Quem escreveu o pentateuco? O Caráter fragmentário dos textos bíblicos

QUEM ESCREVEU O PENTATEUCO? O CARÁTER FRAGMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
Iara Cecília Monteiro de Barros Almeida Paiva

Artigo científico apresentado à Universidade Cândido Mendes – UCAM como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Ciências da Religião
RESUMO
Este artigo tem por finalidade demonstrar por um minucioso exame do Pentateuco bíblico, utilizando métodos científicos, que a autoria dos livros atribuída a Moisés, conforme a tradição judaico-cristã, é equivocada. Os relatos fragmentados e muitas vezes incoerentes entre si apontam para uma autoria plural e diversificada. Há ainda o objetivo de verificar se é possível identificar os prováveis autores do texto. Neste caso, a proposta é dar exemplos de alguns trechos significativos atribuídos pela crítica literária bíblica, às tradições Javista, Eloísta, Deuteronomista e Sacerdotal, conforme proposta na hipótese documentária. A investigação verifica a possibilidade de haver glosas posteriores que modificaram ainda mais os textos das quatro tradições do Pentateuco. A metodologia utilizada no presente artigo é a revisão bibliográfica de produções literárias de renomados autores especialistas, ilustrada por exemplos de fragmentos discordantes do Pentateuco selecionados por mim, especialmente para este artigo.
Palavras-chave: Bíblia, Pentateuco, Javista, Eloísta, Deuteronomista, Sacerdotal.
Introdução
Este trabalho tem por finalidade principal demonstrar que há diferentes estratos de textos sobrepostos nos cinco primeiros livros da Bíblia e que isso indica a existência de autores diversos, que escreveram em épocas diferentes e com intenções variadas. Os autores bíblicos, quando se propuseram a documentar por escrito as leis de Deus, a história do povo e dos seus patriarcas, não estavam fazendo uma narrativa histórica, conforme os padrões atuais, mas escrevendo uma histórica religiosa que ajudou o povo judeu a construir sua identidade como nação. Durante muitos séculos, a tradição judaico-cristã atribuiu a autoria do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia, a Moisés. A partir do final do século XVIII, a análise textual da Bíblia demonstrou que a autoria estava equivocada e que, na realidade, há vários autores, de variadas épocas envolvidos na redação do Pentateuco, conforme demonstram as várias narrativas duplicadas presentes nele. No século XIX, conforme afirma Armstrong (2008), os estudiosos da Crítica Superior, principalmente por influência de Julius Wellhausen, chegaram à conclusão de que há pelo menos quatro estratos diferentes de autores no Pentateuco, teoria que será denominada neste trabalho como hipótese documentária. Cada estrato do texto foi chamado de tradição, por ser fruto de mais de um autor com características e propósitos semelhantes provenientes de uma mesma cultura e região. Apesar de ter recebido inúmeras críticas, a hipótese documentária é amplamente utilizada pelos estudiosos bíblicos nas suas publicações sobre o assunto e nos comentários dos textos das Escrituras, como no caso da Bíblia de Jerusalém (2012) e da Bíblia de Tradução Ecumênica (2002) e pode ser demonstrada, em parte, com a utilização de extratos de trechos do próprio texto do Pentateuco. Este trabalho, ao trazer exemplos práticos de duplicatas e divergências textuais, visa facilitar a compreensão de que o Pentateuco não é uma narrativa linear, que há relatos mitológicos permeando os fatos históricos, que a tradição da autoria por Moisés é equivocada e que, apesar dos problemas encontrados, o Pentateuco não deixa de ser uma fonte fundamental para conhecer a cultura e a crença do povo hebreu, que originou o judaísmo e o cristianismo, religiões que fazem parte da base de grande parte da nossa cultura brasileira.
Desenvolvimento
O Pentateuco é a coleção dos cinco primeiros livros das Bíblias hebraica e cristã composta pelos livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.  O primeiro livro é o Gênesis, que conta a história das origens da humanidade, dos patriarcas Abraão, Isaac, Jacó e José, terminando com a divisão das doze tribos de Israel que estão na origem do povo judeu. O Êxodo narra o período em que os hebreus foram escravizados no Egito e como Moisés os libertou pela interseção de Iahweh, o Deus de Israel, abrindo o Mar Vermelho, conduzindo-os pelo deserto e entregando os mandamentos divinos inscritos nas Tábuas da Lei. O Levítico interrompe a narrativa para apresentar leis referentes principalmente ao sacerdócio, ritos e festas religiosas. O livro dos Números, continua a narrativa do deserto com o recenseamento do povo, o tempo passado no deserto e a partilha antecipada de Canaã. O Deuteronômio contém os últimos discursos de Moisés introduzindo novas leis e escolhendo Josué como seu sucessor.
