, mas pode indicar onde procurar. Autores como John Dominic Crossan, Geza Vermes, Bart Ehrmann, Elaine Pagels e Karen Armstrong, com livros disponíveis em português, são um excelente começo. Ali estão apresentações sistematizadas que evidenciam largamente nosso ponto de vista. Nosso estímulo é: leia-os e estude-os. E isso é apenas um começo.

Todavia, podemos elencar aqui algumas das conclusões de um gigantesco número de estudiosos representados pelos autores acima. São elas:

A)    Os Evangelhos foram escritos muito tempo depois de Jesus ter sido morto, datando o mais antigo deles, o Evangelho segundo Marcos, de aproximadamente 50 anos da morte do Rabi da Galiléia. Os Evangelhos segundo Mateus e Lucas cerca de 70 anos e o Evangelho segundo João, quase cem anos após o decesso do Mestre;

B)    Nos chamados Evangelhos Sinóticos – Mateus, Marcos e Lucas – não há referências específicas sobre a Deidade de Jesus, ainda que neles ele seja apresentado como um ser humano que efetivamente demonstrava uma relação de intimidade com o Pai, Deus, considerado como Pai de todos nós e não especificamente dele, Jesus;

C)    O Evangelho segundo João, provavelmente escrito por um judeu convertido ao Cristianismo oriundo de Alexandria, uma das principais capitais intelectuais do Império Romano naqueles dias, reflete uma teologia cristã que não era unanimemente aceita por todos os cristãos deste período, atribuindo a Jesus falas e diálogos elaborados que muito mais refletem a crença do autor do texto do que de fato o que Jesus pregou, máxime no que concerne a sua própria pessoa;

D)    É historicamente possível traçar as sucessivas visões que se tinham de Jesus, desde os primeiros anos do Cristianismo nascente até a declaração final de sua co-Divindade com Yahweh, o Pai, no concílio de Nicéia em 325 da Era Comum, mostrando um espectro de entendimentos sobre a figura do Rabi da Galiléia que vai desde um ser humano comum que é escolhido como profeta e messias – ungido salvador dos hebreus e eventualmente de toda a humanidade – passando por um ser de Luz oriundo de uma elaborada hierarquia celestial, até se chegar à idéia de Deidade Absoluta que se tornaria, com o passar dos séculos e muitas disputas, a idéia vencedora no seio da cristandade;

E)     Os posteriores acréscimos teológicos que remeteriam à Deidade de Jesus foram sendo paulatinamente incorporados aos textos evangélicos ou mesmo desenvolvidos neles – como é o caso do Evangelho segundo João – na medida em que os cristãos confrontavam suas crenças com as de outras religiões e com filosofias que muito empolgavam as mentes intelectuais do primeiro e segundo século da Era Comum. Sendo assim, tópicos como a ressurreição em carne e sangue, a virgindade de Maria quando concebe Jesus, a morte sacrificial e ressurreição de um deus – ou de Deus – bem como outros ensinos e os correspondentes ritos cristãos oriundos disso eram uma elaboração responsiva à mitologia dos povos e grupos a quem se pregava o Evangelho – boa notícia em grego – profundamente tocados por ensinos dos Mistérios Dionisíacos, Dos Mistérios de Isis, dos Mistérios Mitraicos, da Gnose e da associação interpretativa genial dos textos sagrados hebraico-aramaicos com os de filosofia feitos por um contemporâneo judeu de Jesus, Fílon de Alexandria.

Sendo assim, podemos reafirmar a Quarta Hipótese: Jesus de Nazaré jamais declarou sua divindade, ao contrário, essa lhe foi atribuída por seus seguidores, especialmente os discípulos intelectuais greco-romanos, sobretudo muito tempo depois de sua morte, quando a disposição intelectual cosmopolita afeita à cultura do Império Romano desmontava mitos variados e os reunia em uma síntese cada vez mais elaborada e expansiva. Coube à figura idealizada de Jesus ser o ponto nodal desse esforço, por parte de seus discípulos tardios.

