Satanás no Antigo Testamento

Iara Paiva

A história do povo hebreu é permeada de guerras e conflitos, seculares e religiosos. Na busca de se estabelecer como nação e povo escolhido por Deus, a religiosidade, presente em todos os aspectos do cotidiano dos hebreus, influenciou a maneira como foram retratados seus inimigos, sendo estes vinculados a figuras mitológicas representativas do mal.

Alguns dos profetas, alegando inspiração divina, utilizaram figuras da mitologia cananeia como símbolo dos inimigos de Israel como em Isaías 27:1: “Naquele dia, punirá Iahweh, com sua espada dura, grande e forte, Leviatã, serpente escorregadia, Leviatã, serpente tortuosa, matará o monstro que habita no mar”. Se o inimigo era temível, Iahweh era implacável.

A partir do século IV aEC, imagens mitológicas começaram a ser associadas aos inimigos internos de Israel, porém, a figura não era mais monstruosa e sim um membro importante da corte divina conhecido por Satanás.

Na Bíblia Hebraica, Satanás não é o líder dos demônios, personificação do mal como o conhecemos na atualidade. Em sua estreia nas escrituras ele não é inimigo de Deus, tampouco maligno em sua essência.

No livro de Jó, Satanás é um ser angélico, membro da corte celeste, servo de Deus. A palavra grega, angelos, que originou o vocábulo anjo e que foi traduzida do termo hebraico malak, tem o significado de mensageiro. Anjos eram também conhecidos como filhos de Deus. Por sua vez, o termo hebraico satanás, significa adversário e não era inicialmente um personagem específico. Sua conduta era de um ser sobrenatural enviado por Deus para obstruir a atividade humana. O termo grego diabolos, que originaria o termo diabo, significa apenas “ alguém que atira algo no caminho”. Esse personagem era enviado, assim como o anjo da morte, em missões que muitas vezes não eram agradáveis aos humanos, porém necessárias.

A história de Balaão, no livro dos Números, é um exemplo interessante da atuação satânica para mudar os planos humanos visando uma ordem divina. Balaão desobedeceu às ordens de Iahweh, que enviou um anjo com uma espada para lhe barrar a passagem. A jumenta de Balaão, vendo o anjo, desviou do caminho. Para obrigá-la a permanecer no caminho ele espancou a jumenta, que continuou tentando desviar do anjo. A cena da punição do animal se repetiu três vezes. Por fim, a jumenta falou reclamando do tratamento recebido (animais falantes são parte da tradição javista, como a serpente do Éden) e o Anjo de Iahweh se revelou explicando que se a jumenta não tivesse desviado do caminho, ele já teria sido morto. Balaão concordou em obedecer aos desígnios divinos a partir deste incidente. A ação do mensageiro teve um caráter disciplinante. (Números 22: 22-35)

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No livro de Jó, escrito por volta de 550 aEC, satanás não teve um caráter protetor, chegando o Senhor a admitir que satanás o incitou a ir contra Jó. No capítulo primeiro, o autor narra uma reunião da corte celestial. Os filhos de Deus (anjos) apresentam-se a Iahweh, inclusive Satã, que havia chegado de uma volta pela Terra. Iahweh perguntou se ele viu seu servo Jó, que seria o mais íntegro e reto temente a Deus. Satã replicou que Jó só era temente a Deus porque fora abençoado com muitas posses e que se perdesse tudo o que possuía blasfemaria contra Deus. Iahweh permitiu, então, que Satã tirasse tudo de Jó, mas que não lhe fizesse mal diretamente. Por meio da intervenção satânica, Jó perdeu seu rebanho, seus filhos e todos os seus bens, mas ainda assim continuou fiel. Satã pediu permissão para endurecer a prova lhe enviando uma moléstia de pele. Jó suportou o sofrimento e Deus lhe restituiu o dobro do que tinha e nova descendência. Este final insinua o início de uma tendência que se fortaleceria com a literatura escatológica, de que, apesar da ação satânica, ao final Deus sempre vence.