Conforme explicado na Introdução ao Pentateuco da Bíblia de Jerusalém (BÍBLIA, 2012, p. 22), tradições antigas acreditavam que Moisés teria sido o redator do Pentateuco, ao menos parte dele. Esta ideia permanecia ainda na época imediatamente posterior a Jesus, conforme relatado na Epístola aos Romanos capítulo 10, versículo 5: “Moisés, com efeito, escreveu a respeito da justiça que provém da Lei: é cumprindo-a que o homem vive por ela” (BÍBLIA, 2012, p. 1983). Atualmente, ainda há quem acredite que Moisés foi o redator dos cinco primeiros livros da Bíblia, no entanto, muitos exegetas e a maioria dos historiadores concordam que os que pensam assim estão enganados.  Em primeiro lugar, encontramos no último capítulo do Deuteronômio o relato da morte de Moisés que não poderia ter sido escrito pelo próprio, por motivos óbvios. Há informações nos textos do Pentateuco que não condizem com a época em que ele viveu, como a consagração de casas e campos arados que são realidades posteriores à época em que os hebreus teriam vivido no deserto habitando tendas, demonstrando que os textos foram escritos muitos anos após a época de Moisés. Há, ainda, muitos indícios de que não houve um único autor para a totalidade do Pentateuco como demonstram os dois relatos independentes da criação que estão nos capítulos 1 e 2 do Gênesis (BÍBLIA, 2012, p. 33, 35). Outro exemplo interessante de ser analisado é o evento conhecido como êxodo, o tema principal dos quatro últimos livros do Pentateuco. O êxodo bíblico, ou seja, a saída do povo hebreu da escravidão do Egito em busca da Terra Prometida por Deus, Canaã, teria ocorrido por volta do ano 1250 a.C. (BÍBLIA, 2012, p. 2171) segundo a cronologia bíblica. No entanto, há muitas evidências de que o êxodo não é um episódio histórico e, portanto, não poderia ter sido documentado por Moisés ou qualquer outro personagem daquela época. Segundo Armstrong:
“[…]arqueólogos israelenses que vêm escavando a região desde 1967 não encontraram evidência alguma que corrobore essa história: não há sinal de invasão estrangeira ou destruição em massa, e nada que indique uma mudança em grande escala da população. O consenso entre os estudiosos é que a narrativa do Êxodo não é histórica. Há muitas teorias. O Egito dominara as cidades-estado cananeias desde o século XIX a.C., e havia se retirado no fim do século XIII, pouco antes que as primeiras povoações aparecessem na região montanhosa até então inabitável. Ouvimos falar pela primeira vez num povo chamado “Israel” nessa região por volta de 1200 a.C. Alguns estudiosos afirmam que os israelitas eram refugiados das cidades-estado em declínio nas planícies costeiras. Talvez tenham se juntado a eles outras tribos vindas do sul, que levavam consigo seu deus Jeová, que parece ter tido origem nas regiões em torno do Sinai, ao sul. Os que haviam vivido sob o domínio egípcio “”nas cidades cananeias talvez tenham tido a impressão de que haviam sido libertados do Egito – mas em seu próprio país.” (ARMSTRONG, 2008, p.21)
O arqueólogo israelense, Finkelstein, acrescenta:
“No fundo, houve um movimento de pessoas dentro e fora do Egito no final da Idade do Bronze e da Idade do Ferro, e uma memória foi desenvolvida sobre um possível evento antigo, e depois essa memória ganhou importância e foi transmitida oralmente por várias gerações até que finalmente se tornou a história do Êxodo por escrito. Não estou dizendo que não há qualquer germe histórico nela. Você nunca vai me ver dizer isso. Mas eu não vejo isso como totalmente histórico também”. (FINKELSTEIN, 2010)