O bom cristão que ler essas linhas, lhes dando algum crédito, poderá perguntar então: sendo assim o que sobra? Quem de fato foi Jesus?

Ora, este é um blog espírita e deste modo é natural que a resposta dada seja obviamente oriunda da doutrina espírita.

Nós espíritas não temos o menor receio de endossar as conclusões historiográficas sobre Jesus de Nazaré uma vez que, de nossa perspectiva, quando as Ciências e as disciplinas acadêmicas se pronunciam sobre seus precípuos objetos de estudo, elas são a autoridade a ser respeitadas e não uma revelação religiosa, por mais respeitável que o seja.

E o que as pesquisas acadêmicas mais recentes nos falam a respeito do Rabi da Galiléia é de um ser humano extraordinário, mas ainda assim um ser humano, um ser humano pleno, integral, congruente com sua percepção da humanidade, de seu povo, do ambiente sócio-cultural-político em que vivia e com as reais necessidades espirituais das pessoas, necessidades essas perfeitamente sintetizadas por Jesus na realidade insofismável, do seu ponto de vista espiritual, de que há um Criador a quem podemos e devemos chamar de Pai, independente de raça, religião, status político ou econômico. Um Pai com quem podemos e devemos nos relacionar e que pede de nós tão somente e principalmente que consideremos o próximo – todo e qualquer ser humano – como irmãos e irmãs, literalmente falando, porque Ele, o Pai, é Pai de todos e somos todos uma imensa família. E que quando nos tratamos sistemática e persistentemente como família, o Reino desse Pai, Reino de paz, de justiça, de perdão e de felicidade, se torna uma realidade concreta em nossas vidas, um grande banquete onde todos celebramos a Paternidade divina e a irmandade de todos para com todos.

Mas a Doutrina Espírita vai além do que se pode concluir com base nas pesquisas dos sábios em suas cátedras. Soma a elas a afirmação de que Jesus de Nazaré foi e é um espírito imortal, como eu e você, que evoluiu em incontáveis vidas reencarnando e desencarnando até chegar a um estado de ser que, por falta de um vocabulário mais específico, chamamos de puro e perfeito. E que veio até nós como ser humano integral reencarnando há cerca de 2.000 anos para reforçar para nós, seus irmãos menores, pequeninos e ainda vacilantes, as excelências morais de se trilhar o caminho do Bem, do Belo e do Verdadeiro, que é o caminho do Amor-Caridade.

Esta visão nos é apresentada em nossa Doutrina em dois momentos muito significativos, mas não exclusivos: em o Livro dos Espíritos, pergunta número 625 e sua resposta com comentário de seu organizador, e no Livro A Gênese, capítulo XV, escrito pelo codificador do Espiritismo contemporâneo, nosso irmão Allan Kardec. Nosso convite a você, que nos lê, é esse: Leia e medite na questão acima indicada do Livro dos Espíritos, com sua respectiva resposta e, em seguida, leia as explicações que o Espiritismo nos fornece sobre a figura de Jesus no interessantíssimo livro de Kardec, A Gênese. Se seu coração estiver aberto a novas possibilidades, é nosso entendimento sincero de que você não irá se arrepender e um novo e maravilhoso horizonte interpretativo se abrirá em sua mente, empolgando-lhe com uma história de 2.000 anos que lhe parecerá paradoxalmente antiga e atualíssima.

Imagem 1 – Fonte: http://smarana.files.wordpress.com/2010/09/duvida.jpg

Imagem 2 – Fonte: http://www.nndb.com/people/238/000044106/cs-lewis-sized.jpg

* postado originalmente em 01/02/2013 em httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br

DE JESUS A CRISTO, A JESUS DE NOVO (ou, POR QUE SER ESPÍRITA É TAMBÉM SEGUIR A JESUS)*

Por Douglas

“Então Jesus e os seus discípulos partiram para as aldeias de Cesareia de Filipe; e, no caminho, perguntou-lhes: quem dizem os homens que sou eu? E responderam: João Batista, outros: Elias; mas outros: algum dos profetas. Então, lhes perguntou: mas vós, quem dizeis que eu sou? Respondendo, Pedro lhe disse: tu és o Cristo. Advertiu-os Jesus de que a ninguém dissessem tal coisa a seu respeito.”