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Por volta da época em que foi escrito o Livro de Jó, o autor do Livro 1 Crônicas utilizaria novamente a figura de Satanás, desta vez para justificar um ato indesejado ordenado pelo Rei Davi. Ao ordenar o recenseamento para instituir o sistema tributário, Joab, seu principal comandante tentou convencê-lo de que a medida seria impopular, “causa de pecado a Israel”. Davi, porém, foi irredutível e o senso foi realizado. Para condenar o ato sem tampouco comprometer o Rei, o cronista atribuiu o feito à influência de Satanás: “Satã levantou-se contra Israel e induziu Davi a fazer o recenseamento de Israel”. (1 Crônicas 21: 1)

Interessante que o mesmo fato é narrado em 2 Samuel 24: 1, porém a responsabilidade por incitar o rei é atribuída à ira de Iahweh sobre Israel. Podemos ver que prejudicar os humanos não era prerrogativa apenas de Satã e as ações de Deus e de Satanás eram por vezes tão semelhantes que se confundiam entre si.

Apesar de ter sido influenciado, segundo 2 Samuel pelo próprio Iahweh, Davi se arrependeu e pediu perdão a Iahweh que, por intermédio do profeta Gad, propôs que o rei escolhesse a penitência entre três opções: sete ou três anos de fome (os relatos são diferentes em 2 Samuel e 1Crônicas), três meses de derrota fugindo do adversário na guerra ou três dias de peste. Davi escolheu a última e setenta mil homens de Israel morreram pela espada do anjo divino. Satã provocou um recenseamento, Iahweh ordenou o extermínio de setenta mil.

Aos poucos foi se firmando a ideia de que Satanás não era apenas um agente divino, mas um adversário de Iahweh e de Israel, conforme demonstra a narrativa do profeta Zacarias 3: 1-2: “Ele me fez ver Josué, sumo sacerdote, que estava de pé diante do Anjo de Iahweh, e Satã, que estava de pé à sua direita para acusá-lo. O Anjo de Iahweh disse a Satã. “Que Iahweh te reprima Satã, reprima-te Iahweh, que elegeu Jerusalém”.

A narrativa de Zacarias tem como contexto os conflitos gerados entre os que retornaram da Babilônia após o término do exílio (538 a EC) e aqueles que permaneceram em Jerusalém. O profeta tomou o partido dos que retornavam e associou Satanás aos habitantes identificados como inimigos que, tendo permanecido na cidade, não aceitavam Josué como sumo sacerdote.

A nova perspectiva de Satanás, que passa de um servo de Deus a seu opositor, deve-se em grande parte à influência do zoroastrismo, religião persa com a qual os judeus tiveram contato durante o período de exílio na Babilônia. Zoroastro acreditava que a guerra na Terra refletia a guerra no céu. Sua doutrina dualista colocava em oposição os deuses Ahura Mazda, representante do bem, e Ahriman, do mal. Ao retornar para Jerusalém, os exilados adaptaram ao monoteísmo judaico a ideia dos deuses Ahura Mazda e Ahriman associando-os respectivamente a Iahweh e Satã. Durante o longo período em que permaneceram exilados, a sensação de terem sido abandonados por Deus provocou questionamentos sobre os motivos das desgraças que recaíram sobre o povo eleito. A ideia de uma potência celeste em oposição a Iahweh atuando na Terra fazia todo sentido para explicar a situação pela qual estavam passando.

Para espanto de muitos, a menção a Satanás no Antigo Testamento é rara. A figura maligna e poderosa que conhecemos hoje como Diabo ganhará importância nos escritos apócrifos judaicos, que surgiram após as dissidências entre os judeus depois da revolta de Judas Macabeu em 167 aEC, e principalmente na literatura cristã. A luta entre o bem e o mal tomará proporções cósmicas na literatura apocalíptica que será abordada em texto posterior.

Bibliografia:

Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada, 8ª reimpressão, São Paulo: Editora Paulus, 2012.

BOWKER, John (org). O livro de ouro das religiões. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.

PAGELS, Elaine. As origens de satanás; tradução Ruy Jungman, 2ªedição, Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.

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