O caráter mitológico de algumas partes do Pentateuco já é admitido até mesmo pelo Papa Francisco, que, durante um discurso na Pontifícia Academia de Ciências em outubro de 2014, afirmou que “o Big Bang não contradiz a intervenção criadora, mas a exige” e acrescentou que “a evolução da natureza não é incompatível com a noção de criação, pois exige a criação de seres que evoluem”. O papa criticou ainda aqueles que leem o livro do Gênesis, que relata a origem do mundo, e pensam que Deus agiu como um mago. “Não é assim” (PAPA FRANCISCO, 2014). Desta forma, não há como sustentar a hipótese de Moisés ter relatado por escrito no Pentateuco os episódios exatamente como ocorreram, já que o texto bíblico não corresponde à realidade dos fatos. Armstrong (2008) nos conta que Baruch Spinoza (1632-77) foi um dos primeiros no estudo das origens históricas e dos gêneros literários da Bíblia, concordando que Moisés não poderia ter escrito todo o Pentateuco e afirmando que o texto era obra de diversos autores, sendo o pioneiro do método histórico-crítico que ficaria conhecido como Crítica Superior da Bíblia. No final do século XVIII, Jean Astruc (1684 – 1766) e Johann GottfriedEichorn (1752 – 1827)  afirmaram que havia dois documentos no Gênesis: o Javista e o Eloísta, que denominavam seus deuses respectivamente de Javé (Iahweh) e Elohim. No século XIX, já se sabia que havia quatro fontes independentes no Penteteuco e em 1805, De Wette afirmou que o Deuteronômio era provavelmente o livro encontrado no Templo de Jerusalém, durante a reforma do Rei Josias (622 a.C.). Karl Graf (1815-69) afirmou que o documento mais recente era o correspondente à tradição Sacerdotal. Julius Wellhausen (1844-1918) consolidou a hipótese documentária de quatro fontes: Javista (J), Eloísta (E), Deuteronomista (D) e Sacerdotal (P), mas também afirmou que há estratos oriundos de acréscimos posteriores.
Conforme a pesquisa avançava, consolidou-se a versão de que há ao menos quatro tradições intrincadas no Pentateuco (JEDP), no entanto, verificou-se que era bastante difícil separar, exatamente, cada camada dos estratos das diferentes tradições. Mesmo assim, com base no conhecimento de cada tradição e suas características principais, alguns exemplos mais representativos podem ser elencados. A tradição Javista (J), proveniente do Reino de Judá, ao sul, apresenta um Deus (Iahweh) antropomórfico, conforme encontramos nos relatos do segundo capítulo  do Gênesis, onde Deus passeia pelo Jardim do Éden. Em outras partes ele fecha a Arca de Noé (BÍBLIA, 2012, p. 44) e enterra Moisés (BÍBLIA, 2012, p. 305). A tradição Eloísta (E), proveniente do Reino de Israel, ao norte, denomina Deus como Elohim. Esta divindade já é mais transcendente e não convive diretamente com os humanos, enviando anjos como seus mensageiros e representantes. Um exemplo é encontrado no capítulo 23 do Êxodo, no qual Deus envia um anjo, que representa seu nome, para conduzir o povo até Canaã. Acredita-se que as narrativas javistas e eloístas tenham sido reunidas após a destruição do Reino de Israel pelos Assírios (734 a.C.), provocando a migração dos povos do norte para Judá, ao sul, que levaram com eles as suas tradições específicas. A tradição Deuteronomista (D) foi iniciada pela descoberta de um texto atribuído à Moisés, durante a reforma do Templo de Jerusalém, no século VII a.C. realizada pelo Rei Josias. O texto provavelmente foi produzido naquela época para satisfazer os desejos de reforma do culto, conforme nos explica Armstrong (2008, p.27). “A Lei era tão nova, que quando Josias a ouviu, rasgou suas vestes em desespero e buscou colocá-la imediatamente em prática” (BÍBLIA, 2012, p. 539).