Marcos 8:27-30; Mateus 16:13-20; Lucas 9:18-21                          Almeida Revista e Atualizada.

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Findo um ano do Curso de “Cristianismo e Espiritismo” na Comunhão Espírita de Brasília, provavelmente a primeira coisa que um aluno ou aluna raciocinaria ao ler essas palavras seria: “será que Jesus disse isso mesmo”? Bem, a citação acima faz parte dos três Evangelhos Sinóticos e corresponde a uma tradição muito antiga… Ademais, sua leitura em um contexto que não o do Cristianismo pode ensejar considerações sóbrias: por que advertir a não espalhar isso? Qual a percepção de Jesus de Nazaré quanto ao que ele fazia e seu propósito de vida?

São indagações que historicamente podem gerar respostas das mais variadas, todas elas tão somente hipotéticas. Certeza, certeza mesmo, o pesquisador sério não atribuirá a nenhuma delas, ainda que se incline sinceramente para alguma. Mas estamos falando de um pesquisador acadêmico da área das assim chamadas ciências humanas, que possui limitações quanto aos seus instrumentos de pesquisa, limitações essas que foram surgindo com o justo interesse de se colocar balizas de segurança quanto à pesquisa séria que produz resultados seguros e passíveis de verificação e modificação, quando necessário.

Mas e o pesquisador espírita? Como deve proceder quando surgem estes desafios? Depois de um ano de curso, a esperança dos professores do CriEs – Cristianismo e Espiritismo – é de que a máxima do professor Allan Kardec em a Gênese capítulo 1 item 55 valha mais do que nunca: seguiremos junto com as ciências e os Espíritos, mas se esses disserem algo sobre um fenômeno estudado por estas ciências que elas entendam de  maneira diferente, ficaremos com as ciências, até prova em contrário por parte delas mesmas.

Alguém pode nos perguntar: isso vale para as ciências humanas, para a História, a Antropologia e a Arqueologia, por exemplo? Sim. O sim é simples e prescinde de acréscimos. Vamos agora tentar raciocinar em cima disso. Por que o professor Kardec insiste nesse ponto deste modo? Por que as ciências humanas, falhas, limitadas, em constante mutação diriam a palavra final, se há Espíritos a quem reputamos muito saber e que se encontram na dimensão privilegiada de observação, podendo mesmo nos adiantar o que será descoberto em segurança?

Primeira razão: porque aos Espíritos que já avançaram na caminhada da evolução das vidas, não é dado o direito de tirar o esforço continuado e o aprendizado pessoal e intransferível que cabe a todos nós e a eles, na mesma proporção. Cada um deve se auto-conhecer, se entender, se amar e se melhorar por si só. Podemos ser auxiliados – e efetivamente o somos mais do que imaginamos! –, podemos ser encorajados, motivados reanimados, mas nunca, jamais, poderão fazer por nós o que é nossa obrigação fazer por nós mesmos, assim como isso não foi feito por eles. Poderão eles mesmos reencarnarem e laborarem lado a lado conosco, nos ensinando e, continuando seu perpétuo aprendizado, nos ajudando a nos adiantar, mas não podem nos facilitar o caminho evolutivo que não seja pelo exemplo vivo, andando como gênios da humanidade ao nosso lado, e também pelo consolo sempre certo de onde estão, na pátria espiritual.

Segundo: porque as ciências não são revelações prontas, acabadas, na mesma proporção que o ser humano não é algo pronto, acabado. Crescendo e melhorando o ser humano em saber e nos afetos, mais ele poderá e, portanto, maior e melhor nossas ciências serão. Parafraseando com muito carinho uma frase religiosa cristã pela qual temos entranhado respeito: ‘eis o mistério da fé raciocinada e progressiva – toda vez que melhorarmos através da razão e dos afetos, mais e mais saberemos e poderemos no caminho das ciências, máxime a ciência espírita’. Até porque, “a ciência lhe foi dada para seu adiantamento em todas as coisas…” – Livro dos Espíritos, resposta parcial à pergunta 19.

Terceiro porque entendemos mais do que nunca com o professor Allan Kardec que uma vez livre da vestimenta física, os Espíritos não entram na posse do conhecimento de todos os mistérios. E em sendo assim, quando interagimos com Eles, devemos SEMPRE lembrar que estamos lidando com seres humanos como nós que tem limitações a serem vencidas, assim como nós mesmos. E que eles tem a permissão de seus Maiores para interagir conosco para que JUNTOS aprendamos, pesquisemos, estudemos, como eles o fazem com aqueles que se encontram muito à frente deles.

E, uma vez que o modo de intercâmbio de informações se dá por uma faculdade comum a eles e a nós, desencarnados e encarnados – a medianimidade –, faculdade essa que se encontra em processo de aperfeiçoamento como todos nós estamos, é natural que mais do que nunca saibamos distinguir quem é quem nesse diálogo do lado de lá, com o máximo de cuidado. O professor Allan Kardec declara que esse conhecimento “… É, de certo modo, a chave da ciência espírita, pois só ele pode explicar as anomalias que as comunicações apresentam, esclarecendo-nos sobre as desigualdades intelectuais e morais dos Espíritos” – O livro dos Espíritos, comentário parcial de Kardec à pergunta 100.

Essa prudência toda descrita nos três itens acima não foi tão bem vista assim por todos os contemporâneos espiritistas do professor que codifica a Doutrina em seu tempo. Alguns o viram como um tanto quanto centralizador, outros lamentavelmente como alguém que se recusava a aceitar as revelações impactantes que surgiam, com uma evasão impensável em um homem de saber como ele.

Entendemos que isso é um equívoco e que, ao contrário, todas as vezes que os espíritas seguiam as diretrizes exaradas pelo querido mestre lyonês, todas elas aprovadas pelos Espíritos que se notabilizaram em anos de contato com o grupo ao qual ele fazia parte e que foram testadas inúmeras vezes nestes mais de 150 anos de Doutrina Espírita Codificada, os resultados práticos foram e continuam sendo agradavelmente surpreendentes.

Um dos tópicos mais polêmicos e que ensejou duros desafios para o movimento espírita francês e brasileiro foi o referente a Jesus de Nazaré. Se hoje o rabi da Galiléia fizesse sua pergunta “quem dizem os homens que sou eu?” para os que se dizem espíritas, a resposta dentro do movimento seria claramente multifacetada:

– Deus, para os espíritas que não estudam nunca as obras sérias da Doutrina;

– Um agênere que nunca encarnou em corpos físicos, para os fiéis roustainistas;

– Um médium amorável e vegetariano do Cristo Cósmico Planetário, para os ramatisistas;

– Um espírito perfeito que encarna em um corpo híbrido de material genético alienígena e terrestre, responderiam os miramezistas;

– Um emissário de “o Sistema”, espírito que caiu no equivocado universo físico como todos nós, mas que, após a crucificação, purificou-se de vez e retornou do seu erro para lá e, de lá, tenta nos guiar para que consigamos o mesmo, como querem nos fazer crer os ubaldistas;

E por aí vai. Depois de um ano de estudos em conjunto, vamos rever por fim algumas definições pontuais pertinentes a este tópico que se encontram na codificação do hexateuco kardequiano, as seis obras principais apresentadas pelo estimado professor quando encarnado no século XIX. Antes disso, alguém poderia dizer: mas não estaríamos então incorrendo em um outro “ismo”, nesse caso, o “kardecismo”? Por que os “Kardecistas” tem que estar certos e não Roustaing, Ramatis, Miramez, Ubaldi etc?