Um exemplo desta tradição é o código de leis encontrado no capítulo 12 do Deuteronômio. A tradição Sacerdotal (P) foi composta durante e logo após o exílio dos judeus na Babilônia, provocado pela invasão e destruição de Jerusalém por Nabucodonosor (597 a.C.). Um exemplo de texto sacerdotal é o relato da criação que teria sido realizado por Deus, em seis dias, encontrado no primeiro capítulo do Gênesis. Os livros Levítico e Números são outros exemplos. Há muitos outros textos de autoria sacerdotal mesclados com textos mais antigos de tradições javista e eloísta, formando uma “colcha de retalhos” principalmente nos livros Gênesis e Êxodo. Após a conclusão do texto do Pentateuco, com a combinação das quatro tradições, outras inserções foram acrescentadas posteriormente. Encontramos no
livro de Neemias o relato do sacerdote Esdras (398 a.C.), enviado do Rei Persa, lendo e explicando a Lei ao povo que chorava copiosamente por não estar cumprindo as prescrições, demonstrando que o que Esdras leu era provavelmente desconhecido do senso comum e deve ter sido incorporado posteriormente ao Pentateuco (BÍBLIA, 2012, p. 649). Além deste exemplo, encontramos outras evidências de acréscimos posteriores.  Um provável adendo é demonstrado pela discrepância que encontramos no relato javista da adoração do Bezerro de Ouro pelo povo, enquanto Moisés recebia as Leis na montanha, contido no capítulo 32 do Êxodo. Moisés suplicou para que Deus não punisse o povo, no que foi atendido. Entretanto, apenas alguns versículos à frente, Moisés ordenou a execução de três mil homens que haviam sido infieis a Deus por adorarem o ídolo de ouro. Este último trecho pode ter sido uma interpolação posterior realizada por um escriba que, indignado, achou que aqueles que idolatraram outros deuses deviam ser punidos, pensamento típico do monoteísmo estrito que tornou-se comum apenas vários anos após o retorno do exílio, quando as quatro tradições já estavam consolidadas. Podemos demonstrar vários exemplos da fragmentação do texto bíblico, oriundos das muitas camadas, dos diversos autores do Pentateuco. Os dez mandamentos, conhecidos como Decálogo, base das leis judaicas e cristãs, não faziam parte do texto original no local onde hoje se encontram. O texto imediatamente anterior diz: “Desceu pois Moisés até o povo e disse…” (Ex 19: 25) e permanece sem conclusão, pois, logo em seguida começa o trecho do Decálogo que diz que o próprio Deus o pronunciou (BÍBLIA, 2012, p. 130). Aliás, não há concordância em relação à quem pronunciou a Lei. Foi o próprio  Iahweh que pronunciou o Decálogo como no capítulo 20 do Êxodo, ou foi Moisés conforme o capítulo 24?  Quem escreveu a Lei e onde? Foi Moisés que escreveu no Livro da Aliança, como no capítulo  24, versículos 4 a 7 do Êxodo? Ou foi o próprio Iahweh que escreveu nas Tábuas do Testemunho, como no capítulo 31, versículo 18 do Êxodo?  Quem poderia subir o Monte Sinai para conversar com Deus e receber suas instruções? No Êxodo capítulo 19, versículo 24, apenas Moisés e Aarão eram permitidos. No capítulo 24, versículo 9, encontramos o seguinte relato: “E Moisés, Aarão, Nadab, Abiú e os setenta anciãos de Israel subiram. Eles viram o Deus de Israel” (BÍBLIA, 2012, p.137). A contradição é evidente com o relato do capítulo 20 em que nem Moisés poderia ver a face de Deus, porque isso provocaria a morte de qualquer ser humano (BÍBLIA, 2012, p. 151). Até mesmo o shabat, que “é a principal contribuição original da cultura judaica para a civilização humana” (SORJ, 2009, p. 27, tradução nossa), tem variações quanto ao motivo pelo qual deve ser um dia de repouso e consagração à Deus. Na tradição mais antiga, Javista, expressa em Êxodo capítulo 23, versículo 12, o motivo do shabat, é o descanso dos animais,  das crianças e dos estrangeiros. Segundo Armstrong:
No Deuteronômio, o Shabat surge para proporcionar um dia de folga a todos, até mesmo aos escravos, e para fazer os israelitas lembrarem o Êxodo. Em P, adquire um novo significado: torna-se um ato de imitação de Deus e uma comemoração da criação do mundo. Ao observar o repouso do Shabat, os judeus participavam de um ritual que, na origem, só deus observara: era uma tentativa simbólica de viver a vida divina (ARMSTRONG, 2012, p. 88).