Antes de tudo, lembremos que Allan Kardec não tem que estar certo. O princípio que se aplica aos Espíritos desencarnados comunicantes é o mesmo a ser aplicado frente a qualquer encarnado, incluindo o estimado professor. Por isso, a fé que o motivava e que nos motiva é a fé raciocinada e progressista. Ademais, a revelação espírita, a terceira revelação, é uma revelação DOS ESPÍRITOS e não de um homem ou de um Espírito só, encarnado ou desencarnado.

Todavia, o que todos os defensores das linhas de pensamento espiritualista acima mencionados têm em comum com o espírita que se pauta na codificação é a de que, afora as diferenças e discordâncias, muito mais se tem a concordar uns com os outros EM Kardec do que sem Kardec. Expliquemo-nos: ainda que com diferenças de pensamento, todos ainda optam por ter Kardec como a referência didática comum e segura para os primeiros passos no desenvolvimento da fé raciocinada. Por isso insistem em se denominar espíritas, termo cunhado pelo professor de Lyon.  

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O convite que fazemos então nesse momento é: voltemos às raízes do movimento e das manifestações dos Espíritos conforme os passos didáticos do codificador e, com base nisso, vamos comparar com o que a ciência tem trazido. E façamos isso agora no contexto da temática da pessoa de Jesus de Nazaré. O que em termos iniciais e pedagógicos os Espíritos nos revelaram sobre ele? Vejamos:

1)     O Livro dos Espíritos, pergunta 625: Jesus é apresentado como o mais perfeito guia e modelo da perfeição moral a ser aspirada na Terra. Igualmente, como o Espírito mais puro que por aqui apareceu encarnado.

2)    Em o Livro dos Médiuns, no capítulo XXXI, item IX, na observação de Kardec, poderá ser lido que o codificador se refere a Jesus de Nazaré como o “Espírito puro por excelência”.

3)    No Evangelho Segundo o Espiritismo, em sua famosa introdução, o professor se refere já no primeiro parágrafo aos cinco tópicos pertinentes ao tema “Jesus Cristo” pelos quais se podem tratar esse nome: a) os atos comuns de sua vida b) os milagres c) as predições d) as palavras que serviram para estabelecer os dogmas da Igreja e) o ensinamento moral. Em seguida, pontua que a parte moral –  também chamada de código divino – é a única inatacável, inclusive tendo-se em vista o posicionamento de ateus e materialistas que, discordando de um ou vários aspectos dela, não podem deixar de admirá-la.

4)    Ainda no Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo 1 item 4, Allan Kardec se refere à natureza excepcional de seu Espírito (i.e. de Jesus) e de sua missão divina, especificando que além de um código moral Jesus ensinou aos seres humanos que a verdadeira vida está no reino dos céus e lhes aponta o caminho para chegar lá.

5)    Em O Céu e o Inferno, no capítulo 10 item 18, Jesus é chamado de “o messias divino enviado aos homens para ensinar-lhes a verdade e mostrar-lhes o caminho da salvação”. Lembrando a todos que a palavra messias vem do hebraico mashíach, ungido. E lembrando igualmente que no antigo Israel, quando alguém possuía um comissionamento sagrado, essa pessoa era ungida com um óleo perfumado especial, fosse para ser rei, fosse para ser sacerdote, fosse para ser um profeta.

6)    Em A Gênese, a exposição final de Kardec sobre temas espíritas trazida à luz antes de sua morte, Jesus de Nazaré é descrito do seguinte modo no capítulo xv item 2:

“Sem nada prejulgar sobre a natureza do Cristo, cujo exame não entra no quadro desta obra, e não o considerando, por hipótese, senão como um Espírito superior, não podemos deixar de reconhecê-lo como sendo um dos Espíritos de ordem mais elevada e, por suas virtudes, colocado muitíssimo acima da Humanidade terrestre. Pelos imensos resultados que produziu, a sua encarnação neste mundo forçosamente há de ter sido uma dessas missões que a Divindade somente confia a seus mensageiros diretos, para cumprimento de seus desígnios.  Mesmo sem supor que ele fosse o próprio Deus, mas um enviado de Deus para transmitir sua palavra aos homens, seria mais do que um profeta, porquanto seria um Messias divino.