Além dos exemplos dos diversos estratos que por vezes se contradizem, há também outros que demonstram que o texto não foi escrito em um contexto de um povo nômade passando por décadas no deserto. Encontramos no Código da Aliança, em Êxodo capítulo 20, prescrições quanto ao rebanho, plantações e escravos hebreus. Um povo que acabou de escapar da escravidão faria leis regulamentando escravos entre seu próprio povo? Se eles eram nômades em um ambiente desértico teriam prescrições quanto à colheita? E o que dizer da lei que prevê punição para um ladrão surpreendido arrombando um muro para roubar gado em uma sociedade em que todos habitavam tendas? (BÍBLIA, 2012, p. 133). É evidente que o texto reflete uma realidade de um povo estabelecido em Canaã a um tempo suficiente para construir muros de pedra, ter grandes plantações e diversos animais, demonstrando uma redação tardia do relato. Moisés, segundo a narrativa do Deuteronômio, não entrou na Terra Prometida, Canaã, morrendo em sua fronteira. Não faz sentido atribuir a ele este texto. Há ainda muitos outros exemplos que servem para ilustrar o quão fragmentário, divergente e mitológico é o Pentateuco bíblico, basta examinar minuciosamente e com isenção seus diversos textos.
Conclusão
Os diversos estratos do texto do Pentateuco, apresentando muitas vezes ideias divergentes e impossíveis de serem conciliadas, quando submetidos a um exame acurado, não permitem que afirmemos a hipótese de Moisés como único autor. O trecho em que o Deuteronômio relata a própria morte de seu protagonista e temas encontrados ao longo do texto que não condizem com a realidade de nômades no deserto comprovam que a autoria do Pentateuco atribuída a Moisés não se sustenta quando se utilizam métodos científicos.  Os relatos que compõem o Pentateuco foram transmitidos oralmente por muitos anos, permeando fatos históricos com mitos de formação do povo judeu. A tradição escrita foi iniciada, provavelmente, apenas a partir do século VIII a.C. (ARMSTRONG, 2008) e a partir de então vários autores, em épocas diferentes, contribuíram para dar a forma atual que o Pentateuco apresenta. Isso sem contar com as possíveis diferenças atribuídas às diversas traduções pelas quais o texto passou durante milênios. A hipótese documentária, que atribui a redação do Pentateuco não a um autor, mas a vários autores denominados tradições Javista, Eloísta, Deuteronomista e Sacerdotal, possui evidências consideráveis, conforme aqui exemplificados. Ainda assim, é muito difícil determinar quando se inicia uma tradição e termina a outra. Há que se considerar que interpolações tardias ou pertencentes a outras tradições certamente ocorreram. O fato de estar demonstrado que o Pentateuco não pode ser considerado historicamente preciso, de que há trechos baseados em mitos e personagens que provavelmente nem existiram é importante para o conhecimento daqueles que consultam a Bíblia em busca do que realmente ocorreu na história do povo hebreu. Não podemos aceitar, cientificamente, que a Bíblia é expressão de verdades incontestáveis. Outrossim, ela é uma das fontes mais importantes para conhecer a religião judaica e cristã e para compreender a cultura que permeia a nossa sociedade.  O caráter sagrado do Pentateuco permanece, até hoje, para muitas pessoas e deve ser respeitado e valorizado. Mas para nós, que pretendemos estudar as Escrituras pelo viés científico, é importante lembrarmos que a Bíblia é um livro de história religiosa  e assim deve ser utilizado e compreendido por especialistas em Ciências da Religião.

REFERÊNCIAS
ARMSTRONG, Karen. A Bíblia, uma biografia. Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.
__________________. Uma história de Deus. Quatro milênios de busca do judaísmo, cristianismo e islamismo. Tradução Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia de Jerusalém. Nova edição, revista e ampliada. 8 impressão. São Paulo: Editora Paulus, 2012.
BÍBLIA. Português. A Bíblia tradução ecumênica. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
FINKELSTEIN, Israel; SILBERMAN, Neil Asher. A Bíblia não tinha razão. Tradução Tuca Magalhães. São Paulo: A Girafa Editora, 2003.
FINKELSTEIN, Israel. The devil is not so black as he is paintead. Biblical Archaelogy Review, v. 36, n. 3, may/june 2010. Tradução disponível em: http://numinosumteologia.blogspot.com.br/2010/04/entrevista-com-israelfinkelstein.html. Acesso em: 25/03/2017.
Papa Francisco diz que Big Bang e teoria da evolução não contradizem a lei cristã. Disponível em: http://g1.globo.com/ciencia-e-aude/noticia/2014/10/papa-diz-que-bigbang-e-teoria-da-evolucao-nao-contradizem-lei-crista.html. Acesso em: 25/03/2017.
SORJ, Bernardo. Judaísmo para todos. Buenos Aires, Argentina: Siglo XXI Editora Iberoamericana, 2009.

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