“Como homem, tinha a organização dos seres carnais, mas como Espírito puro, desprendido da matéria, havia de viver mais da vida espiritual, do que da vida corpórea, de cujas fraquezas não era passível. A superioridade de Jesus com relação aos homens não resultava das qualidades particulares do seu corpo, mas das do seu Espírito, que dominava a matéria de modo absoluto, e da do seu perispírito, haurido da parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres. (Cap. XIV, item 9.) Sua alma não devia achar-se presa ao corpo senão pelos laços estritamente indispensáveis. Constantemente desprendida, ela decerto lhe dava dupla vista, não só permanente, como de excepcional penetração e muito superior à que comumente possuem os homens comuns. O mesmo havia de dar-se nele com relação a todos os fenômenos que dependem dos fluidos perispiríticos ou psíquicos. A qualidade desses fluidos lhe conferia imensa força magnética, secundada pelo desejo incessante de fazer o bem.

“Agiria como médium nas curas que operava? Poder-se-á considerá-lo poderoso médium curador? Não, visto que o médium é um intermediário, um instrumento de que se servem os Espíritos desencarnados. Ora, o Cristo não precisava de assistência, pois que era Ele quem assistia os outros. Agia por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal, como, em certos casos, o podem fazer os encarnados, na medida de suas forças. Que Espírito, aliás, ousaria insuflar-lhe seus próprios pensamentos e encarregá-lo de o transmitir? Se porventura ele recebia algum influxo estranho, esse só de Deus lhe poderia vir. Segundo definição dada por um Espírito, ele era médium de Deus”.

Agora paremos para considerar esses pontos frente aos argumentos espiritualistas apresentados antes. Salvo o excerto preciosíssimo de A Gênese, que contradiz frontalmente as premissas roustainistas, pode-se francamente questionar as ilações morais do ensino de Jesus de Nazaré conforme expostas por Allan Kardec? Certamente que não. E com todas elas são concordes todos os grupos que apresentaram, junto ao movimento espírita, seus conceitos diferenciados da codificação quanto a tudo o mais que se referia à vida do rabi da Galiléia.

Ora, se a explanação do professor de Lyon é boa para este ponto, não deveria ao menos ser vista com olhos respeitosos nos outros? Os que se diferenciaram o fizeram sempre pisando inicialmente no terreno seguro das considerações daquele a quem Camille Flammarion chamou de “a prudência personificada”. Mas existe algo a mais nesse comenos.

Quando confrontamos o Jesus Histórico com o Jesus de Nazaré enxergado por Kardec e descrito pelos Espíritos que dialogaram com ele, a genialidade Kardequiana se torna mais patente ainda! De tudo que se escreveu em mais de cem anos de pesquisa históricas sobre o mais famoso judeu da história da humanidade, a parte que salta aos olhos permanecendo incólume é sua moral superior ao tempo em que viveu. Moral tão elevada que fez e faz com que líderes de praticamente todas as grandes religiões, inclusive o Judaísmo, vejam nesse ser humano extraordinário que por aqui passou um irmão amigo dos ideais mais elevados.

Efetivamente, ao compulsar as obras de pesquisadores notadamente agnósticos ou mesmo ateus, tais como John Dominic Crossan, Geza Vermes, Bart Ehrman, Karen Armstrong, Marcus Borg, David Flusser e dezenas de outros, considerados gigantes dessas pesquisas pelas décadas e mais décadas de estudos que efetivaram sobre esse tópico, permanece a intuição genial de Allan Kardec, nascida de sua experiência nos anos de estudos no Instituto de seu mestre Henri Pestalozzi, confirmada pelos Espíritos reveladores da assim chamada terceira revelação e que reverbera notavelmente no imo de nossos corações.

E mais. Diferentemente da complexa estrutura teológica dos cristianismos, sejam eles católico-protestantes, gnósticos ou mesmo judaicizantes, cuja gênese constitutiva é rastreável facilmente no processo histórico de cerca de dois mil anos, com o emaranhado de interesses sinceros ou não que estiveram por trás de seu surgimento, o Espiritismo em sua apresentação de Jesus como Espírito que age nesse planeta sob ordem divina destoa de todos eles.

De fato, o Espiritismo não é uma reedição do catolicismo-protestantismo, e nem do judaísmo cristão dos primeiros séculos da Era Comum, bem como não o é de nenhuma das formas de gnosticismos redescobertos no século passado, tão fascinantes aos olhos de muitos. Nem mesmo é uma colcha de retalhos de todos eles. A Doutrina dos Espíritos tem consistência própria em seus postulados, que se na essência se liga à Filosofia Perene de todos os séculos, como o enxergou o filósofo espírita Léon Denis, é ao mesmo tempo um corpo de informações sólido que se exprime em termos particulares, novos, explicando antigos e novos fatos que se repetem por todas as eras dentro de uma genealogia do saber cultural que começa no Judaísmo, passa pelos ensinos de Jesus e a comunidade Jesuana que com ele conviveu e se corporifica como uma síntese do saber no século XIX.

E assim o faz porque se antes a humanidade dissociou a ciência, a filosofia e a religião, agora ela está apta para reintegrá-los, respeitando suas áreas de produção de conhecimento como áreas integráveis e coordenáveis, mas não mais fundindo elas como se fossem uma coisa só.

Por fim, suas premissas básicas simplesmente estão fora da alçada da pesquisa acadêmica tradicional enquanto esta não reconhecer o objeto de estudo dessa doutrina: o mundo espiritual e suas manifestações. Igualmente enquanto não reconhecer que este objeto de estudo demanda instrumental analítico de pesquisas e testes próprios, como qualquer disciplina nova do saber o requer. Também enquanto não reconhecer as conseqüências racionais e os significados filosóficos em todos os campos da vida humana dessa disciplina de estudo e pesquisa. E, mais importante ainda, enquanto não lhe reconhecer seus justos valores, de cunho espiritual, capazes de nortear a humanidade a novos páramos. Sendo assim, estão essas premissas fora de sua investigação, não podendo ser refutadas ou endossadas.

E quais são essas premissas básicas? É o professor Kardec quem as expõe de modo didático, conforme pode ser lido nos 29 postulados espíritas básicos descritos pelo mestre de Lyon na “Profissão de Fé Espírita Raciocinada”, encontrada na parte primeira de suas “Obras Póstumas”. Agora, o mais fascinante de tudo é: dificilmente, assim o entendemos, os roustainistas, ramatisistas ou ubaldistas se poriam contra eles. Se o leitor ou a leitora tiver alguma dúvida, cheque-os e veja por si mesmo(a).

Ficam assim essas reflexões conclusivas de um curso em constante aperfeiçoamento, mas cujo corpo de professores, depois da desconstrução de muitas estruturas teológicas herdadas dessa e de outras vidas, emergiram do torvelinho com a reafirmação de sua fé espírita raciocinada como inteiramente compatível com a mensagem da boa nova do Reino do Pai, conforme apregoada pelo rabi de Nazaré.

3

Como ele encarnado, podemos dizer: “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” (Mateus 22:34-40; Marcos 12:28-31; Lucas 10:25-28). Como ele, agora na pátria espiritual, podemos dizer: “espíritas, amai-vos, eis o primeiro mandamento. Instruí-vos, eis o segundo” (Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VI item 5, quarto parágrafo). Mas perdura a pergunta de Jesus ao coração de cada um de vocês, para que respondam e ele em sua sinceridade: “mas vós, quem dizeis que eu sou?”

NOTAS:

1: http://forums.catholic.com/showthread.php?t=261339&page=10 2: http://espiritualidadee.blogspot.com.br/2009/05/o-suicidio-de-allan-kardec.html 3: http://catholicphilosophyblog.com/2014/01/02/will-the-real-catholic-church-please-stand-up/

* publicado originalmente em 27/01/2014 em http://httpblogcristianismoespiritismo.blogspot.com.br/